200 anos do Dia do Fico e a Síndrome de Colônia

Imagem: “Dia do Fico”. Aclamação de Dom Pedro I, Imperador do Brasil, no Campo de Sant’Ana, Rio de Janeiro. 1822, Jean-Baptiste Debret.

Em janeiro, no dia 9, foi comemorado os 200 anos do Dia do Fico. Hoje quase ninguém sabe da importância deste dia, por isso a data passou desapercebida pela maciça maioria dos brasileiros. Porém vamos rememorar o fato em si. Ele marca o fim dos combates entre a Marinha Portuguesa e o Exército Brasileiro pela guarda de D. Pedro, o príncipe regente. Na ocasião, a Marinha tinha a missão de levá-lo para Portugal, enquanto o Exército de mantê-lo no Brasil. Em 9 de janeiro de 1822, o príncipe decide ficar e pede para que os marinheiros emboscados voltem aos navios e sigam para Portugal, pois não garantiria mais a segurança das tropas a partir de então. Os portugueses atendem o pedido e o processo de independência toma força e vigor.

Quando você estuda a história das nações mais ricas, é muito comum fatos que marcam os grandes feitos, no qual são utilizados normalmente para enfatizar características culturais, dar orgulho da grandeza e marcar a identidade e a soberania. Aqui no Brasil, a nossa História é usada para levantar indeterminações, trazer à tona eventos de cunho pejorativos, escandalosos e desmoralizantes. Lógico que temos historiadores que fazem trabalhos sensacionais de estudos aprofundados e que mostram setores interessantes dos diversos aspectos da política, economia, cultura e relações sociais brasileiras, porém estes estudos não tem a mesma notoriedade daqueles que visam polemizar.
Esta ânsia por denegrir o que é brasileiro ou exaltar as figuras do anti-herói, provavelmente vem da síndrome de colônia, que assola a população brasileira e da qual esta não consegue se desvencilhar, são grilhões de caráter cultural, tão intrínseco em nossas mentalidades, que buscamos exaltar fatos que nos ultrajam, como forma de justificar o nosso fracasso socioeconômico, como se não pudéssemos ser os melhores.

Alguns fatos que foram esquecidos na narrativa do Processo de Independência, foi a manobra diplomática feita para que evitássemos uma guerra, não contra Portugal, mas com sua principal aliada, a Inglaterra, que também não queria entrar em choque com o Brasil, mas em nome de tratados e acordos com os lusitanos, não hesitaria numa guerra para garantir seus interesses, levando o Brasil à uma crise ainda maior a qual já enfrentava em 1822.
Referente a conjuntura de 1822, vamos a alguns aspectos. Quero lembrar aqui, que durante 1808-1816, a economia do Império Português passou pelo Brasil e muitos das limitações coloniais foram alteradas pelas Reforma Joaninas. Neste mesmo período, Argentina, Paraguai, Venezuela, Colômbia, estavam mantendo guerras de independência, disseminando o espírito de libertação sobre a América do Sul, mas a presença de D. João no Rio de janeiro garantia a paz no Brasil.

Com a volta de D. João VI para Portugal em 1820, forçada pela Revolução do Porto, e as discussões no Parlamento Português, para que o Brasil voltasse a condição de colônia, pautados em acordos do Congresso de Viena, que não tinham procedência legal nas questões brasileiras, fizeram com que grupos da elite e de intelectuais aqui no Brasil iniciassem um processo de construção para a Independência, pois a volta à condição de colônia era inconcebível, porém o Parlamento Português aprovou o retorno das regras coloniais. A partir de então, a vontade de liberdade não parou mais. Contudo, como D. João VI esvaziou os cofres no Brasil, tínhamos dificuldades de reformar as forças armadas e manter a organização autônoma, já que para isso teríamos de romper com o Velho Continente de vez e se aliar as novas nações americanas, atitude que poderia iniciar um conflito contra a Inglaterra, além de fracionar o território brasileiro, causados por interesses regionais.

Como esse rompimento era muito perigoso e radical, pois as elites agrárias tinham vínculos comerciais e culturais com as nações europeias, procurou-se como primeira medida, a conversação e o intermédio de ações para que tudo saísse da melhor forma, a não prejudicar esse pseudo Brasil Independente que se formava.
Claro que as ações brasileiras não eram uníssonas, e dentre os grupos existiam muitas pessoas divergentes, tanto que grupos bonapartistas, tentaram em vão em 1820 resgatar Napoleão de Santa Helena para coroá-lo imperador do Brasil e organizar um exército conquistador que pudesse fazer frente aos ingleses. Outro destaque foi Joaquim Gonçalves Ledo, político mais republicano, que temia a interferência direta do exército inglês, a exemplo do que aconteceu com a queima da nova capital Washington, como retaliação aos Estados Unidos pela aliança com a França de Napoleão, durante as Guerras de 1806-1814 na Europa. Ele foi fundamental da questão do Dia do Fico. Outra personagem ímpar, foi Jose Bonifácio de Andrada e Silva, mais conservador e monarquista convicto, visava manter a organização do país tal qual já era, imprimindo para isso uma política diplomática de conciliação entre Brasil e Portugal para o mesmo propósito, a Independência.

Conciliadas as forças de Gonçalves Ledo e José Bonifácio, e a dissipação dos bonapartistas com a morte de Napoleão Bonaparte (1821), o movimento pela Independência se deu até o dia sete de setembro, em que a maior parte das províncias do Brasil aceitaram a independência de forma mais pacífica, com exceção de algumas províncias do Nordeste do país, que devido ao alto índice de portugueses em sua população e também uma cultura voltada à exportação, achou melhor se manter unida a Portugal. Desta forma, os combates armados aconteceram até julho de 1823, quando a Bahia de todos os Santos, levantou bandeira de paz, e o Brasil se torna livre por inteiro, territorialmente falando.
Agora a independência econômica, social, cultural, ainda está por vir, pois a síndrome de colônia ainda nos assola e faz com que coloquemos sentimentos menores acima desta soberania nacional, é aquilo que forja a submissão ou oligarquias ideológicas, cheias de vaidades infrutíferas, que secam a fertilidade daquilo que deveríamos exportar para todas as nações, o jeito criativo de resolver problemas, a vontade de ajudar aos necessitados, a nossa hospitalidade, empatia, diplomacia, fraternidade, tão aflorada, que não recebemos nenhum incentivo para isso, simplesmente nós nos fizemos assim, como consequência de nossa trajetória histórica.

Todavia, ao contrário daquilo que se aparenta, a nossa falta de cultura e educação laica, desconfiança em demasia, medo de proferir penas pelos atos errados, a baixo autoestima, que nos faz buscar subterfúgios para alicerçar a nós mesmos, são pontos latentes desta síndrome de colônia, que transcende o tempo e nos faz ignorantes de nós mesmos, buscando em um passado europeu, a justificativa daquilo que é bem-sucedido, enquanto a nossa brasilidade emerge as frustrações. Por isso negamos a as conquistas brasileiras e por melhor que nos saímos em nossos esforços, não conseguimos nos permitir nos orgulhar por isso. Sempre buscamos os defeitos e as causas do porquê não nos saímos melhor.

Entender, exaltar, vibrar pelos nossos fatos históricos, como parte da trajetória de nós mesmos brasileiros, é o começo para a verdadeira independência, quem sabe na comemoração dos 200 anos de liberdade, conseguimos nos unir para realmente seguirmos um caminho novo, com soberania e assertividade.

Cristiano Viana Abrantes.

Graduado em História pela USP em 1998, atuou por 25 anos como professor de História. Atualmente trabalha como historiador do Município de Joinville desde 2015. Participou de inúmeros projetos escolares e atualmente tem investido na área de Literatura como escritor e dramaturgo.

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