Clóvis Gruner lança livro sobre os silêncios da imprensa joinvilense

O professor e pesquisador Clóvis Gruner lança o livro Leituras matutinas: Modernidade, utopias e heterotopias na imprensa joinvilense (1951-1980) no dia 23 de agosto, quinta-feira, na Livraria Barba Ruiva. O livro está em sua segunda edição e é resultado das pesquisas de graduação e mestrado de Gruner sobre os discursos das elites locais ao longo de três décadas do processo de modernização em Joinville.

Mais do que o clima de ordem, progresso e trabalho tornado oficial através da abordagem da imprensa durante os anos cobertos pela pesquisa, o texto de Gruner dá enfoque às manifestações marginais e às zonas de silêncio e invisibilidade produzidas socialmente como decorrências históricas de todos os processos de modernização. Na contramão dos esforços da elite em dar à cidade uma aparência superficial de tranquilidade, paz e eficiência através daquilo que os jornais publicavam, o livro se vale das omissões e dos discursos dissonantes – da literatura, por exemplo – para revelar conflitos, tensões e focos de violência contrários ao senso comum que atribui apenas virtudes a Joinville.

Clóvis Gruner graduou-se em História pela Univille, concluindo mestrado e doutorado em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde é professor nos cursos de graduação e pós-graduação. Por e-mail, o autor conversou com o ARTE NA CUCA sobre o processo de pesquisa e a atualidade de Leituras matutinas.

Foto: divulgação

O livro teve sua primeira publicação em 2003 pela editora Aos Quatro Ventos e surge reeditado em 2017 pela Prismas. Em que medida seu texto se mantém atual?

A primeira edição é de 2003, um ano depois que defendi a dissertação na UFPR. A Aos Quatro Ventos era uma editora local pequena, que acabou encerrando as atividades alguns anos depois, aquela edição saiu com uma tiragem bem baixa – acho que não mais que 200 exemplares – que acabou esgotando. Me pareceu interessante uma nova edição quando Leituras matutinas completou 15 anos, para comemorar a “adolescência” da dissertação. Uma das coisas que me estimulou a prepará-la é que, passados tantos anos, o texto ainda me parece atual no modo como me propus a ler o passado recente de Joinville, contrastando os discursos modernizadores das elites locais ao avesso dessa modernidade, aquilo que chamo de heterotopias, tomando o conceito do filósofo francês Michel Foucault –inspiração fundamental ao longo do texto. Por outro lado, o texto tem sua própria historicidade: ele pertence a uma geração de pesquisas acadêmicas que apontava novas possibilidades de narrar a história local, propondo objetos, problemas e fontes novas, além de um arcabouço teórico renovado. A minha é a segunda geração a empreender esse tipo de trabalho – da primeira fazem parte, entre outras, as historiadoras Iara Costa, Ilanil Coelho e Sandra Guedes, todas elas minhas ex-professoras na graduação em História na Univille. Contemporâneos ao meu, há os trabalhos da Janine Gomes da Silva, da Sirlei Souza e da Valdete Daufemback, entre alguns outros.

Que revisões ou complementos fizeste para a reedição?

Acho que a versão da Prismas deve ser um dos poucos casos em que uma nova edição é ampliada e diminuída. Optei por não mexer no texto para que os leitores de agora tenham o contato com o trabalho tal como ele foi gestado há quase 20 anos. O que fiz foi uma revisão em que me livrei de metade das notas de rodapé da primeira edição e também de alguns arroubos de juventude que faziam sentido em 2002-2003, mas soariam estranhos agora. Atualizei a bibliografia e pedi à Ilanil Coelho que escrevesse uma nova apresentação.

Tu fizeste a pesquisa quando ainda moravas em Joinville ou esse trabalho se realiza quando tu já havias mudado para o Paraná?

A primeira pesquisa, a monografia da graduação, eu fiz ainda em Joinville, entre 1996 e 1997, sob orientação da Arselle Fontoura, que é também pesquisadora do Arquivo Histórico. Quando passei no mestrado em História da UFPR eu estava de mudança pra Curitiba, então o curso e a pesquisa eu os fiz já morando no Paraná.

Que aspectos essa eventual distância com o ambiente da pesquisa te estimulou ou te frustrou o trabalho?

A distância possibilitou uma espécie de “acerto de contas” com a cidade, porque ao longo dos anos minha relação com Joinville sempre foi muito delicada, de amor e ódio. Como meu recorte temporal era bem contemporâneo, contar a história de Joinville nos anos de 1960 e 1970, começo da década de 80, foi também revisitar um pouco da minha história com a cidade, o que foi estimulante intelectualmente mas, confesso, também um pouco terapêutico. A principal frustração teve a ver com a dificuldade da pesquisa: muita coisa eu deixei de pesquisar por falta de tempo, já que mantive uma rotina de ir a Joinville pesquisar no Arquivo Histórico um dia e meio por semana durante mais ou menos um ano e meio, o que limitou as possibilidades de fuçar no acervo documental sobre o período.

Qual foi a principal dificuldade para mapear e reconhecer as zonas de silêncio midiático da imprensa joinvilense? 

Houve uma dificuldade prática com as condições da pesquisa. De uma perspectiva teórica e metodológica, minhas opções foram duas, principalmente: fazer – ou tentar fazer – uma leitura a contrapelo dos discursos mais oficiais que encontrava na imprensa, tomando os jornais não simplesmente como porta vozes das elites, mas como um canal por onde as tensões e conflitos que eram parte desse processo de modernização eram representados.  De um lado, havia a intenção mais ou menos manifesta de engajar os veículos de imprensa – e é curioso que, nos anos 60 e 70, Joinville tivesse mais jornais diários que nas décadas posteriores, quando a cidade ficou limitada a um único veículo – em certo projeto modernizador que era de interesse das elites. Mas de outro, e em parte para chamar a atenção dessas mesmas elites para os possíveis riscos desse mesmo projeto, os jornais não cansavam de veicular e comentar as muitas contradições da cidade – uma delas, o aumento da criminalidade urbana e de sua percepção – que são coisas diferentes.  Uma segunda estratégia foi sair um pouco da imprensa e buscar outras fontes: utilizei algumas entrevistas do Núcleo de História Oral do Arquivo Histórico e também um pouco da literatura joinvilense produzida no período, especialmente a poesia local, que me ofereceu uma outra perspectiva dessa experiência modernizadora. O fato de ter usado pouco essas fontes literárias é também uma das frustrações da pesquisa, porque estamos falando de um material muito interessante e ainda pouco explorado pelos pesquisadores joinvilenses.

Que contatos tu ainda manténs com Joinville?  O que te mantém informado a respeito das coisas que acontecem na cidade? Que diferenças você poderia estabelecer entre a Joinville de hoje e aquela Joinville que se modernizou e foi flagrada pela tua pesquisa ainda em 2002?

Moro em Curitiba desde o final de 1999, mas Joinville é a minha Itabira: parte da minha família e também amigos dos tempos de universidade vivem aí, além de ter parte de minha memória impregnada pela cidade. Fiz contatos novos nos últimos anos, alguns deles gente que só conheço das redes sociais e que espero encontrar pessoalmente quando estiver na cidade para o lançamento do livro. Procuro acompanhar, sempre que possível o que acontece na cidade, lendo e ouvindo as novidades – as boas e as ruins – de quem mora aí. Além disso, sou colaborador do blog Chuva Ácida, embora a maioria dos meus textos não trate de temas locais. Joinville é uma cidade que resiste a mudar em não poucos aspectos, lamentavelmente. Por outro lado, tenho a impressão que há mais gente resistindo, fazendo e experimentando coisas novas no ambiente cultural, na militância política, nos movimentos sociais. Claro que isso tudo já existia nos anos 60 e 70, período da minha pesquisa, mas me parece que há agora uma visibilidade e uma diversidade maiores, uma disposição a fazer as coisas acontecerem que eu não percebia nos meus tempos de Joinville. E acho isso muito bom.

DIA: 23 de agosto
HORÁRIO: 18h30
CUSTO: entrada gratuita. Exemplar do livro a R$ 40
LOCALIZAÇÃO: Livraria Barba Ruiva – r. Henrique Meyer, 61, no Centro de Joinville

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