Biblioteca para todos: conheça o projeto “Biblioteca de Muro”

Por Celiane Neitsch

Fui moradora do bairro Floresta, na zona sul de Joinville/SC por 30 anos, mas somente quando acessei certos círculos sociais e culturais, fiquei sabendo da existência do projeto “Biblioteca de Muro”, que desde abril de 2018,possibilita o acesso da comunidade, aos livros e estimula o hábito da leitura nos moradores do bairro.

O professor Jailson Cordeiro, idealizador do projeto, conta que a ideia surgiu durante um curso na cidade de São Paulo, no qual os participantes tinham o desafio final de fazer algo criativo com R$10. “Achei que a literatura fosse uma área interessante. Como toda ideia criativa, surge de um problema, pensei em como fazer para tornar popular a literatura e fazer da leitura um hábito cotidiano. Lembrei de algumas hortas comunitárias, que são feitas nas calçadas, aí surgiu o insight de fazer a biblioteca na calçada, ou no meu caso, no muro”, comenta.

A empreitada, tem o apoio e participação dos amigos Maurílio Morais e Vinicius Oliveira, que colaboram com o conhecimento técnico em construção, e a produção de vídeos e conteúdos de divulgação do projeto. Atualmente já existem três bibliotecas na cidade, localizadas nas ruas: Barra Velha (Floresta), Constantino de O. Borges (João Costa) e Dona Francisca (Santo Antônio). As instalações foram construídas com materiais doados pelo próprio Jailson e para manter o projeto, ele conta com apoiadores e parceiros que colaboram com a organização e doação de livros.

Com o propósito de promover a cultura e a difusão cultural, o Arte na Cuca entrevista o professor Jailson, que traz mais detalhes sobre as bibliotecas e as novidades do projeto, como os recém lançados “Kits de leitura Biblioteca de Muro”. Toda venda dos kits é destinada à construção de novas bibliotecas.

Arte na Cuca: O “Biblioteca de Muro” já se tornou uma referência em ações de difusão cultural, e tem sido destaque em sites e programas de televisão. Quando iniciou o projeto, você já esperava este reconhecimento?

Jailson: Nunca imaginei não, nunca enviei release a nenhum canal da mídia. Sempre foram os canais que me procuraram, tanto rádio, internet como TV. Em termos de reconhecimento da comunidade, eu imaginava que seria impactante por não ter ideia semelhante, mas não tão positivamente.

Arte na Cuca: Existe uma seleção dos livros disponibilizados na biblioteca? De que forma é feita a manutenção e controle das retiradas?

Jailson: Os livros dispostos são todos de doações. A entrada dos livros que tem ISBN e que são entregues a mim, é feita através de um aplicativo. A saída realmente não tem controle, não temos a ideia de implantar nada neste sentido também.

Arte na Cuca: Quais as principais dificuldades em manter um projeto de difusão cultural totalmente gratuito, na cidade de Joinville/SC?

Jailson: No nosso caso a dificuldade é custear novas Bibliotecas, mas sempre estamos testando novos métodos de captação de recursos, estamos tendo sucesso até o momento. Temos a facilidade do projetos ser de “troca de consumo”, então não precisamos de recursos para mantê-lo, apenas para iniciá-lo.

Arte na Cuca: No site do “Biblioteca de Muro”, é possível adquirir kits e contribuir com a construção de mais bibliotecas. Como surgiu a ideia, e quais os planos da equipe do BdM para o futuro?

Jailson: Sim, iniciamos esta semana a venda dos kits, com o lucro construiremos novas Bibliotecas. A ideia já surgiu a muito tempo, porém só consegui colocar em prática agora. A venda de produtos personalizados é uma prática conhecida no meio das captações, ainda não conseguimos personalizar os produtos, mas é uma das intenções, dependendo da demanda. Os planos atuais são de implantar novas Bibiotecas na cidade, temos como meta, mais 2 para este ano. Já temos iniciado a conversa com outras pessoas para expandir o projeto para outras cidades e estados, mas são apenas conversas por hora. Sabemos do potencial de escalabilidade do projeto e vamos trabalhar nisto. 

Arte na Cuca: Sobre uma possível taxação de livros (isentos de impostos pela Constituição Federal de 1988 e, desde o ano de 2014, têm alíquota zero de PIS/Cofins), em maio o ministro da economia Paulo Guedes, declarou que ” o livro é um produto de elite”. Como produtor cultural e educador, qual sua opinião sobre o tema?

Jailson: As justificativas do ministro são do elitismo, segundo a pesquisa mais conhecida do setor que é a Retratos da Leitura no Brasil, cerca de 13% dos livros comprados, foram por consumidores da classe D ou E, porém levar em conta apenas essas informações é ignorar toda uma cadeia de custo e produção para os livros. Com mais impostos, a tiragem fica menor, a facilidade para lançamento de livros também, visto que as editoras deverão restringir as tiragens, tornando a cadeia produtiva cada vez mais comercial. Sem contar o aspecto político e econômico da proposta, que é totalmente contra os princípios e propostas políticas da atual gestão federal, que se elegeu prometendo um governo liberal e com isenção e cortes de impostos. O que é exatamente o contrário neste caso.

Arte na Cuca: Além de disponibilizar o acesso aos livros, o projeto realiza ou pretende realizar ações de formação em cultura?

Jailson: Nossa ideia por um momento, era de levar a construção das Bibliotecas para dentro de escolas, como um projeto pedagógico e prático, mas com a pandemia a ideia não foi continuada. Quem sabe futuramente demos seguimento.

Arte na Cuca: Com a pandemia, as escolas, cinemas e espaços culturais como as bibliotecas, precisaram se adequar à nova realidade, adotando protocolos e medidas mais rígidas de higiene. Qual a situação da “Biblioteca de Muro” no momento?

Jailson: Como não atuamos em um espaço fechado, o funcionamento continuou igual, até aumentou, por conta das pessoas estarem mais em casa. Sempre higienizamos as doações e orientamos as pessoas a higienizarem as retiradas também para evitar ao máximo a contaminação.

Conheça o projeto “Biblioteca de Muro” clicando AQUI
Facebook Biblioteca de Muro | @bibliotecademuro

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