Censura ao “Povo de Dentro”

Ano passado o artista brusquense Douglas Leoni teve uma obra sua “apagada” em uma parede da Fundação Cultural de Brusque, Santa Catarina. A obra composta denominada Povo de Dentro pretendia vislumbrar a diversidade e as inúmeras personas ou os eus que habitam em cada um de nós.
A obra foi financiada com recursos da Lei Aldir Blanc e sem permissão do artista foi apagada.
O apagamento de uma obra de arte foi uma censura à liberdade de expressão artística? Entenda esse caso, sob o ponto de vista, do artista que sofreu a violência.
O caso de Brusque não é isolado. Muitas arbitrariedades e desrespeitos ocorrem com os artistas em várias cidades brasileiras.
Uma entrevista oportuna para debatermos o obscurantismo que nos aflige cotidianamente, e por que devemos estar atentos e fortes a todos os tipos de violências.

Giane Maria de Souza: Inicialmente, gostaria que você nos contasse sobre a sua trajetória artística na cidade de Brusque, Santa Catarina.

Douglas L: Sou bacharel em Interpretação Teatral pela Universidade Regional de Blumenau – FURB/2010. Pós-graduado em Arteterapia: Fundamentos Filosóficos e Prática, pela Faculdade São Luiz/2011. Licenciado em Teatro – FURB/2020. Membro da Associação Catarinense de Arteterapia – ACAT. Ator e diretor teatral na empresa 2 Metros – produções artísticas. Palhaço no Projeto “Zelador da Alegria”. Professor de Artes na rede municipal de Brusque. Artista visual com participações em algumas exposições. Fui membro dos grupos de arte contemporânea situados em Brusque, sendo G 13 e Pele Coletiva. Também já foi conselheiro no Conselho Municipal de Cultura de Brusque. Desde meados de 2013 desenvolvo o Povo de Dentro. Sou um artista atuante na minha comunidade, e atualmente, focado em novas criações e produções.

Lei Aldir Blanc

Giane M. de Souza: Ano passado você participou de um edital público que financiava projetos culturais? Quais os critérios para a seleção dos temas e dos artistas para a execução das obras?

Douglas L: Eu participei do Edital de Premiação de Projetos Artísticos e Culturais da cidade de Brusque, no qual fui apoiado com recursos emergenciais da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc, Lei no 14.017/2020, com um projeto de arte urbana. A proposta encaminhada era a confecção de dez murais pela cidade com a arte do Povo de Dentro, catálogo do projeto, material audiovisual, live com Vania Gevaerd, rodas de conversa e a entrega gratuita dos catálogos, além de disponibilizar o material audiovisual no YouTube para uso pedagógico de professores e artistas etc.
Os critérios de avaliação estão no edital e foram: 1) tempo de atuação do proponente na área desejada; 2) relevância cultural do projeto para a sociedade local; 3) viabilidade de execução do projeto; 4) qualificação dos profissionais envolvidos; 5) portfólio de atividades do agente ou coletivo; 6) contrapartida social. Assim sendo, a comissão externa seguiu esses critérios e o meu projeto foi um dos aprovados. Vale ressaltar que a classe artística brusquense lutou anos por uma comissão externa, por entender que a comissão externa gera mais ética e transparência ao processo do edital. Em várias cidades do estado, bem como em outros lugares do Brasil, é comum os editais adotarem uma comissão externa.
Contudo, a comissão externa e suas escolhas foram questionadas por alguns munícipes que não entendem de editais culturais, muito menos da política pública cultural. A comissão externa sempre é formada por pessoas capacitadas na área cultural, com longa experiência. A verdade é que algumas pessoas querem a todo custo destruir o processo de lutas, conquistas e consolidação da política pública cultural e voltar aos velhos tempos da política de balcão.

Sem a permissão do artista, obra apagada é obra censurada

Giane M. de Souza: Do dia 24 ao dia 25 de setembro de 2021, a sua obra O povo de Dentro foi literalmente apagada do prédio da Fundação Cultural de Brusque. Você foi informado desta decisão? O que ocorreu?


Douglas L: Não fui informado com antecedência pela Fundação Cultural de Brusque, nem por outra secretaria municipal que a obra seria apagada. Fiquei sabendo do ocorrido em um grupo de WhatsApp no fim da tarde de sábado (25.09.2021), quando alguém publicou uma foto da obra apagada. Inicialmente pensei que era uma brincadeira, porém pessoas foram até o local, e confirmaram que a obra tinha sido literalmente apagada. Reafirmo o artista não foi comunicado e não recebeu nenhuma justificativa plausível pela ação do apagamento da obra. Na noite do dia 25.09.2021 entrei em contato, por WhatsApp, com a superintendente da Fundação Cultural de Brusque, Zane Marcos. Perguntei para Zane o que tinha acontecido, gostaria de respostas e explicações sobre o caso. Contudo, Zane não me respondeu. Disse que iria me ligar, mas não ligou. A Fundação permaneceu calada todo o final de semana e só veio se manifestar por meio de uma nota minúscula na segunda-feira. A nota dizia que eles iriam investigar o ocorrido. Dias depois o Secretário de Fazenda e Gestão Estratégica, William Molina concedeu uma entrevista justificando o apagamento da obra, porém os argumentos de Molina não convenceram o artista, sua equipe nem grande parte da população brusquense. Não temos dúvidas que foi um ato carregado de censura. Nas paredes da Fundação Cultural havia três murais, feitos por três artistas diferentes, usando recursos do mesmo edital, porém apenas o meu foi apagado. Os outros dois permanecem intactos. O fato de uma obra ser removida na casa do artista. Digo casa do artista, pois a Fundação Cultural de uma cidade deveria simbolizar uma casa de todos os artistas, um local que acolhesse a arte e fosse a primeira a lutar e defender uma arte livre, sem censura. Por fim, a remoção da obra das paredes da Fundação Cultural diz muito. O que mais me deixou inquieto e ainda deixa, é o silêncio da Fundação e do próprio Conselho Municipal de Cultura. Se a própria Fundação Cultural não defende a arte e o artista, o que podemos esperar?

Artista Douglas Leoni

Quem é o Povo de Dentro?

Giane M. de Souza: Quem é o Povo de Dentro? Porque alguns gestores públicos sentiram-se “ofendidos” com a temática da obra?

Douglas L: POVO DE DENTRO
Palavras Conceito: Povo = Pessoas. Grupo. Trupe. Multidão. Nós. Humanidade.
É coletivo sem esquecer o indivíduo. É singular e diverso. É praça pública. Povo é palavra plural, carrega muito e expressa inúmeras formas de ser. Povo é identidade. Reconhecer-se. Dentro = Interior. Eu. Casa. Cabeça. Corpo. Traços (personalidade) – aquilo que nos constrói. {(mundos interiores) universos} Personas;
A ideia de povo, ou melhor, multidão está relacionada com a quantidade da minha produção. Em meados de 2013 comecei a fazer uns traços em algumas folhas brancas. Sem perceber, rabiscar virou um hábito, e ao final de um pequeno período já tinha diversas folhas e cadernos de desenho preenchidos. Inicialmente não chamava meu trabalho de desenho, mas sim de rabiscos, pois tinha aprendido na escola que desenho era apenas o desenho realista. Após várias conversas com as artistas Márcia Cardeal, Milu Rodrigues, Vania Gevaerd e Silvia Teske, ampliar o olhar e entender que meu trabalho também é desenho. Em 2014, realizei a minha primeira exposição individual com a curadoria de Silvia Teske. Após várias conversas surge o termo Povo de Dentro – o povo que habita o artista. Termo que batizou a primeira exposição e, posteriormente, o meu trabalho. O meu traço já existia, apenas ali ganhou um nome.

Interessante perceber as relações entre as linguagens artísticas. Eu venho do teatro, e no teatro estamos acostumados a criar personagens – personas. Quando fui para a linguagem visual trouxe essas personas. Costumo dizer que meu desenho é de certa maneira cênico, performático. Talvez o Povo de Dentro seja uma síntese do meu trabalho, pois ele é performático, visual, poesia etc. Os traços simples e espontâneos que formam o Povo de Dentro narram histórias.
Depois da primeira exposição a minha produção apenas aumentou. Experimentei outros suportes, e assim o Povo de Dentro, antes só visto em desenho, passou para a escultura, pintura e para os murais ou podemos também chamar de grafite. Na folha branca surgem rabiscos, traços, formas. Nascem corpos e poesia.

O Povo de Dentro, com suas linhas e formas (limpas e espontâneas) narra e ilustra. Torna-se um sensível canal de expressão (comunica o eu, o tu, o nós).
O Povo de Dentro cresceu, multiplicou-se e não cabe mais na cabeça do artista ou em seus moleskines. Esta multidão agora deseja, os muros, paredes, anseia conhecer e dialogar com outros povos. O Povo de Dentro é essa impermanência, inconstância, incerteza. Um conjunto de corpos tortos. De sujeitos carentes, sedentos, curiosos, todos humanos. Este aglomerado – rico em diversidade – continuará a nascer.
Quando falamos no Povo de Dentro, também estamos falando na diversidade. O Povo de Dentro dialoga com a pluralidade que é nossa sociedade.

Falar do Povo de Dentro é discorrer sobre as fragilidades humanas, pois os corpos não estão retos, eles são tortos, por vezes inacabados. Algumas pessoas se incomodam pelo fato dos meus desenhos não serem realistas, eles mostram essas fragilidades, ou seja, humanidades.

Penso que nesse caso específico não foi algo na obra que incomodou, mas sim minha figura e aquilo que eu e minha obra representamos. Sou tudo aquilo que parte de uma sociedade tradicional e conservadora quer apagar. Quando apagam minha obra estão mandando um recado, eles estão dizendo que não há espaço em Brusque para pessoas como eu. Quando apagam o Povo de Dentro, estão apagando a diversidade e o fazem na calada da noite, de maneira criminosa, pois essa “gente de bem” não sabe dialogar e não tem coragem de entrar num debate civilizado, eles preferem agir à surdina. Nossa alegria, nossa liberdade e nossa coragem de sermos quem somos incomoda certos grupos que criam maneiras do nos calar, apagar. O Povo de Dentro é uma arte contemporânea, a qual exige uma reflexão – a atividade do pensar, e parte das pessoas que estão em cargos de poder preferem uma arte que não é preciso pensar, pois o pensar liberta as pessoas.

A situação envolve vários atores sociais que não aparecem, pois agem de forma silenciosa. Quem apagou ou quem assumiu que mandou apagar são apenas peões no tabuleiro. Vejo o quanto nesse caso minha obra e minha pessoa foram usadas como armas para atacar outras pessoas e até a própria esquerda. Vivemos numa polarização horrível. E parece que estamos retrocedendo. Por vezes, sinto que estamos vivendo uma ditadura invisível e uma nova idade média, porém bem pior, pois agora não é apenas a Igreja ou o Estado que te vigiam.

Diversidade Cultural e Diversidade Humana

Giane M. de Souza: Em recente entrevista na NSC TV você fez um manifesto contundente em nome da liberdade artística. Como podemos mobilizar o que ocorreu em Brusque para que não ocorra mais em nenhuma parte do mundo?

Douglas L: Penso que o ocorrido em Brusque, ocorre em outras cidades do Brasil, apenas acentua a necessidade de lutarmos por uma arte cada vez mais livre. Livre de preconceitos, de conceitos fechados, visões moralistas, limitantes etc. Precisamos discutir o conceito de arte. Precisamos de formação. Formação para todos, inclusive para as pessoas que ocupam cargos culturais. Não podemos aceitar que concepções pessoais, religiosas e/ou outras, venham determinar o que é arte e o que não é arte. Não podemos aceitar que pessoas sem nenhum conhecimento sobre a política pública cultural tenham poder de interferir nas decisões artísticas e culturais da cidade. Lógico que todos são convidados para participar e construir por intermédio de um processo democrático as políticas culturais, mas o contrário dialoga com a censura e com práticas de governos autoritários. A mídia profissional tem grande papel nessa caminhada, pois ela é fundamental para a divulgação correta dos acontecimentos e esclarecimentos da população.

É preciso fortalecer as organizações culturais (públicas e privadas) através de investimento, seja na contratação de pessoas qualificadas, na melhoria da infraestrutura, na ampliação para que mais pessoas tenham acesso à arte e a cultura. É preciso que essas instituições culturais trabalhem para todos, sem privilegiar nenhuma linguagem, artista, grupo ou estilo. Urge falarmos mais sobre arte contemporânea, não só entre os muros das universidades ou das paredes brancas dos museus. É preciso rasgar esse véu para que a população que ainda vive no renascimento, possa acordar do sono encantado. A arte já está nas ruas, nas esquinas, no cotidiano.

Necessitamos criar mais espaços de diálogo entre os artistas catarinenses e de outros estados por meio de eventos, rodas de conversa, formações e pelo fortalecimento dos conselhos municipais e estadual de cultura. Não podemos voltar à escuridão da Idade Média nem aos porões da ditadura militar. Vivemos tempos estranhos. De grandes retrocessos, inclusive na área cultural. Já faz alguns anos que estamos acompanhando os cortes de orçamento na arte e cultura. Espaços culturais fechando, editoras encerrando suas atividades etc. Para que isso não ocorra, precisamos cultivar os espaços democráticos. Não é a arte que está sendo atacada e sim a própria democracia. O fazer artístico é em si um ato político. Cabe aos artistas compreenderem sua função que não é apenas artística ou estética.

“O Povo de Dentro”

Conselho Estadual e Conselho Municipal de Cultura

Giane M. de Souza: O Conselho Estadual de Cultura (CEC) de Santa Catarina, tentou uma mediação com o poder público sobre o fato em Brusque, e se manifestou por meio de moção pública. Você organizou um abaixo-assinado com mais de 400 assinaturas pela internet. Como foi o processo de mobilização em apoio à sua obra?

Douglas L: As pessoas foram acompanhando o processo de criação dos murais. Assim sendo, o projeto Povo de Dentro – galeria urbana, é resultado de toda uma caminhada. Caminhada que foi compartilhada e seguida por muitas pessoas. Dessa forma, quando as pessoas souberam da obra apagada de maneira misteriosa no meio da noite, a mobilização ocorreu espontaneamente. Tive apoio de várias pessoas que não apenas compartilharam e divulgaram as ações, elas também cobraram respostas da Fundação e do poder público. A questão tomou uma proporção que deixou de ser apenas Povo de Dentro ou a obra do Douglas, e passou a ser a defesa da própria arte. O que está em jogo é uma arte livre, desprovida de preconceitos ou censura.
Não cabe mais em nossa sociedade uma visão de arte restrita, como se a arte fosse apenas o belo ou se alguém sozinho pudesse definir o que é ou não arte. Vivemos numa sociedade diversa e plural. As manifestações artísticas irão seguir esse caminho. É séria a ilusão de querer normatizar as linguagens artísticas, colocando regras ou condições religiosas, pessoais ou morais. Já não bastam as regras estéticas que por vezes diminuem a própria arte?
Creio que o acontecimento com a minha obra despertou muitos debates perante a produção artística, editais de cultura, concepção de arte, visões diferentes entre a própria classe artística, o próprio papel do artista entre outros pontos. Esses questionamentos, de certa forma, corroboram na evolução da arte e cultura local.

Tempos Obscuros para a Arte e os Artistas

Giane M. de Souza: A conjuntura política no Brasil, atualmente, favorece a perseguição dos artistas. Por quê?

Douglas L: Muito do que estamos vivendo, basicamente desde meados de 2015, tem total relação com a conjuntura política. A eleição de Bolsonaro apenas salientou uma visão conservadora e autorizou que as pessoas exteriorizem seus pensamentos carregados de preconceitos. O que antes era apenas um pensamento velado passou a se falar sem receio nenhum. Acompanhamos nos últimos anos, vários artistas e grupos sendo alvo de calúnias, processos jurídicos e outros.
Todo governo autoritário teme os artistas, pois a classe artística possui em suas mãos a poesia que liberta de toda ignorância. A arte quando é arte, é repleta de filosofia, antropologia, sociologia, história e por meio das linguagens artísticas ajudam a desenvolver uma sociedade mais crítica, consciente, criativa, ativa, tudo o que um governo autoritário teme.

Conhecemos um governo pela forma que ele trata seu povo, e mais ainda pela forma como ele trata seus artistas.

Não é à toa que os artistas são perseguidos, quem persegue conhece o poder libertador e transformador que a arte possui. Vivemos uma cultura do silenciar, do apagar, do construir uma única narrativa, da criação diária de notícias falsas. Nós, os artistas, somos calados, pois a arte tem um potencial de gerar criticidade e assim sendo, levar uma população a repensar seus hábitos. A atual conjuntura política favorece a perseguição de artistas, pois o grupo político que está no poder tem suas bases no autoritarismo, no falso moralismo, em ideias conservadoras, e na luta por um poder que mata a própria democracia que os colocou no poder. Para mudar essa situação é preciso que mais artistas entendam que arte é sim política, como o preço do feijão e da gasolina também é política, não falamos da política partidária, mas na política cotidiana, aquela da vida, do existir.

Justiça se Manifesta Favorável ao Artista

Giane M. de Souza: O Ministério Público enviou uma notícia crime contra alguns membros da gestão e solicitou a repintura da obra. Como você recebeu esta decisão. Repintar a obra no lugar em que ela foi apagada redime a violência sofrida?

Douglas L: Eu e minha equipe recebemos a notícia com muita alegria, porém após alguns dias a liminar foi derrubada. Agora, esperamos com cautela o processo seguir seu percurso. Ainda existem algumas etapas e precisamos aguardar, para só no fim apreciarmos a decisão do judiciário.
Tivemos várias conversas com a Fundação e em todas pedimos para refazer a obra, mas em todas recebemos um não. A justificativa dada pela prefeitura ao apagar a obra é no mínimo ridícula, ao mesmo tempo os motivos de não deixar o artista refazer a obra são fracos. A obra estava em boas condições e não é verdadeira a fala que tinha uma infiltração naquela parede. Toda a situação vai reforçando a ideia da perseguição política e da própria censura. Infelizmente nos cabe apenas esperar e enquanto esperamos criamos, na espera nascem outros povos e eles vão povoando novos imaginários. Repintar a obra apagada de fato não redime toda a violência sofrida, contudo devolve para a sociedade a arte que é pública.

Ser Artista em Santa Catarina

Giane M. de Souza: Quais são seus planos e expectativas para o futuro próximo? O Povo de Dentro virá com força em novas obras?

Douglas L: Tudo o que aconteceu apenas fortaleceu ainda mais minha obra e minha caminhada como artista. Lógico que não foi fácil. Passei por momentos complexos e tive muita vontade de desistir. Precisei de uma parada para rever algumas questões. As turbulências de 2021 trouxeram reflexões necessárias aos meus processos criativos. Todavia afirmo: o Povo de Dentro seguirá firme e forte. Estou produzindo e ainda em 2022 farei uma nova exposição. O caos despertou a pesquisa e novas descobertas – experiências em novos suportes. Tenho encontrado um novo Povo de Dentro. Sem dúvidas posso dizer o Povo de Dentro tem muito chão pela frente. Novas parcerias estão sendo feitas. Tenho procurado ver o lado positivo de tudo o que ocorreu e seguir. Eu não sou mais o mesmo, nem o Povo de Dentro. Sigo criando, e vejo que a força está na continuidade do trabalho. Minha resposta será pela poesia. Viva o Povo de Dentro, viva a arte!

Giane M. de Souza: Como é ser artista em Santa Catarina? Como você percebe o alcance das políticas públicas para todas as expressões e diversidade artística?

Douglas L: Santa Catarina é um dos estados mais conservadores do Brasil e isso já diz muito. Ser artista aqui requer muito jogo de cintura para driblar os preconceitos e uma visão restrita, por vezes até arcaica, que as pessoas têm sobre o conceito de arte.
Para muitos a ideia de ser artista ainda está relacionada com um trabalho insignificante, que nem é considerado um trabalho. As pessoas ligam a prática artística com um hobby. Escutamos com frequência: – “Você é artista, mas trabalha com o que?” – “Como ganha dinheiro?”
Talvez essa visão esteja nas raízes dos nossos antepassados (alemães, italianos, poloneses) que viam o trabalho somente ligado ao trabalho braçal. Assim, ser artista em nosso estado é uma luta constante para desmistificar essas visões e mostrar que a arte também é economia. Portanto precisa de investimentos.

Percebo a existência de uma desigualdade na produção artística entre as regiões do estado. Em algumas, as políticas públicas culturais já estão mais concretizadas e os debates perante as expressões e diversidades artísticas avançadas. Entretanto, nas pequenas cidades ou nas regiões mais afastadas dos centros culturais, o caminho ainda é longo. Ouso dizer que nessas regiões não chegaram ainda nem as descobertas da Semana de 22. Por isso a importância da troca de conhecimentos e experiências entre as cidades, grupos, artistas.

Cidades que possuem universidade com cursos ligados à arte possuem outra dinâmica, a qual promove mais debates artísticos e culturais, estimulando a criação de grupos e movimentos. Arte é movimento, é criação e ela precisa de espaço, de estrutura, de meios para crescer e se desenvolver.
Para tanto, é preciso que o poder público (também o poder privado, e o terceiro setor) tenha um olhar sensível. Compreenda que o dinheiro colocado na arte e cultura é um investimento que irá gerar frutos na saúde, economia, educação etc. Por outro lado, parte de nossa classe artística é muito passiva. Não participa da construção das políticas públicas culturais. Precisamos de uma classe mais consciente.

A arte, infelizmente, ainda é uma atividade elitizada. E, dependendo da expressão artística, marginalizada. Os editais de cultura são uma bela forma de tentar democratizar o fomento de todos os estilos e formas artísticas, porém nem todos os artistas sabem escrever bons projetos. Surge então a necessidade de formação. A arte precisa sair dos espaços consagrados e buscar novas relações com o público. Em nosso estado estamos ainda presos aos conceitos e práticas tradicionais. Essa mudança requer uma participação dos professores de arte, cujos são atores importantes dessa transformação. Novamente caímos na questão da formação, pois como está sendo a formação desses profissionais? Ser artista em Santa Catarina é um processo que exige perseverança e criatividade.

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