Por nenhum palhaço a menos! Campanha de financiamento coletivo da Cia Circo-íris

“Desde de que o mundo é mundo: a necessidade é a mãe das ideias”. Já dizia a avó da palhaça Pixincha.
Se a vida dos artistas circenses e daqueles que de alguma forma, trabalham inspirados pela magia do circo, já não era fácil…a pandemia veio para mostrar como pode ser ainda mais difícil. Após mais de um ano do Covid-19, os trabalhadores da cultura – principalmente do teatro e circo – continuam enfrentando dificuldades para conseguir suprir muitas necessidades básicas e continuar desenvolvendo suas atividades. Pensando nisso, a Cia Circo-Íris (Canelinha/SC), iniciou a campanha de financiamento coletivo “Alimente Nossa Graça”, que ocorre até 14 de agosto e tem como objetivo, levantar o valor de R$15 mil reais, recursos necessários para focar no trabalho da Cia e manter relações de trocas, pesquisa e produção de conteúdo diversificado com Isabela Bugmann, Isadora Manerich e Humberto Soares. 

Além de falar um pouco mais sobre a campanha, a fundadora Rafaela Catarina Kinas (Palhaça Pixincha), bateu um papo com o Arte na Cuca, sobre curiosidades do universo circense, como: a reinvenção do circo na contemporaneidade e num contexto pandêmico/virtual, e o trabalho dos artistas circenses independentes (arte de rua).

Palhaço Grapixo e Palhaça Pixincha

Sobre a campanha “Alimente Nossa Graça”

Alimente Nossa Graça nasce da junção da fome dos palhaços Grapixo e Pixincha de encontrar o público com a vontade de comer dos artistas Luca Tuã e Rafaela Catarina que desejam devorar os males do mundo expressando sua forma de ver e viver outros mundos possíveis (sendo capazes de bancar as contas básicas de uma vida digna e simples).  Improvisamos diferentes receitas para malabarear os boletos e manter o bom humor, gosto e apetite durante esses 15 meses de pandemia.  Aos poucos, no melhor estilo “fazer o que dá com o tem”  materializamos um cardápio singelo, porém muito honesto, com as principais combinações que podemos servir ao público. Uma mistura dos frutos dos seis anos de labor na terra fértil do riso com a Cia Circo-íris condensados em um ano na casa-sede, cumprindo distanciamento social e cultivando novas formas de expressão, fortalecendo as raízes individuais e retomando  práticas anteriores à fundação da Companhia. A partir desse projeto pretendemos construir as bases para investir tempo no nosso trabalho, de modo que o improviso em manter as contas em dia não nos permitiu até agora. Leia Mais sobre a Campanha clicando AQUI.

Assista ao vídeo de divulgação da campanha


Bate-Papo com a artista Rafaela Catarina Kinas (Palhaça Pixincha)

Arte na Cuca: Como a pandemia afetou o trabalho dos artistas, principalmente daqueles que precisam da presença do público para suas apresentações?

Rafaela K: No caso da Cia Circo-Íris, nós tentamos observar que momento era esse. Nos colocamos em um lugar de observação e de pesquisa. Mas sabemos que vários amigos viveram esse processo de adaptação para o ambiente virtual. Nós fomos mais tímidos, seguramos nossos projetos e readequamos somente o necessário para poder executá-los. Ainda estamos realizando alguns trabalhos online, como por exemplo, um ciclo de lives que estamos realizando pelo Instagram, e que aborda filmes, quase num formato “circo- cine clube”. Foi preciso migrar para as possibilidades que o momento nos exigia.

Arte na Cuca: Com as inúmeras possibilidades que a internet nos oferece e numa sociedade imediatista, onde tudo vira consumo, como o circo percebe esta constante reinvenção para tentar manter e conquistar novos públicos?

Rafaela Catarina Kinas (Palhaça Pixincha)

Rafaela K: Acho que o circo sempre teve esse papel de se reinventar. Quando inicia, já trás este “atrair para si” o máximo de diversidade e inovação. Para ilustrar esta questão, indico o documentário da Netflix “Circus Of Books”, que aborda a época de outro do circo nos Estados Unidos. Neste documentário fica bem evidente que o circo trata sobre várias questões da contemporaneidade. No Brasil, antes de existirem os cinemas, era no espaço do circo que havia as exibições de cinema. Ter que se reinventar, faz parte da cultura do circo. Mas o que no meu ponto de vista, tem sido enfrentada pelos artistas circenses, é a questão da globalização, da cultura das massas. Uma certa brutalidade, o avanço de um sistema que não valoriza mais a experiência. No caso dos artistas de rua, o desafio é o tempo, fazer com que as pessoas parem para perceber, para observar.


Sobre os circos mais tradicionais, das famílias, de lona, tem mais dificuldades, porque as estruturas, quando maiores mais complexa é a adaptação. Sem contar na questão da migração desses circos, que chega de cidade em cidade, cada vez há menos espaços para montar a tenda, cada vez esse lugar fica mais periférico na cidade, mais invisível para as pessoas. Acho que existe um processo de burocratização que favorece essa cultura de massa e dificulta o processo de encantamento com o circo. É tentando promover o resgate desse encantamento que a Cia Circo-Íris promove o circo-cine clube.

Arte na Cuca: Falando da realidade de Joinville/SC, mas estendendo a reflexão para outros lugares e cidade: Percebemos o aumento de artistas de rua nas grandes cidades, com seus malabares no sinal, apresentações e etc. Como acontece esta inserção da arte nos espaços urbanos (rua)? É um estilo de vida? Uma necessidade? Ou o circo em seu formato tradicional acabou não conseguindo comportar estes artistas?

Rafaela K: Eu acho que nos últimos tempos nós temos mais artistas de rua circulando em Santa Catarina, e tenho certeza que isso é reflexo dos produtores de arte das nossas cidades. Mesmo com essa tendência conservadora, que existe em Joinville, Blumenau, Florianópolis… Mesmo assim, passamos por um momento de abertura de mais eventos, festivais, formações. E isso de certa forma, vai colocando essas cidades no mapa de quem viaja e isso também é sazonal. Tem épocas mais propícias de encontrarmos mais artistas de rua que outras, sem contar na criação de suportes para que os artistas de rua estejam nessas cidades.

Que legal essa pergunta. É algo que costumamos frisar bastante, quando falamos de nossa existência. A questão de sermos um circo sem lona. Porque o circo no imaginário de grande parte das pessoas, é esse lugar com a lona, que têm uma estética ligada ao ambiente do picadeiro e da lona. Essa não é a nossa realidade. Ser um circo sem lona, quer dizer que atuamos em qualquer lugar. Estamos na escola, no salão de festas, na paróquia da igreja, no parque, na praça, na sinaleira. O Luca (palhaço Grapixo), gosta muito de ir atuar no sinal (antes da pandemia), como um espaço de treino, de prática e de fazer isso enquanto viabiliza a entrada de recursos para a companhia. Sempre operamos na lógica de que o dinheiro da rua/semáforo garantia o dinheiro do “pão”. Já as oficinas e projetos via edital, são para outras necessidades. O recurso do “hoje” e do “amanhã”.
Antes de fundar a Circo-Íris eu já fiz muito trabalho em semáforo. Buscamos estar em todos os lugares para encontrar com o público.

Nós buscamos por uma estética, ética e democrática. Por uma arte que seja acessível, que possa encontrar o cotidiano de quem não tem mais o hábito de ir ao circo e ao teatro, ou que nunca teve e que de repente é surpreendido em seu cotidiano, com a possibilidade de se encantar com a beleza da vida, por meio de uma performance artística. Também é algo que remonta a ancestralidade desse ofício, porque nem sempre teve uma lona. Antes do advento das lonas, os circos eram organizações muito mais espontâneas, de diferentes artistas que se reuniam, viajavam juntos, mas tinham uma característica mais elástica das suas relações de se agrupar, viajar junto, se distanciar.
Quando temos a inserção das lonas, a relação é muito mais de um empreendimento. É outra forma de fazer e viver o circo.

Nosso espaço é um outro lugar. É do contato, do estar na rua. Por isso nos caracterizamos como um circo sem lona. Precisamos frisar que nem todo artista de rua está na rua por falta de opção. Inclusive, a maioria está por opção, porque a rua nos possibilita esse contato real e democratizado das artes e a liberdade de conexões que para nós é algo vital.

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