Bruna Morsch lança livro e fala sobre vida, literatura e atitude

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A escritora Bruna Sofia Morsch lançou o livro Van Ella Citron na sexta-feira, 20 de julho, com sessão de autógrafos e conversa com os leitores nas Livrarias Curitiba do Shopping Mueller. Publicado pela editora Micronotas, o romance trata da transformação dupla na vida da personagem que lhe dá o título: de universitária a garota de programa em Metrópolys, de iniciante a maior heorína entre as mulheres da Ilha das Viúvas, Van Ella luta para não ser enquadrada em um perfil único. A história propõe reflexões sobre a busca por status, sobre reconhecimento, sobre cultura machista e sobre feminilidade.

Bruna Sofia Morsch é escritora de contos, poesia e romance. É professora e psicóloga, pós-graduada em Psicanálise. Van Ella Citron é seu romance de estreia e foi apontado como um dos dez melhores livros de 2017 em uma lista de novidades e lançamentos de pequenas editoras elaborada pela equipe e pelos críticos do site São Paulo Review. A autora conversou sobre a vida e sobre a literatura com o ARTE NA CUCA algumas horas antes do lançamento.

Fale um pouco sobre o significado de Van Ella Citron para a sua trajetória artística e pessoal.

Minha trajetória artística começou por influência da minha mãe, que sempre esteve envolvida com a arte. Eu sempre gostei de desenhar como um hobby, nunca havia pensado em encarar isso como profissão. Foi na adolescência, durante meu processo de transição e confusões em relação à minha sexualidade que comecei a escrever. Dessa escrita surgiram dois romances que não prosperaram, pois acabei me cansando deles. O ingresso no curso de Psicologia caiu como uma luva e foi muito interessante conhecer a diversidade das pessoas. No final da faculdade saí da minha primeira profissão, passei por um momento bastante confuso relacionado a questões familiares e à minha própria identidade de gênero, num processo de descoberta. Estava muito confusa, mas sabia que precisava me formar e abrir minha clínica. No meio disso tudo, decidi voltar a escrever, mas a ideia era partir para as crônicas, dando início à Ilha das Viúvas, lugar que a Van Ella mora e que nasceu de um blog. O projeto de transformar as crônicas em livro deu-se no início do meu processo de transição e, no meio do livro, já com o nome de Bruna, percebi que a personagem falava muito de mim, muitos dos conflitos da personagem vêm da minha subjetividade e me concretizavam enquanto mulher e enquanto escritora.

Quais foram as referências ou inspirações para o seu livro? Em que medida ele é autobiográfico?

As pessoas pensam que todas nós, mulheres transexuais, somos ou já fomos prostitutas. Não vejo nenhum problema nisso, mas eu não chego para um sujeito e pergunto “ah, você é médico, né?”. O preconceito está intrínseco. Penso que o livro é autobiográfico quando ele traz referências da minha personalidade de uma maneira fantasiosa, maquiada, leve mas glamorosa, porque viver na pele o que a Van Ella vive é muito difícil. Quando penso na questão estética do livro, as inspirações são referências cinematográficas, principalmente os filmes de Quentin Tarantino e os quadrinhos Sin City além, claro, da psicanálise.

O abandono de uma vida considerada perfeita, o choque da realidade das ruas, o trabalho como prostituta…Como esses temas afetam Bruna Sofia Morsch?

Muitas pessoas ficaram chocadas com o início do livro porque a personagem abandona tudo para levar uma vida muito diferente em um ambiente de crimes e de prostituição. Não conseguem compreender os motivos para ela fazer isso. Com Van Ella Citron tento trazer para o livro o caminho inverso dessa visão de mundo capitalista, da busca pelo status perfeito e de que temos que ser sempre bem sucedidos em todas as áreas da vida. Eu não fiz essa saída para o campo da prostituição para me resolver, mas me afeta justamente quando penso quais são os preços que pagamos pelas nossas decisões. Muitos pensam que estou num lugar maravilhoso por ter uma família que me apoia e por ter meu emprego, mas a invisibilidade relacionada às mulheres está em todos os lugares, mesmo em uma simples conversa. O discurso machista está presente em qualquer boca.

Sua personagem se constrói como mulher num sentido contemporâneo, mas também está presa a angústias e questões mal resolvidas de uma vida privilegiada. Para você, o que é ser mulher?

Penso que essa passagem da menina para tornar-se mulher não se trata de uma questão cronológica, de estar muito bem elaborada com a menina que se foi, com a mãe que se tem e com esse afastamento da figura da mãe. É quando passamos a nos reconhecer além daquele lugar que nos faz filha de alguém. Ser mulher é entrar em contato com a sua feminilidade e ter de se haver com o fato de que a mulher é um sujeito castrado. É alguém que entra em contato com seu próprio saber e se aventura sem medo do diferente, daquilo que não sabe.

Van Ella Citron se transforma numa espécie de justiceira contra a máfia e o governo sem medir consequências. Como essa transformação radical auxilia a descoberta do “eu” interior e psicológico da personagem?

Algumas pessoas que me apoiam no projeto e que também leram o livro falaram que a personagem Van Ella é um diamante com várias facetas e que age conforme a luz bate nela. Outras falam que se trata de um sujeito que ainda não está constituído, sendo assim uma dúvida. Também acho que nesse primeiro livro ela é muito introdutória e está se descobrindo, vivendo um período de transição que é a passagem da adolescência para a vida adulta, todos os problemas e descobertas que essa mudança traz como a impulsividade do não saber viver e o que fazer com isso. Mas ela acaba fazendo algo grandioso, que talvez tenha um preço.

As revelações finais sobre a identidade da personagem nos faz pensar sobre inclusão e representatividade do público LGBTQ+ na cena literária. Como você analisa esta questão?

Já tive muita cobrança social para estar sempre militando e falando sobre ser uma mulher transexual, mas não quero que a transexualidade apareça antes do meu nome ou de quem sou como pessoa. Isso é algo que acontece muito com quem levanta bandeiras: acaba apagando o sujeito. Acredito que o fato de estar lançando um livro e estar circulando em outras profissões, transitando de uma forma diferente do que se espera de uma mulher trans já é o suficiente. Não preciso militar ainda mais do que aquilo que já estou fazendo espontaneamente. Quero alcançar leitores além da bandeira LGBTQ+. Um dos meus objetivos com esse livro é minimizar a transexualidade enquanto algo gritante para a sociedade. Acho que esse discurso do “me engulam” e essa gritaria do “me aceitem” são efetivos para conquistar direitos, mas completamente fracassados para fazer relações de conversas e travessias de encontros entre sujeitos. Penso que a militância vem das questões da relação com o judiciário, não com as relações de amor.

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