O Salvador da Pátria

Imagem da capa: “A Pátria” (1919). Artista: Pedro Bruno.

Este ano teremos mais um pleito para o governo federal e os governos estaduais, elegeremos o presidente, senadores e deputados federais, e também governadores e deputados estaduais. Mas é muito comum que o holofote principal deste espetáculo fique focado nos candidatos à Presidência da República, porque vivemos em um modelo presidencialista, bicameral.

Porém os outros cargos disputados não são menos importantes, já que o Poder Legislativo Federal é dividido em duas Câmaras, a dos Deputados e a dos Senadores, formando o Congresso Nacional (Poder máximo do Legislativo); os deputados são representantes da população de forma direta, nos quais o número de cadeiras está vinculada a quantidade de habitantes de cada Estado; os senadores, mesmo sendo eleito pelo povo, existem para parear as diferenças no número de deputados federais, e também fazem uma espécie de representação dos governos estaduais, como se fossem uma espécie de embaixadores, junto ao Governo Federal, este é um exemplo a grosso modo para compreensão do papel desta Assembleia, cada Estado tem direito a Três Senadores, com mandato de 8 anos, por isso elegeremos apenas um senador nesta eleição, já que na última trocamos dois deles. Os governadores e deputados estaduais ficam com atenção menor nesse cenário, apesar de serem tão importantes quanto os cargos já citados, pois comandarão os Poderes Executivos e Legislativos Estaduais. Dentro deste modelo Presidencialista Republicano de Três Poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário), chamado de Democracia Moderna, uma criação para o sistema político da Idade Contemporânea.

Este em sua organização ainda no século 18, criou o sistema de mecanização da indústria, o modelo assalariado de pagamento pelo trabalho, a divisão de classes, em que os grupos são separados pela riqueza, e uma cultura laica, calcada nos pensamentos racionalistas estruturados nas universidades. Além disso, também construiu a ideia de que o poder emana do povo para o bem-estar socioeconômico deste mesmo povo, e por isso o voto se tornou tão importante, porque nós, povo, escolheremos nossos governantes de acordo com nossas crenças ou vontades.
Porém o eleitor brasileiro, somente no século 21, começou a entender que o voto pode mudar as conjunturas políticas da República, no entanto, não suas estruturas de governo, pois estas são regradas pela Constituição e para mudança desta, seria necessária uma reforma da Constituição, algo bem difícil de se fazer, pois depende da Câmara dos Deputados e do Senado (Congresso Nacional), e da índole daqueles que as compõem, ou seja, os eleitos pelo povo. No Brasil, antes de uma reforma constitucional, existem outras mais importantes e urgentes, como as reformas políticas, eleitorais, tributárias, sociais, que também devem ser feitas pelo Congresso Nacional, com aval do Presidente e do Supremo Tribunal Federal (STF), poder máximo do Judiciário.

Uma boa mostra que os eleitores brasileiros deste século estão mudando, foi o acontecido nas duas últimas eleições (2020 e 2018), que na história da República, foram as que mais trouxeram as alterações nas conjunturas políticas, mudando um número significativo dos partidos no comando dos poderes eleitos (Executivo e Legislativo), nas três instâncias (Municipais, Estaduais e Federal). Esta afirmação leva em conta os resultados das eleições nas capitais de cada Estado e nas maiores cidades do país.

Esta é uma mostra de que o brasileiro começou a acreditar que o voto realmente pode alterar a política brasileira, porém esta crença tem outro aspecto em sua bagagem, que tal mudança tem de vir com a reforma do bem-estar socioeconômico, e se esta última não se constituir realmente, a situação, em pouco tempo, pode se tornar drástica no Brasil, já que esta população vai querer este bem-estar, mesmo que ela tenha de passar por cima das instituições e pegá-la de algum jeito. Quando se chega a este ponto, temos o que a História chama de Revolução, todavia, esta mudança vem impregnada de sangue e injustiças.

O povo brasileiro espera um Salvador da Pátria ou tenta mudar a conjuntura política na esperança de mudança? Acredito que o primeiro fenômeno se sobressai sobre o segundo, pois espera que o líder do Executivo (o Presidente) tenha a força de cumprir a promessa desse bem-estar socioeconômico. Isso é tão evidente dentro da nossa história política, que causa até espanto. Vamos há alguns exemplos nos últimos 40 anos. As eleições de Bolsonaro, Lula, Fernando Henrique, Collor, dos governos estaduais de 1982, ou seja, todas após o Regime Militar, que aconteceram de forma direta, tem esta mesma peculiaridade. Porém todas elas foram calcadas no discurso do vencedor, a qual dizia ser ele a própria personificação da mudança.

Vamos esmiuçá-las, para que meu parecer se torne um pouco mais claro. Em 1982, as eleições foram diretas para os governos estaduais, o PMDB, na época, representante e associado ao MDB (Movimento Democrático Brasileiro, partido de oposição dentro dos Governos Militares) ganhou em praticamente todos os estados, porque a população na época desaprovava o governo do presidente João Figueiredo e sinalizava que não aceitava mais o modelo militarista para o país; Tancredo Neves em 1984 foi eleito de forma indireta, por isso não entraremos no mérito desta eleição. Depois veio Fernando Collor, com o discurso de acabar com a corrupção e com um visual despojado, na qual era associado ao novo Brasil; esta eleição foi muito importante para a democracia, pois o segundo colocado foi Lula e o terceiro foi Eneias, com o PRONA (um pequeno partido que apareceu no cenário político naquela eleição), este chegou na frente de figuras como Ulisses Guimarães, Paulo Maluf, Leonel Brisola, políticos tradicionais na ocasião; porém o Congresso e os Governos Estaduais não ajudaram essa mudança e não sustentaram no voto o partido do presidente, o resultado foi a abertura do processo de impeachment e a renúncia de Collor.

Em 1994, Fernando Henrique foi eleito por trazer consigo o discurso de que o Plano Real, recém implantado, precisaria dar certo, para transformar o Brasil, e assim trazer o pretendido bem-estar socioeconômico; FHC governou dois mandatos. O próximo da lista dos eleitos, foi Lula, que estava na disputa de sua quarta eleição consecutiva, sempre derrotado, mas em 2002, com o discurso do governo do trabalhador para os trabalhadores, prometia reformas para concretizar o sonho do bem-estar, que daquela vez parecia perto, contudo, o que se viu foi uma continuação da política anterior e nenhuma reforma em si, o ganho na renda foi causada pelo controle do câmbio (dólar), sistema da política econômica do Plano Real; como consequência, o petista se reelegeu e ainda colocou Dilma Russef em 2010 e 2014, porque a população sentia que este bem-estar havia chegado, sendo o governo mais longo desta Nova República (desde 1985 até hoje), mas que decepcionou o eleitorado com um enorme escândalo de corrupção.

Em 2018, Bolsonaro é eleito por representar um candidato contra aquele governo petista, e com um discurso muito parecido com os presidentes citados, prometendo que mudaria o Brasil, acabando com a corrupção e representando o novo, conseguiu a vitória; tanto que sua base de apoio político (principalmente os evangélicos pentecostais) chegou a fazer o trocadilho de ‘O Messias’, tornando o candidato como um arquétipo deste Salvador da Pátria. Porém em nenhuma destas opções o bem-estar almejado chegou. O que deu errado?

O povo brasileiro é pródigo em esperar este salvador, quase um super-herói de carne e osso, que vai resolver todos os problemas brasileiros acumulados por séculos, em um único mandato. Este fenômeno é tão recorrente, que mesmo em outras eleições não mencionadas, temos exemplos desse modelo. Isso aconteceu no pleito que escolheu Jânio Quadros em 1962, Juscelino Kubitschek em 1955, Getúlio em 1950, inclusive, o apoio da maior parte da população ao Golpe de 1930 e 1964, em que as regras constitucionais foram completamente descumpridas. Desta forma, o famigerado bem-estar socioeconômico nos aprisiona a um sonho e nos leva a escolher alguém cheio de promessas.

Até quando vamos esperar nosso Salvador da Pátria? Até entendermos que não basta apenas voto, mas sim a participação efetiva na construção de toda uma sociedade, cobrando os governos, pressionando as lideranças, fiscalizando para que a Justiça seja feita. Todavia, todo este movimento, necessariamente passa pela compreensão das conjunturas políticas e econômicas existentes e para que isso aconteça, é necessário melhorar a educação. Mas este é outro assunto, pois, para que se torne uma realidade, são necessários investimentos altos na área durante mais de 30 anos.

Como a educação tem sido desprezada, por todos os governos na Nova República, por enquanto, o dever do cidadão é prestar atenção em quem ele quer escolher para governar o seu país e seu estado, deixando de lado as promessas e os discursos, para prestar a atenção nas atitudes e se os candidatos são pessoas dignas de confiança, que representam o todo e não um grupo. Verifique também como é o passado de seu candidato, tanto como homem público, quanto trabalhador comum, e observe comportamentos e atitudes, muito mais que palavras. Desconfie de promessas grandiosas e reformas milagrosas. Agora esperaremos até novembro de 2022, para vermos se a esperança do Salvador da Pátria vai prevalecer ou não.

Cristiano Viana Abrantes.
Graduado em História pela USP em 1998, atuou por 25 anos como professor de História. Atualmente trabalha como historiador do Município de Joinville desde 2015. Participou de inúmeros projetos escolares e atualmente tem investido na área de Literatura como escritor e dramaturgo.

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