No Dia Internacional da Mulher a atriz Samira Sinara fala sobre empoderamento feminino e transformação social por meio do teatro-educação

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Foto: Acervo PRJ.
Entrevista Por Celiane Neitsch

Neste 8 de março atípico, onde beijos e abraços são quase proibidos em virtude da pandemia que nos acompanha há quase um ano, num momento em que o distanciamento e o isolamento social são necessários para tentar garantir nossa segurança,  pensamos nessas mulheres. Mulheres que não podem abraçar ou serem abraçadas, beijar ou serem beijadas e muito menos escolher entre isolar-se ou não. Mulheres que não aparecem nas homenagens dos comerciais de televisão ou nas capas das revistas e que não são lembradas por seus grandes feitos na história. Mulheres que mesmo estando vivas, deixam de existir para a sociedade e muitas delas são esquecidas neste dia de comemoração e reflexão a cerca dos nossos direitos.

Para falar sobre a experiência de trabalhar e conhecer um pouco mais de perto o drama dessas mulheres e sobre o quanto é necessário investir em cultura e arte como agentes de transformação social, o Arte na Cuca entrevistou a atriz, produtora cultural e educadora Samira Sinara Souza.
Samira é integrante da VAI! Coletivo, e atriz do espetáculo solo “Celas e Elas”, projeto realizado em conjunto com a atriz e diretora de teatro Daiane Dordete, que desde 2019 leva oficinas de teatro para dentro da ala feminina do Presídio Regional de Joinville.

A atriz Samira S. Souza durante o Solo performático ©elas com Daiane Dordete e VAI! Coletivo. Foto: Fabricio Porto.

Arte na Cuca: Quando e como inicia sua trajetória com o teatro?

Samira: Desde a infância até a adolescência tive a oportunidade de ter contato com a arte. Minhas irmãs mais velhas fazendo ballet, piano, cursos, avó materna artista plástica e paterna bordadeira.

Minha tia e mãe faziam parte do grupo de dança moderna do teatro Carlos Gomes em Blumenau e depois em Curitiba, foram contatos vivenciando e prestigiando teatro, exposições, cinema e muito livro em casa. Quando vim morar em Joinville, aos 17 anos, resolvi fazer faculdade de Artes na Universidade  da Região de Joinville – Univille. Foi lá que através da disciplina de Improvisação Teatral, conheci o professor Nando Moraes, que junto com a professora Ângela Finardi, assumiram a Cia de Repertório da Univille, projeto de Extensão da instituição e ali estudei teoria e prática teatral durante sete anos.

Foram quatro peças como atriz de teatro e três peças trabalhando na técnica de som, luz e mídias. Quando sai da Univille queria estudar mais teatro-educação, para dar aula de teatro nas escolas, comunidade, ou seja, compartilhar o conhecimento entre as duas linguagens da graduação – cênica e artes visuais. Como já tinha uma pequena trajetória, fui buscar mais uma especialização em Curitiba (Unespar) para entrelaçar cada vez mais a teoria e a prática do universo das artes nas salas de aulas.

Arte na Cuca: Em sua opinião, quais são as principais dificuldades para fazer teatro e trabalhar com arte na cidade de Joinville/SC?

Samira: Acredito que as dificuldades de viver de arte na cidade de Joinville são apresentadas em três pilares: visão, fomento e financiamento. A visão do que vem a ser a arte, e o entendimento sobre a importância da cultura na vida das pessoas ainda é raso nesta cidade. Arte é considerada como algo supérfluo e piorou nos últimos anos. De dois anos pra cá, acompanho muitos artistas saindo da cidade, aqui, cultura parece ser algo a parte da vida, porém churrasco no fim de semana sem música ninguém faz, né? Cultura e arte, quando é para interesse próprio é importante, mas investir em longo prazo dá prejuízo, e esse pensar ainda é o de muitos empresários da cidade.

Joinville é a maior cidade do estado e com maior arrecadação de PIB Nacional, mas não possui: uma Companhia de Teatro Municipal ou de Dança (profissionais que trabalhariam representando a cidade no mundo). Vários espaços públicos destinados a cultura durante anos não foram restaurados (centro da cidade, Cidadela Cultural Antarctica, entre outros). Ainda não temos instituição de ensino superior nas Artes Cênicas (Dança, Teatro e Circo) e na Música, não tivemos durante anos a multiplicação de pontos de cultura nos bairros. Ou seja, se não há fomento e pouco financiamento na cultura, qual será o reflexo do pensamento da cidade? Surpreendo-me ainda em ver moradores da cidade nas redes sociais, questionando leis de incentivos à cultura na própria cidade. É triste não ter visão, é como se você estivesse morto.

Integrantes da VAI! Coletivo de Pesquisa Cênica. No encontro Colaborações SCenicas. (2021).

Arte na Cuca: Como surgiu a VAI! Coletivo, e quantos integrantes fazem parte dele atualmente?

Samira: A VAI! Coletivo surgiu em 2009, e nasce da visão em comum de alguns artistas de teatro. Os integrantes naquele momento-  Raphael Vianna (fundador e atualmente mora no RJ), Alex Maciel (Rústico Teatral), eu e Felipe Muciollo,  naquele momento buscávamos pesquisar e nos aprofundar em produções de peças autorais. Queríamos unir cada vez mais as artes visuais com as artes cênicas nas montagens e trazer a tecnologia ou seja refletir sobreo papel da mídia nas encenações teatrais.

 Por incrível que pareça, esta tornou-se a identidade do coletivo. Hoje formado por Raphael, eu, Marlon Zé e Jackson Silva. Sempre mantivemos a mente aberta para os projetos, ou seja, nem sempre todos do coletivo estão inseridos em todos os projetos realizados da VAI!. 

Desse modo, sempre estamos trabalhando com parceiros profissionais das artes cênicas,  que visam nossos projetos em comum. A exemplo, a montagem do solo performático teatral do Celas (2010) e desmontagem do Celas e Elas (2019), a convidada do coletivo para fazer parte destes projetos é a Daiane Dordete (diretora e dramaturga da peça, que atualmente mora em Florianópolis).

As atrizes Samira Souza e Daiane Dordete durante oficina de teatro no PRJ. Foto: Jéssica Michels

Arte na Cuca: Você e a atriz e professora Daiane Dordete, iniciaram em 2010 a pesquisa e montagem da peça “Celas”, construída a partir da narrativa de mulheres em situação de cárcere, pesquisa que tem seu desdobramento no espetáculo “Celas e Elas”. Como foi e tem sido para você a experiência de realizar estes projetos?

Samira: No ano de 2010, houve o desejo de realizar um solo teatral, acredito que este seja o desejo de muitos atores e atrizes. Naquele momento estávamos em busca de uma montagem também com dramaturgia autoral e a Daiane Dordete foi convidada para dirigir esse solo.

A pesquisa para esta montagem abordou a performance na cena e o universo feminista, então a historiadora Camila Diane cedeu sua pesquisa sobre as narrativas e depoimentos das mulheres egressas e regressas do Presídio Regional de Joinville, para que pudéssemos iniciar esta jornada.

No projeto contemplado pelo SIMDEC/ Edital do Mecenato 2010, “CELAS” – a montagem, não visava o universo carcerário porque não tivemos contato e experiência dentro das grades, o foco foi abordar as influências do patriarcado e da meritocracia na rotina da vida da mulher, como o preconceito, a violência contra a mulher e as prisões psicológicas vivenciadas pelas mulheres no século XXI.

O nosso contato com o Presídio Regional de Joinville foi com a apresentação da peça “CELAS”, foi uma contrapartida social do projeto, realizada no Dia Internacional da Mulher, em 08 de março de 2012. Neste dia, após as apresentações e o bate papo com as mulheres reeducandas, decidimos que voltaríamos para dar um curso de teatro a elas. Para mim, enquanto atriz, a peça criou novas camadas de impressões, imagens e sensações alterando inclusive, o ritmo da peça.

Voltamos no ano de 2019, com um novo projeto aprovado pelo SIMDEC/ 2016, na categoria de formação em cultura, que tinha como objetivo o curso de teatro no PRJ para mulheres em privação de liberdade. As aulas foram ministradas para a Ala Feminina A e B, e ao todo 34 mulheres foram contempladas com esta experiência que durou seis meses. Dentro deste projeto, remontaríamos o “CELAS” e apresentaríamos para elas com o bate papo, seria a nossa contrapartida social. Porém, percebemos que no decorrer das aulas, vivenciando uma rotina semanal com elas, o “CELAS” de 2010 já não era mais com aquele formato, então partimos com a ideia de uma desmontagem teatral do “CELAS” e inserir a nossa experiência no cárcere, presentando um novo título e espetáculo, o “CELAS E ELAS” de 2019.

Este desdobramento trouxe várias mudanças, uma delas foi a presença da fotógrafa Jéssica Michels, que nos acompanhou no projeto participando de três encontros para registros fotográficos, resultando numa exposição intitulada “Para além das celas”. Foi um momento de muita felicidade poder ver a alegria das mulheres reeducandas e como elas puderem se perceber nas fotografias, o quanto a arte mudou o olhar, o sentir da vida, e estas palavras e desenhos estão presentes nas cartas que nós recebíamos como registro de aula, mas também como depoimento de encontro entre alunas e professoras.

Arte na Cuca: A arte pode contribuir para o desenvolvimento do pensamento crítico, do empoderamento e do sentimento de pertencimento das pessoas. Em sua opinião, projetos culturais que visam à transformação social por meio da arte, podem beneficiar a sociedade num todo?

Samira: Ah, como certeza! Os pontos de cultura são provas vivas de que arte muda e transforma o posicionamento coletivo de um bairro, de uma comunidade. Em Joinville temos a AMORABI, no bairro Itinga – um ponto de cultura ativo e resistente, que é referência na cidade, no estado e no Brasil.

Arte na Cuca: No artigo “Sobre Cartas, Celas, elas e professoras – em – processo”, publicado na revista Urdimento (nº 39. Nov/dez 2020), você e a atriz Daiane Dordete Stecket Jacobs, citam a fala de uma das alunas durante as aulas de teatro na PRJ:

“Nós não podemos ter espelho aqui. Isso é uma forma de diminuir a gente, de acabar com a nossa autoestima. Como a gente pode ser uma pessoa melhor se a gente nem pode se ver, se a gente acaba esquecendo quem é? Precisamos nos amar para amar outras pessoas”.
De que forma estas e outras falas te impactaram como mulher, artista e educadora?

Samira: Pergunta difícil (risos). Mas foram vários momentos durante as aulas, na cela-aula. Quando você é professora em espaços mais vulneráveis, de exclusão social  não tem como você, em alguns momentos, agir como mulher e como ser humano. Acredito que esta vivência mudou o nosso olhar e visão de mundo completamente, eu a Daiane saíamos das aulas muitas vezes conversando muito sobre os acontecimentos vividos e/ou silenciosas.  Esses momentos que nos fizeram pensar nesta desmontagem do “Celas e Elas”, dar espaço a elas, seja através das cartas lidas e entregues ao público no final da apresentação, seja na exposição fotográfica que nos acompanha a cada apresentação, seja no bate-papo com o público após cada apresentação, seja nas cenas do celas- por exemplo- da família, que hoje me fazem lembrar das histórias das alunas entre seus filhos(as), mas principalmente, pensarmos ainda neste mundo privado que nós vivemos (consumismo exacerbado, tecnologia, violência, preconceito.)

Foto: Jaqueline Mello

Depoimentos de alunos durante as oficinas de teatro no PRJ

“Com as aulas podemos nos sentir por uns instantes fora dessas grades que nos tornam privadas do mundo”.(depoimento de ex alunas reeducandas do PRJ, curso de teatro 1º semestre 2019).

“As aulas tem me ensinado muitas coisas que eu não tinha aprendido e também ocupa a cabeça pra não pensar em coisas ruins.” (depoimento de ex alunas reeducandas do PRJ, curso de teatro 1º semestre 2019).

A seguir, alguns fragmentos de textos retirados do artigo “Sobre Cartas, Celas, elas e professoras – em – processo”, publicado na revista Urdimento (nº 39. Nov/dez 2020). Para ler o artigo completo clique AQUI.

Depois destes dois  anos  que  deixamos  o celas adormecido,  fiquei  com vontade  de  retomar  o  projeto,  talvez  com  outro  enfoque,  com  um  olhar mais direcionado às mulheres que estão no espaço prisional. Lembro do pouco acesso à arte e à cultura que elas relataram ter em conversas nos corredores do PRJ e nos bate-papos que fizemos após a apresentação do celas lá, no Dia Internacional da  Mulher, em  2012.  Nunca havia entrado  em  um  espaço  de encarceramento  e recordo de falas como: “nunca tinha visto uma peça de teatro” ou“ eu gostei mais da cena da mãe” (Página 05 do artigo: “Sobre Cartas, Celas, elas e professoras – em – processo” ano: 2020. Escrito por Daiane Dordete e Samira Sinara Souza)

A sensação parece de ser jogada como lixo, em um depósito humano… não é  à  toa  que  os  espaços  prisionais,  hospitais  psiquiátricos  e  os  ‘lixões’  são construções  localizadas  geralmente  longe  dos  centros  urbanos.  Que  tristeza!  E para piorar  a  sociedade  em  que  estamos  inseridas  ainda  não  percebeu  (ou  não quer perceber) os reflexos estarrecedores dessa discriminação: preconceito social

e abandono do Estado. A sociedade ainda não reconhece a ressocialização. Não é à toa que, por esses motivos, muitas mulheres reincidem nas infrações, pois não encontram mais espaço em uma sociedade que faz questão de lhes excluir. (Página 06,07 do artigo: “Sobre Cartas, Celas, elas e professoras – em – processo” ano. 2020. Escrito por Daiane Dordete e Samira Sinara Souza)

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