Entrevista com historiador Dilney Cunha, coordenador do Arquivo Histórico de Joinville

Dilney Fermino Cunha é pesquisador, historiador e professor graduado em História (1994), especialista em História e Historiografia do Brasil pela Univille (1996). Formado em língua alemã pelo Instituto Cultural Brasil-Alemanha Goethe Institut (2000). Coordenador do Arquivo Histórico de Joinville e autor dos livros Suíços em Joinville – o duplo desterro, História do Trabalho em Joinville – Gênese, e em coautoria com Nilson Bastian – Memória Afetiva – Joinville.

Em entrevista publicada no site Arte na Cuca, ele fala sobre sua trajetória como pesquisador, bem como a satisfação e desafios de trabalhar no AHJ.


Giane: Antes de ser coordenador do Arquivo Histórico de Joinville (AHJ), você foi um pesquisador
voraz do seu acervo. Onde sua trajetória de historiador, professor e gestor se encontram no
AHJ?

Dilney: Pelo fato de ter trabalhado no AHJ com pesquisa, tradução de documentos, atendimento educativo,
e conhecer muito bem seu acervo, entendo e tenho uma boa noção das reais necessidades tanto da
instituição como do público que a frequenta. Essa experiência anterior também me mostrou a
grande importância e riqueza do acervo da instituição enquanto patrimônio cultural e seu potencial
para o desenvolvimento sustentável da cidade.

Giane: Em 2018 você foi convidado para ministrar uma palestra sobre imigração e memória na
Alemanha, pode nos falar sobre?

Dilney: Foi a convite do Arquivo Público da Saxônia (Sächsisches Staatsarchiv), participei do Seminário “Nach Amerika! Überseeische Migration aus Sachsen im 19. Jahrhundert” (Para a América! Migração transoceânica da Saxônia no século 19), ocorrida no Arquivo Público da Saxônia, em Chemnitz, com o tema “Joinville. Einwanderung und Erinnerungskultur in einer südbrasilianische Stadt”. (Joinville. Imigração e Memória em uma cidade
sulbrasileira). Ainda nesta ocasião ocorreu uma visita técnica às dependências do Arquivo Público,
organizada pelo seu diretor, Dr. Raymond Plache.

Dilney Cunha – Coordenador do AHJ

Giane: Ser gestor em uma instituição científica de renome internacional como o AHJ acarreta muitas responsabilidades e desafios profissionais?

Dilney: Sem dúvida, pois as expectativas em relação ao AHJ são grandes, justamente por ser uma instituição de referência no campo da História e da Arquivística. Por ser um equipamento público, está sujeito a uma dinâmica diferente daquela que ocorre nas instituições privadas, com as especificidades próprias decorrentes desta condição, a exemplo de outras instituições congêneres. Por outro lado, precisamos atender as demandas da sociedade, e assim somos desafiados a criar ou aperfeiçoar mecanismos e procedimentos que resolvam no menor tempo possível tais necessidades
do público.

Giane: Como podemos articular a gestão de equipamentos culturais para o desenvolvimento da sociedade, considerando a preservação do patrimônio cultural e documental arquivístico, como prioridade em uma cidade sustentável e inteligente?

Dilney: Uma ação fundamental é aproximar essas instituições, como o AHJ, da comunidade, fazendo-a apropriar-se desses espaços e do seu patrimônio, num sentido de fruição e pertencimento. Outra ação é reforçar a importância da gestão documental (e do papel desempenhado pelo AHJ nessa questão) para esse desenvolvimento sustentável e inteligente.

Giane: O AHJ na sua gestão vem gradativamente abrindo as portas da instituição para a
comunidade. Como se estabelecem essas relações de pertencimento com o patrimônio
arquivístico local?

Dilney: Isso passa necessariamente pelas ações educativas e de difusão, ao conectar os múltiplos grupos sociais aos temas utilizados nessas ações (atividades interativas com os alunos, rodas de conversa, exposições, palestras), que acabam por mostrar a importância do acervo arquivístico não apenas para a vida de cada cidadão, mas também para o desenvolvimento comunitário. Outro caminho é a divulgação da instituição, tanto de suas ações como de seu acervo nas diferentes mídias sociais.

Giane: Como lugar de memória e lugar de história, o AHJ é saudado pelo campo intelectual e artístico como um equipamento cultural imprescindível para a história da cidade. Onde e memória se encontram nesse processo de legitimação e consagração.

Dilney: A História e a Memória são campos de disputa de poder; o passado é passível de múltiplas interpretações, através da pesquisa documental, sejam as fontes escritas/textuais ou orais, acondicionadas em espaços de memória, como os arquivos. Ao aproximarmos a comunidade do AHJ e disponibilizarmos o seu acervo, ou implementarmos uma ação educativa por exemplo, permitimos e provocamos outras leituras possíveis não só do passado da cidade, mas também da sua configuração atual. Com esse conhecimento, podemos estimular um sentimento de pertencimento e protagonismo dos diferentes grupos sociais no processo histórico, contribuindo para uma sociedade mais justa e igualitária.

Giane: Quais as expectativas institucionais com a retomada do Boletim e a Revista do Arquivo Histórico de Joinville?

Dilney: Num sentido mais prático e objetivo, é a divulgação das ações institucionais e das pesquisas baseadas em seu acervo. Num sentido mais simbólico, é a consolidação da importância do AHJ enquanto instituição científica de referência.


*Entrevista realizada por Giane Maria de Souza em 23 de maio de 2019, antes da pandemia do COVID-19. Atualmente o AHJ prepara sua 16º edição do Boletim trimestral AHJ.

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1 Comment

  1. Parabéns à entrevistadora pela coerência, profundidade e pertinência com que conduziu esse bate-papo e parabéns ao querido e competentíssimo Dilney Cunha pela brilhante condução que tem dado aos trabalhos do AHJ e por ser esse historiador que torna apaixonante o passado de nossa Joinville.


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