“Oito e meio”- A insanidade do artista

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Por Walmer Bittencourt Júnior

O problema com os artistas reside em seu mundo complexo e particular. Um mundo onde poucos conseguem adentrar e sair. Toda pessoa é capaz de criar, mas o artista é aquele que transgride as regras entre o real e o imaginário. 

Seriam os loucos, aqueles que não percebem as barreiras ou aqueles que não se permitem por conta delas?  

Talvez, o bloqueio criativo seja o pior pesadelo de um artista. Chegar ao ponto em que as ideias simplesmente parecem ter desaparecido. Não é esse o caso de Federico Fellini em “Oito e meio”, filme em que o diretor italiano faz uso deste bloqueio para criar sua autobiografia.

Seguindo um roteiro não linear, que quebra com os paradigmas impostos por manuais de roteiro, Fellini apresenta a história de um diretor que está com problemas para criar seu filme. Um bloqueio criativo faz com que o personagem não consiga escolher os atores, quem dirá escrever o roteiro. Como se não bastasse o bloqueio, seu produtor diz que o roteiro não tem profundidade, é pouco filosófico, e começa a duvidar da capacidade do diretor.

Entre flashbacks, fantasia e memórias do próprio Fellini, o filme faz saltos temporais, transitando entre o real e o imaginário, a razão e a insanidade. Tudo isso para entregar ao espectador a sensação de estar perdido em seus próprios pensamentos, que não levam a lugar algum. 

Seria uma homenagem aos colegas artistas, que por vezes se deparam com esse problema, ou o produto de sua própria dificuldade para criar e entregar a obra ao estúdio que o contratou? O artista parece buscar em seu passado, em suas memórias, algo para reativar sua criatividade e seguir adiante no processo de concepção da obra, e que o faça se livrar da síndrome do impostor.

Uma das cenas mais marcantes é o início, onde o personagem principal está preso em seu carro no engarrafamento e todos a sua volta apenas assistem sem ajuda-lo. A fumaça começa a entrar no carro, mas ele não consegue sair. 
A cena causa uma sensação de sufocamento e nos sugere o sentimento de solidão do artista, que se vê aprisionado em seu mundo, mas não pode ser ajudado por outros seres do mundo real. 

Em outra cena, novamente o personagem principal está sentado divagando sobre suas intenções quanto ao filme. Ele diz querer fazer um filme honesto, que ajude as pessoas de alguma forma. Hora, esse diálogo diz muito sobre o filme, pois, não seria honesto expor suas fraquezas como um bloqueio criativo?

Por fim, entre saltos temporais, memórias e um toque de fantasia, “Oito e meio” expõe o universo particular do artista, que poder ser confuso, não linear e às vezes beirar ao insano.

Sobre o diretor Federico Fellini

Nascido em Rimini, na Itália, Federico Fellini (1920-1993) foi um cineasta italiano, reconhecido internacionalmente como um dos maiores nomes do cinema mundial. Começou sua carreira escrevendo pequenos roteiros e piadas para comediantes de rádio. Ingressou no cinema como assistente de Roberto Rossellini, Pietro Germi e Alberto Lattuada, conhecidos diretores.

Em 1945 colaborou com o roteiro do filme “Roma, Cidade Aberta”, de Roberto Rossellini, vencedor do Festival de Cannes e indicado ao Óscar de melhor roteiro.

Sua estréia como diretor viria em 1952 com o filme “Abismo de Um Sonho”. No filme ele aborda um tema recorrente em sua filmografia: o questionamento sobre sonho e realidade.

Fellini se consagra em seu sexto filme, “Na Estrada da Vida” (1954), vencendo o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro e o Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza.

Em quase cinquenta anos de carreira, Fellini ganhou a Palma de Ouro por “La Dolce Vita”, foi indicado doze vezes ao Óscar dos quais venceu quatro na categoria de melhor filme em estrangeiro. É até hoje o o diretor recordista de prêmios da academia.

Seus filmes carregam diversas experiências de vida do diretor, por vezes seus questionamentos e conflitos internos, bem como uma vida toda dedicada a arte de fazer filmes.

Dados técnicos

Título original: Otto e Mezzo
Ano de produção: 1963
Diretor: Federico Fellini
Estreia: 1963 ( Brasil )
Duração: 138 minutos
Gênero: drama
País de origem: França, Itália
Disponível em: Telecine play
Cor: preto e branco

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1 Comment

  1. Giane maria Souza

    Muito bom! Adoro Fellini. Parabéns pela análise.


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