“Não é o meu trabalho que é feminista, eu que sou”. Uma conversa com a artista Fernanda Oliveira, do perfil @ahuterina

Descobri a Fernanda Oliveira, durante essas tardes de domingo em que a gente não quer fazer nada, além de zapear pela televisão ou as redes sociais. Na verdade, não descobri a artista Fernanda (ela eu conheci bem mais tarde), mas sim o perfil no Instagram da @ahuterina. Parei, prestei atenção e fiquei maravilhada com a sutileza das colagens e bordados de seus trabalhos.

Além das imagens, uma das primeiras coisas que me chamou a atenção, foi o nome escolhido: ahuterina?? O que seria isso? (pobre de mim, que nem relacionei a palavra com meu próprio útero). Mas mesmo sem fazer essa conexão tão óbvia, eu entendi cada palavra, cada colagem e cada imagem produzidas e postadas naquele perfil. Não pensei duas vezes, antes de fazer contato com a artista por trás daquela arte, questionadora e defensora dos direitos e liberdades de escolha de todas as mulheres. O encontro aconteceu em Setembro de 2021, mas por motivo de força maior a nossa entrevista só nasceu agora, em 2022.

Marcamos um café no centro da cidade de Joinville/SC, ainda com muito receio dos encontros presenciais, mas já vacinadas. Minha primeira impressão foi a melhor possível: além de muito talentosa, Fernanda é um doce de pessoa. Cheia de ideias e referências, logo tínhamos uma mesa repleta de telas, colagens, gravuras e bordados – um trabalho feito por ela, mas que transbordava o grito de outras mulheres. Eu estava lá, entusiasmada e ouvindo suas histórias, as histórias da mulher, mãe, doula e artista. Entendi porque o perfil tinha me chamado tanto a atenção e de onde vinha toda aquela força e verdade.

Fernanda Oliveira


Decidi ser Doula porque queria ajudar as mulheres a passarem com mais respeito pelo parto e ajudar a desmistificar o que envolve a gestação e é reforçado pela medicina”.


Fernanda é doula por opção e profissão, e artista para exercitar a liberdade. Produz trabalhos visuais que transitam pela técnica da colagem e bordado, na intenção de promover reflexões acerca dos direitos e do papel da mulher na sociedade. Na entrevista que concedeu ao Arte na Cuca, a artista fala sobre suas pesquisas, o projeto @ahuterina e de onde vem a inspiração para a produção visual que já recebeu o reconhecimento do Quebrando o Tabu (marca de mídia multiplataforma especializada em Direitos Humanos).

Celiane: Nossos leitores (assim como eu), desejam saber um pouco mais sobre quem é a Fernanda Oliveira, nos fale a respeito da tua trajetória profissional e pessoal.

Fernanda: Bom, meu nome é Fernanda Oliveira, tenho 35 anos e como ocupação profissional sou Doula, mas é na arte onde encontro formas de expressar o que me atravessa e me conectar com meus sentimentos. Decidi ser Doula porque queria ajudar as mulheres a passarem com mais respeito pelo parto e ajudar a desmistificar o que envolve a gestação e é reforçado pela medicina. Eu não sou muito boa pra falar em público, por exemplo. Mas na arte encontro essa facilidade de comunicação.


Celiane: Você pode nos contar um pouco sobre a tua trajetória como artista visual? Como foi o início dos trabalhos em colagem e bordado?

Fernanda: É algo que sempre esteve presente, como se fizesse parte de mim. Naturalmente fui levada a trabalhar em ateliês, a ministrar aulas e oficinas, e a expor meu trabalho para que as pessoas pudessem conhecer. Fui passando por vários caminhos e experimentos até aqui. 

Celiane: Como é seu processo de criação? De que forma organiza, reorganiza e decide sobre a produção de um novo trabalho?

Fernanda: As vezes é intuitivo, as vezes são gritos que precisam sair. Depois disso seleciono se no papel ou tecido, ou os dois juntos, se necessita de pesquisa ou não. Visualizo na minha cabeça e só desaparece dos pensamentos quando consigo trabalhar naquilo e na maioria das vezes, faço um planejamento prévio em papel antes de iniciar.


Celiane: Seus trabalhos provocam muitos questionamentos e chamam a atenção para questões contemporâneas dos pensamentos feminino. Também me chamou a atenção o fato das tuas colagens dar visibilidade a corpos de mulheres brancas e poucos trabalhos trazem a representatividade da mulher negra, pode nos falar algo a respeito?

Fernanda: Uso sempre revistas antigas, anos 70, 80 e de moda, não existia mesmo essa representação. Ganhei uma coleção de revistas completa da Agulha de Ouro, devem ter umas 90 revistas dos anos 80, não há mulheres negras, nem na capa nem dentro, é muito perceptível … Há 2 recortes, um dos anos 70 e outro dos anos 80 no meu feed. E bordado de peitinhos, onde busquei representar todas as cores. Mas também não acho que meu trabalho deva abordar todos os temas, nem que eu tenha esse compromisso de contemplar a todas … levo pra vida o ” pessoal é político” e são nas minhas ações que sou feminista, a minha arte é só uma parte disso, entende? não é o meu trabalho que é feminista, eu que sou.
É no pessoal que eu compro, exalto, indico, mulheres negras, deficientes, lésbicas, etc. No pessoal é onde eu participo de políticas e ações públicas que é de onde surgirão mudanças efetivas, no offline, principalmente sendo antirracista. Se eu fosse uma grande marca, aí sim eu te diria que eu teria o dever de contemplar e representar todas as mulheres. Como mulher artista, eu expresso apenas um pedaço do meu entorno com os materiais ao meu alcance.

Celiane: Você acredita que a arte pode ser um caminho para chamar a atenção da sociedade, no que diz respeito aos direitos humanos e direitos das mulheres?

Fernanda: Acredito muito. A partir do momento em que levantamos o questionamento já estamos no caminho para mudanças. Falar de representatividade, voz e denúncia, muitas vezes através do bordado, considerado culturalmente um passatempo doméstico, já é uma ampliação do olhar.

Celiane: Nos fale de algumas das tuas referências de pesquisa… Quais sãos as mulheres que te inspiram, e os perfis nas redes sociais que você segue para se atualizar?

Fernanda: São taaantas as mulheres que me inspiram todos os dias, que acho extremamente difícil escolher apenas uma…passo por Elza, Frida, Clarice, Virginia, Dilma, mulheres da música, do cinema e as mulheres ao meu entorno, todas pela sua força e ideias e eu sou uma mistura de todas elas. Alguns dos perfis que eu sigo são: @vulvanegra, Brisa, da @vulvamtilliandum, @portalgeledes , fundado por Sueli Carneiro, @coletivoperseguidas .



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