#Históriaemrap: música, educação e crítica social ao alcance de todos

“[…] a escrita dos historiadores é acadêmica, truncada, técnica para no máximo “seus pares” compreenderem. Por isso, não cai no gosto do grande público, pois não traz nenhum prazer à leitura”. (“A2 MC”).

É por meio da internet e das letras de Rap, que o professor de História Antônio Augusto Pereira Hille, descobriu um jeito simples – mas não menos qualificado – para discutir conceitos e temas relacionados ao ensino de História, sociologia e as Ciências Humanas, com seus alunos e a comunidade. “Quando comecei a lecionar -, percebi a necessidade de gravar as músicas que eu produzia, e, inserir as temáticas de sala de aula, para que os alunos pudessem estudar em casa e também visando alcançar professores de outras escolas”, declara o MC.

A iniciativa deu tão certo, que aos poucos suas músicas caíram no gosto da garotada e em 2019, virou clipe com gravação realizada na Livraria “O Sebo” e canal no YouTube, o “HusmanosTV”. Nesta entrevista produzida pela historiadora e doutora em história Giane Maria de Souza, o professor/MC, entre outros assuntos, fala sobre como conheceu o rap e o movimento Hip Hop, os desafios de ser professor durante a pandemia COVID-19 e como muitas vezes, nos deixamos influenciar e aceitamos como cultura, somente as produções que passam pela chancela da academia.

Entrevista com o professor Antonio Augusto Pereira Hille (A2 MC) por Giane Maria de Souza.

GMS: Você é professor de História e Mc. Em qual momento da sua trajetória pessoal esses dois ofícios despertaram?

A2 MC: Na verdade sou MC antes de ser professor. Comecei minha trajetória no movimento Hip Hop, quando eu tinha nove anos de idade, a partir da influência do meu primo Hallan que me apresentou Sabotage, MV Bill, RZO, Racionais MC’s, entre outros grupos de peso do rap nacional. Entretanto, foi no ano de 1999, que entrei de cabeça na cultura Hip Hop. Nesse período eu morava no Conjunto Dom Gregório Warmeling, bairro novo com uma série de problemas sociais — local onde surgiu a primeira escola de Hip Hop de Joinville. Desde então, aprendi sobre os quatro elementos da cultura: Graffiti, Breack, DJ e MC. No decorrer da adolescência passei a frequentar eventos de rap pela cidade e nesse processo conheci muitos manos e minas de valor. Desde então, busquei me engajar de várias formas, por exemplo, tentei produzir um site de rap joinvilense quando nem tinha um PC (computador); dancei break, organizei com meu parceiro SPY um programa de rádio pirata (que durou somente um mês), quando no ensino médio fundei com alguns amigos a Banca SML.

Com 17 anos me converti para a igreja batista, e desde então, passei a cantar rap gospel, mas sempre envolvido nos eventos tanto nas igrejas quanto fora delas (casas de shows, clínicas de recuperação e praças), pois neste período de certa forma, nosso maior trabalho era descriminalizar a cultura. 

A relação do rap com a educação aconteceu comigo, na verdade, desde a 7º série do ensino fundamental, pois sempre que tinha a oportunidade usava as músicas de rap como Sabotage, Racionais, Facção Central e MV Bill – para elaborar os trabalhos escolares e sempre dava certo! Entretanto foi no processo da faculdade de História que comecei a pensar sobre a possibilidade de criar raps focados nos conteúdos escolares, desde então comecei a estruturar o #históriaemrap, projeto aplicado ao estágio, inclusive na apresentação do meu TCC, meu parceiro André tocou violão enquanto eu cantava rap, por sorte os professores gostaram e aceitaram a quebra de protocolos. Após isso levei o projeto para prática docente.

GMS: Você está graduado há quanto tempo? E em quais escolas você leciona?

A2 MC: Conclui História pela Univille no ano de 2013. Em 2019, finalizei a especialização de Ensino Integrado de Filosofia, Geografia, História e Sociologia pelo IFSC. Sou professor há 8 anos, sendo que,  desde 2014 leciono no Colégio Oficina Joinville nas turmas de EFII — História e no Ensino Médio (EM) — Sociologia e Filosofia. Também estou trabalhando com turmas da EJA no SESI desde 2019.

Ressalto que trabalhar nessas escolas ao mesmo tempo é desafiador, pois durante o dia estou com crianças e adolescentes (entre 10 e 18 anos) que possuem boas condições sociais e econômicas, entretanto na EJA as realidades são extremamente diferentes, pois estes estudantes são jovens e adultos da mais diferentes idades e em sua maioria trabalhadores da indústria.

Apresentação de Rap para alunos e comunidade.

O EVANGELHO SEGUNDO O RAP

GMS: Como é a sua atividade de MC? Em quais coletivos e grupos você atuou na cultura Hip Hop em Joinville?

A2 MC: Como disse anteriormente, foi a partir da Banca SmL que passei a cantar rap a partir de 2005. A melhor formação que tivemos foi comigo: A2 e com o MC Japa – que reside no Japão -, a Mayra no backing vocal junto com a minha esposa Luanda e o MC Magoo, falecido em 2019, acometido por doença degenerativa, que desde 2009 impedia o nosso amigo de cantar. Nossas melhores músicas foram escritas juntamente com o Magoo.

Na Banca SmL, cantamos em eventos, principalmente, em Joinville e Jaraguá do Sul, além de participarmos de algumas batalhas de MC’s. Nosso foco sempre foi uma mensagem social, política e religiosa para divulgar o Evangelho.

No ano de 2011, entrei no projeto Restaura Vidas, idealizado pelo mano FAT que reuniu vários grupos de rap da cidade como Contexto Sagrado, Esquadrão JP, Cetro de Ferro, Artilharia Bíblica, DNS, ADR, etc. Nesse projeto trabalhamos com uma mensagem que buscava mostrar para a sociedade questões relacionadas ao crime e ao uso de drogas.  Enquanto ações sociais, fizemos vários eventos de rap, mas nosso foco sempre foi o acolhimento e encaminhamento de dependentes químicos para clínicas de recuperação, bem como a distribuição de algumas cestas básicas para as famílias carentes.  Em 2012, lançamos a coletânea do projeto em um CD físico. Permaneci no projeto, aproximadamente, até 2014.

Em 2015 participei do projeto EVG Rap com mano Fat, Leandro e Amauri, período em que fizemos por alguns meses o programa EVG Rap em uma rádio online. Em 2016, com este projeto gravamos o DVD EVG Rap (físico e digital) onde somamos com outros grupos de rap como Cetro de Ferro, Tiago Salmista, Consciência Suprema, Artilharia Bíblica, Duda Mivegui, Vários Parsas, Tiago de Borba e Thiagão.

Em relação às batalhas de rap, não me considero um MC de batalha, mas sim MC de mensagem, porém sempre que possível participo das batalhas só para curtir mesmo, embora sempre cuidando com tudo o que falo no improviso, ainda mais sendo pai e professor. Pois, até em minhas rimas, preciso me policiar, pois as crianças se inspiram e a tiração de sarro é algo natural das batalhas, mas imagina eu dizer: que esse mano ou mina é isso ou aquilo e na sala de aula falar que não podem fazer bullying. Nesse contexto, a rapaziada quer ver sempre “sangue” nas batalhas e não zoar o outro é muito difícil… As batalhas que me destaquei foram: Batalha do conhecimento – Elo Racional – campeão (2016); Hip Hop Festival – vice (2018); Batalha evento Canela – campeão; Fiquei duas vezes em segundo lugar na Batalha do Paraíso – de duplas e da Velha Escola; Em janeiro de 2020 fui campeão juntamente com MC Malcon na batalha de duplas da CDR.

Também sou muito grato ao MC Malcon do Quinto Elemento, que me fez o convite, em 2018, para que eu participasse com ele, mano Israel e Vinni Blake das gravações do filme Uma Carta para Ferdinand, produzido pela Ocotea Filmes.

A última coletânea a qual participei foi da banca Mente Blindada lançada em 2019 em CD físico. Essa banca está funcionando e reúne vários grupos de Joinville e de outras cidades catarinenses, promovendo alguns eventos de rap e de ações sociais. Alguns dos grupos de rap e MC’s dessa banca são: Piassava, Saulo MC, Referência Verbal, ADR, Gois, Nariga Voz e Visão, Esquadrão JP, Atitude ZO, Dheik, etc.

A2 MC e artistas do Rap.

Destaco também que nessa trajetória, além de ajudar na produção e idealização de alguns eventos em geral, seja com a Banca SML (até 2014) ou somente eu, nessa trajetória, cantamos em diversas igrejas e clínicas de recuperação, além de eventos como Ramal 047, Colmeia Hip Hop (Blumenau), EVG Rap (Joinville e Rio Negrinho), Rap Missão (São José), Encontros de Rappers (Jaraguá do Sul), Mente Blindada, projeto H2S, etc.

Em relação ao projeto #históriaemrap – quando comecei a lecionar -, percebi a necessidade de gravar as músicas que eu produzia, e, inserir as temáticas de sala de aula, para que os alunos pudessem estudar em casa e também visando alcançar professores de outras escolas. Portanto, a partir de 2016, consegui produzir algumas músicas em estúdio e comecei a postar na plataforma soundcloud.com. O resultado foi muito produtivo, pois as crianças se envolveram, e, principalmente, muitos estudantes do EFII de fato decoram as letras inteiras. Entretanto, quando fui fazer pós-graduação, percebi que o áudio das músicas estava com pouco alcance, embora eu já tivesse recebido retorno de professores de outras cidades de Santa Catarina e de outros estados como Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo e Minas Gerais, aos quais estavam utilizando os raps inspirados na História com suas turmas.

Desde então, comecei a estruturar as ideias de videoclipes para um canal de YouTube, mas sabe como é, apesar de cantar rap, sou professor de História e exigir que o professor consiga fazer tudo isso, cumprindo horários no mínimo em duas escolas, além do custo de tempo e dinheiro… é difícil demais. No segundo semestre de 2019, gravamos os primeiros clipes do projeto que #históriaemrap, que foram lançados em um novo projeto educacional o canal HusmanosTV no Youtube, e em 2020 devido a Pandemia da Covid-19, acabei acelerando um pouco mais este processo.

HISTÓRIA VISTA DE BAIXO

GMS: Quais os desafios de ser um professor de História na atual conjuntura? Além do rap, quais são as suas estratégias para a problematização da disciplina de História pelos alunos?

A2 MC: Primeiramente, trabalhar com Educação é um desafio gigante, devido aos problemas inerentes à área educacional, como desvalorização profissional, escolas sem as mínimas condições estruturais, falta de materiais, entre tantas outras questões que poderíamos citar… Como se esses fatores não fossem suficientes, quando vamos para sala de aula descobrimos que cada turma, cada aluno, possui as suas especificidades, e nem sempre aquilo que planejamos e nos preparamos para aplicar dá certo. Cada nova aula é um novo desafio e mesmo nas escolas particulares com toda a estrutura, ainda, encontro uma série de dificuldades, além da carência afetiva enorme das crianças, muitas vezes nós professores passamos mais tempo com elas do que os seus próprios pais.

Em relação ao rap, o mais difícil de tudo é conciliar as duas propostas, até porque, atualmente, a Banca SmL não existe mais, no fundo sou somente eu, A2 MC’. Agora é engraçado que a própria rapaziada do rap já está me identificando como professor. Porém, já faz uns cinco anos que pisei um pouco no freio em relação ao rap (ao SmL), pois estou focando em meus projetos educacionais.

“Rap da Pré-História” Gravado na Livraria “O Sebo”

Quando pensamos as problematizações da disciplina de História, bem como, as Ciências Humanas, nos deparamos com uma série de questões próprias das disciplinas, mas eu busco trabalhar com uma “história vista de baixo”, com a parte mais humanista possível desta ciência, assim como a desconstrução de certos mitos e heróis, visando dar uma perspectiva daqueles que foram excluídos das narrativas oficiais. A História, a exemplo da Sociologia, da Filosofia e da Geografia, possui um dever científico de tirar às pessoas das suas bolhas, de denunciar as injustiças, de evidenciar narrativas, de fazer críticas sérias à sociedade, de apontar possíveis causas, de construir as narrativas de memória, de municiar de conhecimento para luta, de nos levar a questionar as instituições, e tudo isso, é muito perigoso para aqueles que desejam manter as injustiças.

Em relação à pandemia, apesar de todo o aprendizado, estes dois últimos anos têm sido extremamente desgastantes para todos àqueles que estão envolvidos com educação. Professores e alunos sentiram muito, foram adaptações extremas de solidão, de afastamento, de trabalhos burocráticos que se multiplicavam, e tivemos que aprender a mexer com as inúmeras ferramentas digitais. Pensei em desistir várias e várias vezes, etc. No meu caso, por exemplo, em 2020, por ter alguns conhecimentos de ferramentas digitais ao mesmo tempo em que atendia alunos e pais, também orientei outros professores. Eu passava o final de semana e as madrugadas preparando aulas, e durante o dia lecionava em média de sete até dez aulas ao vivo com as turmas de EFII e EM, sendo que eram raros os alunos que nos respondiam e abriam suas câmeras. Durante a noite aplicava mais cinco aulas via WhatsApp para os trabalhadores da indústria. Agora, penso no quão cansativo e deprimente era ficar falando todo “animado” focado nos conteúdos ajudando a minha filhota em casa que estava estudando também, e receber de retorno dos alunos muitas vezes apenas um emoji no zap ou uma pergunta via chat. Em geral, era somente nos dias de terça-feira ou quarta-feira, que eu tinha duas ou três turmas do EFII que eram mais solidárias e que se apresentavam e interagiam conosco por vídeo, pois a maioria só falava pelo chat e de vez em quando por áudio. Eu ficava indignado comigo, pois tinha que dar conta ao mesmo tempo das atividades de professor e nem sempre conseguia atender à minha filha… era uma loucura só, pois estava ensinando História no 9º ano, ou Sociologia no 3º do EM ao mesmo tempo em que estava vendo conteúdos de várias disciplinas do 3º ano do EFI para auxiliar minha filha… No início eu brigava com ela para não aparecer na câmera para minha turma, mas depois eu percebi que ela sofria com isso e larguei mão, pedia licença para minhas turmas, deixava atividades ou algo do tipo e auxiliava minha filha, muitas vezes ela inclusive participava e assistia as minhas aulas, pois no geral, eu fazia tudo ao mesmo tempo, assim como outros pais e professores. Em contrapartida, muitos dos que falavam tão mal da escola e de nosso trabalho perceberam a importância e o valor dos profissionais da educação. Ressalto também que embora pareça estranho dizer, mas muitos pais e cuidadores assistiam a minhas aulas e jamais nos repreenderam, pelo contrário recebi muitos elogios, isso aliviou meu coração, pois de certa forma desconstruiu para essas famílias certos estereótipos criados sobre a figura do professor de História.

Fui fazer a minha pós-graduação quando notei que as alterações que se iniciavam no Ensino Médio, via reforma, em 2016 e 2017, eram ataques diretos às ciências humanas, bem como promoviam uma desvalorização ainda maior das mesmas. É fato que nós profissionais da Educação e das mais diversas áreas de pesquisa científica, temos visto, pelo menos nos últimos sete anos, um aumento de ataques morais, de cortes financeiros e até mesmo de perseguição política e profissional aos profissionais como professores e pesquisadores. Devido à influência de alguns pseudo pensadores e canais alternativos que propagam revisionismos históricos – boa parte da sociedade foi inflamada com as chamadas fake news -, que pintaram os educadores como destruidores da família e dos valores sociais, tentaram nos censurar, vieram com discursos de levar as crianças para serem educadas apenas em casa, etc. Como exemplo de situações desse tipo, cito algumas que vivenciei. No ano de 2017, um grupo político (prefiro não citar para não dar “Ibope”) publicou algumas fake news nas redes sociais sobre a instituição (umas das mais tradicionais da cidade) que eu lecionava, alegando que os professores de História e de Filosofia estavam doutrinando as crianças e deturpando os valores das famílias e da religião. Isso era completamente descabido, pois diziam inclusive que o PPP (Projeto Político Pedagógico) da escola (cristã tradicional) era pautado em princípios comunistas, e, obviamente isso nos atingiu. A escola, no entanto, foi extremamente coerente e ética conosco, pois sabia de seus valores e confiava na pluralidade de nosso trabalho, respondendo a este grupo a partir do setor jurídico.

A segunda situação que vou citar ocorreu durante uma aula, quando um aluno me pegou de surpresa pelo pescoço (com um mata leão), ao mesmo tempo em que fazia sinal com uma das mãos imitando uma arma em minha cabeça, após isso, começou a imitar certo candidato fascista e “brincar” dizendo que eu era um comunista… No momento fui frio e “levei” na brincadeira, o repreendi com muita calma, pois eu conheço este menino desde os seus 11 anos (na época ele estava com seus 15 anos) e  conhecia o seu caráter.

Eu poderia relatar várias situações, mas levaria muito tempo, entretanto o mais difícil em tudo isso é manter a paciência, ter sabedoria, compreender que a grande maioria de meus alunos é de crianças e jovens que precisam de orientação. Sendo eu, um professor de História, atuo contrapondo em vários momentos, então, preciso o tempo todo ser coerente com o que ensino, canto e com aquilo que vivo. Busco sempre colocar todo o meu coração naquilo que faço, lembrando Paulo Freire, quando dizia que educar é um ato de amor. Portanto, mantenho rigor com os métodos da História e das Ciências Humanas, o domínio com os conteúdos, a postura ética com o ensino e como dizia Peter Burke “a função do historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer”.

O Rap para comunicar e empoderar a juventude

GMS: A ideia de trabalhar o rap como metodologia de ensino da disciplina de História surgiu em que momento?

A2 MC: Como disse anteriormente foi um processo “natural”, pois antes de me tornar professor, eu já participava da cultura Hip Hop, cantando rap. Entretanto, meu grande incentivo foi quando de fato essas músicas deram o retorno na sala de aula, fizeram com que os estudantes se divertissem ao aprender, ao mesmo tempo, que conseguiam abordar as críticas necessárias. Estudantes de todas as idades conseguiram memorizar os temas, ao mesmo passo, outros educadores começaram a usar meus materiais para suas aulas.

DIÁLOGO COM OS JOVENS VIA HIP HOP

GMS: Como podemos conceituar a cultura Hip Hop e como podemos incluir esse campo cultural dentro das políticas culturais no Brasil?

A2 MC: Existe uma grande confusão entre os conceitos de rap e Hip Hop, pois muitas pessoas dizem: “Ah Hip Hop é mais festa, dançante é tipo dos EUA, já rap é mais paradão, é a música que fala de crime, drogas…”. Na verdade, quando falamos de Hip Hop, estamos falando da cultura urbana que engloba os quatro elementos, ou seja, o breakdance, o graffiti, o DJ e o MC. Neste sentido, rap é a união dos elementos MC e DJ, ou melhor, é a voz do Hip Hop, a música. Rap traduzido para o português significa ritmo e poesia, é uma forma de declarar uma poesia “marginal” de uma maneira mais ritmada. Além disso, o rap é eclético, pois fala de festa, de amor, de separação, drogas, crime, política, religião, ou seja, é um estilo musical que tem a capacidade de oralizar, portanto, musicalizar qualquer assunto.

Um primeiro ponto para incluir o rap e o Hip Hop nas políticas culturais brasileiras foi o seu processo de descriminalização, assim como um dia foi com o samba, hoje ainda é com o funk, o rap já foi tratado como uma não música ou um som de bandido. Felizmente devido à luta iniciada no metrô São Bento em São Paulo, além dos vários grupos dos anos 80 e 90, além do início dos anos 2000, hoje, o rap já toca nas rádios, está nas plataformas digitais, TV, revistas, etc. Embora ainda existam preconceitos, em geral, boa parcela da sociedade já compreendeu a força que o Hip Hop possui enquanto um movimento de cultura, lazer, informação e diálogo com os jovens.

Entre a primeira e segunda década do século XXI, especialmente, nos governos de esquerda, ocorreu um diálogo maior das autoridades com a cultura, os graffitis se espalham pelos comércios e pelas ruas das cidades, o rap chegou à grande mídia e algumas verbas públicas chegaram ao movimento. Porém, esse alcance ainda é pequeno, pois as periferias e os rappers carecem de estrutura e informações, existe desinteresse por parte de vários agentes do poder público. O movimento Hip Hop, sendo naturalmente anti sistema, acaba evitando certas aproximações com medo de que os partidos possam querer corrompê-lo ou nos usar enquanto palanque político. O que falta, então, são mais verbas públicas direcionadas ao movimento, além, é claro, de formas de levar aos representantes do Hip Hop informações de que podemos propor nossos projetos, afinal o Hip Hop por englobar música, dança e pintura possui uma fórmula perfeita para socializar, resgatar, educar, divertir os jovens, além de ser um movimento sério de denúncia contra o sistema.

O RAP EM JOINVILLE/SC E O SIMDEC

GMS: Joinville é uma cidade que acolhe e respeita os agentes culturais que desenvolvem a cultura Hip Hop? Qual o apoio concedido pelo poder público para esse movimento?

A2 MC: Isso depende muito do cenário político. O Hip Hop já teve mais espaço nas políticas públicas de Joinville, inclusive o Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura (Simdec), Prefeitura Municipal de Joinville, já patrocinou eventos e projetos como o Encontro das Ruas, H2S, Casa do Hip Hop, entre outros que não me recordo mais, mas já conseguiram ter acesso às verbas públicas direcionadas ao setor da cultura. Entretanto, no atual governo, temos visto grande desinteresse, por exemplo, no ano passado um evento beneficente que o Mente Blindada estava promovendo com apresentações de rap para arrecadação e distribuição de cestas básicas para famílias carentes, seria realizado na Praça do Adhemar Garcia. Porém, nosso evento foi barrado por questões burocráticas que exigiam um laudo técnico feito por empresa especializada sobre a acústica da praça, sendo que isso nunca tinha sido solicitado antes. Como não tínhamos dinheiro e tampouco tempo para isso, o evento foi cancelado, mas as cestas básicas foram devidamente distribuídas. O que ficou claro, pra gente, foi que o ato foi uma forma de boicotar o nosso evento.

Outro ponto que gostaria de ressaltar é a necessidade dos governantes e dos órgãos competentes de nos orientar melhor em relação às formas de acesso e ao uso das verbas culturais do Simdec, Aldir Blanc, etc. Digo isso, pois a maioria dos membros da cultura Hip Hop possui no máximo o ensino médio, e mesmo àqueles que acessaram a universidade ou que possuem boa instrução, quando falamos de dinheiro público via os editais, desistem por causa da burocracia, além de uma série de fatores que dificultam o acesso. O nosso entendimento de que para conseguir esse dinheiro é possível, embora em geral, ouvimos várias vezes que são sempre as mesmas pessoas que ganham, não porque estejam erradas, mas porque a grande maioria não tem noção de como acessar esses incentivos.

Enquanto experiência pessoal, eu posso falar de 2013, quando lançamos um projeto para o Simdec com o intuito de levar oficinas de Hip Hop para vários bairros da cidade. O projeto acabou não passando, pelo que entendi, foi por algum detalhe do edital que deixamos passar, contudo, há dois anos encaminhamos nosso modelo de projeto para nossos amigos de São Chico e eles com poucas alterações conseguiram ser aprovados dentro da lei Aldir Blanc, pois contrataram uma pessoa que é especializada em montar projetos culturais. Nesse exemplo, quero mostrar que os editais são processos burocráticos, embora necessários, mas não estão adequados à realidade social e educacional da maioria da população e de muitos agentes culturais, especialmente do movimento Hip Hop. Entendo que deveria ocorrer uma desburocratização do processo, e, principalmente, um movimento por parte dos agentes públicos de literalmente educar/ensinar como as pessoas podem acessar esses mecanismos.

A2 MC em batalhas de rimas.


MÚSICA MENSAGEM DE ESPERANÇA

GMS: Como é o processo de criação de uma letra de rap, que geralmente são longas e trabalham com uma batida rítmica diferenciada?

A2 MC: Olha isso depende de cada MC. No meu caso é bem diversificado, pois, algumas letras surgem como um estalo, uma inspiração que precisa o quanto antes passar para o papel. Em outros casos penso num tema, vou pesquisando, estudando e aos poucos com auxílio de bases de rap (instrumentais) vou construindo. Algumas das minhas letras, eu escrevi em menos de uma hora, outras em dez, mas já tive letras que fiz e refiz num processo de mais de dois anos. Tenho um caderno cheio de composições e anotações e muitas delas nunca terminei.

O projeto #históriaemrap exige muito referencial teórico para o ato de compor, minhas músicas são mais direcionadas às questões pessoais, internas, ao evangelho e crítica às práticas distorcidas do cristianismo e como as formas de religião são usadas como instrumento de poder e de dominação. Como inspiração, uso principalmente as minhas experiências pessoais, as histórias de conhecidos e análises que temos da sociedade. Costumo dizer: — é mais fácil fazer freestyle do que compor um rap, pois no improviso se eu erro a rima ou falo uma besteira está tudo bem, faz parte do jogo, porém uma letra de rap é para ficar é visceral e fala comigo cada vez que canto. Sempre me dói, por exemplo, quando canto as músicas que escrevi junto com o Magoo e o mano Japa, pois era um processo de parceria, em geral escrevíamos juntos, na madrugada, e, hoje escrevo sozinho, sendo impossível não se lembrar de tudo o que vivemos e de todo o sofrimento do Magoo.

A parte instrumental ajuda muito na inspiração, pois me leva à temática e estimula a criatividade, muitas vezes componho com instrumentais prontos, outras vezes tenho amigos que tocam pra mim, mas certas letras simplesmente surgem e depois buscamos a melodia e seu instrumental. A música pra mim sempre foi uma forma de externalizar meus sentimentos, minhas frustrações e indignação com as injustiças, além de uma maneira de levar uma mensagem positiva e de esperança para aqueles que sofrem.

RAP DOS INCAS, REVOLUÇÃO FRANCESA, PRÉ-HISTÓRIA

GMS: O projeto História em rap surge da sala de aula para a internet? Conte-nos como foi esse processo?

A2 MC: Ele surgiu para a sala de aula, mas só cantar para os alunos e entregar a letra impressa para que cantassem, analisassem e fizessem exercícios, não bastava. No início eu sempre pedia na hora de cantar na sala, para que eles gravassem no celular, porém o áudio e as imagens ficaram ruins. Então veio a necessidade de uma produção de áudio melhor o que me levou ao estúdio para gravar algumas músicas como Rap dos Incas, Revolução Francesa, Pré-História, etc. Após gravar, observei a necessidade de compartilhar essas músicas com as crianças, e, ao postar em plataforma digital possibilitou que eu divulgasse nas redes sociais e, consequentemente, ajudasse outros professores. Com o tempo, ficou claro que além de som, os alunos precisavam de imagens e com as pesquisas que fiz com estudantes e professores durante a minha pós-graduação, concluí que precisava de uma produção completa de audiovisual, o que me levou a criação do canal HusmanosTV. Ressalto que disponibilizo para os educadores que me acionam o PDF da música, linhas do tempo, esquemas, etc.

Outro ponto importante do projeto, e que aplico, de vez em quando, com minhas turmas — é que o projeto não é centralizado em mim —, ou seja, em certas turmas e em determinados conteúdos, coloco os estudantes para musicalizar temas que possam escrever paródias, raps e até outros estilos musicais, atualmente, por exemplo, estão postadas no meu canal pelo menos três músicas compostas por eles, como República Juliana, Mitologia Greco Romana e Liberdade (que ficou em 2º lugar no prêmio Poliedro Arte e Cultura).

Com alunos e banda na gravação de videoclipe na Livraria “O Sebo” (Joinville/SC).

 GMS: Você gravou alguns vídeos na livraria O Sebo em Joinville, com um público especial, seus alunos adolescentes, inclusive cantando as letras com você. Como foi essa experiência?

A2 MC: Olha Giane… foi uma loucura só, um desafio tremendo! Desde o início o rap da Pré-História foi o carro chefe do projeto, sendo o que teve mais alcance, então me propus a escrever uma nova canção, gravar pelo menos uma música de meus estudantes e, lógico regravar o Rap da Pré-História, mas agora com banda.

O Sebo me apoiou muito, foi de extrema importância, pois eu estive por seis meses lutando por um espaço e, assim que conversei com a Silvana, ela prontamente me atendeu e patrocinou nosso projeto. Até chegar o dia das gravações, já tinham se passado dois anos de estudos (pós-graduação) com a composição do Rap da vinda da Família Real para o Brasil com meu mano Rodrigo, aplicação do projeto em sala de aula (apliquei com a turma do 2º ano do ensino médio e gravamos quando eles estavam no 3º ano), ensaios com as turmas, etc. Além disso, tudo que idealizei teve um custo financeiro o que é muito justo, sendo que a partir de parcerias consegui baixar bastante os custos. No processo de produção esteve o Espaço Som Instituto Musical que produziu toda a parte instrumental; Marcelo da Underfilms Produções na criação da logo, nas gravações de vídeo e edição de algumas imagens; Gabriel Estúdio na gravação, masterização e edição de áudio; meu ex-aluno Jorge Henríquez Chamorro na fotografia.

Entretanto eu não consegui me organizar para buscar verbas públicas, então, contei com todo o apoio logístico (contato com as famílias para autorizações e divulgação) do Colégio Oficina onde leciono, bem como, com o patrocínio de algumas empresas parceiras. Mesmo assim, o dinheiro arrecadado era insuficiente. Então, para fechar as contas fiz uma rifa envolvendo o sorteio e compra dos bonecos dos palitos sapiens (outro projeto meu que podem ser vistos nas animações ao longo das músicas). Essas rifas foram vendidas por mim e por outros colegas professores na Brixton e Loja da Bia. Mas, a pandemia gerou outros problemas logísticos, e tivemos muito trabalho para fechar todo o processo, com isso fui lançando as músicas aos poucos no canal, sendo que a paródia dos meninos saiu, exatamente, um ano após as gravações. Apesar de todas as preocupações com as crianças e os adolescentes, pois estavam fora do ambiente escolar e permaneceram no estúdio (O Sebo) até tarde da noite, houve uma parceria com as famílias. O envolvimento de todos foi essencial. Foi um dia memorável, lindo! Mesmo com todas as dificuldades técnicas que tivemos, gravar com meus alunos num ambiente como O Sebo permitiu um registro único.

GMS: Sobre os temas históricos trabalhados nas suas letras, como você observa o acolhimento das suas canções pelos internautas e pelos seus alunos?

A2 MC: Então, os temas são aqueles propostos nos conteúdos de sala, mas como escrever não é necessariamente fácil. Até o momento tenho gravado: Rap da Pré-História (3 versões), Grécia Antiga, Incas – a Tragédia de Atahualpa, Revolução Francesa, Revoluções Inglesas, A Vinda da Família Real para o Brasil (1808), narração do Mito da Caverna e, como já mencionado três músicas dos meus alunos. Possuo outras escritas, mas ainda não toquei em frente. Na sala de aula, de vez em quando, costumo fazer revisões a partir de improvisos onde os estudantes fornecem palavras-chave, e com isso, faço uma revisão rimada. Para este ano, estou com a pretensão de compor uma série de músicas de História do Brasil para um projeto mais amplo, mas ainda vou estabelecer as parcerias necessárias e tocar pelo menos mais cinco composições.

A acolhida dos internautas é muito boa e esse projeto já era de certa forma um pedido das crianças, desde que me tornei professor. Mas o projeto ainda carece de maior divulgação, por exemplo, ano passado a demanda de trabalho foi muito grande, que só consegui tocar o projeto até o início de agosto. Entretanto, com o canal HusmanosTV busquei alcançar ainda mais alunos e professores, fiz parcerias com outros professores youtubers como Jenner Cristiano do Historiaçãohumanas, Adilson Moreira do canal Simplifica e Kennedy Belo Pamplona do projeto Desenhando a História. Também aproveitei desta ferramenta para criar vídeo aulas, o que ajudou e muito na pandemia.  Devido ao canal, tive o retorno de que o projeto História em Rap está chegando em “novos estados” como Bahia, Rondônia e Pará — com confirmação de professores que usaram músicas com as suas turmas.

GUERRA CULTURAL

GMS: Como você avalia a ocupação do espaço virtual por professores de História para a promoção do debate público em História e Educação?

A2 MC: Esta é uma preocupação minha, pois embora existam muitos professores que usam redes sociais e espaços virtuais para difundir o conhecimento, é óbvio que nenhum professor tem a obrigação de produzir esses materiais, porém em uma era de pós-verdade e, depois de ver todo o contexto em que estamos vivendo, é ainda maior essa necessidade. Se o professor não é um produtor, ele deve pelo menos se aproveitar desses materiais com seus estudantes, apoiar ou até divulgar, pois o grande problema, é que de fato, quem tem educado os jovens é a internet, ou seja, as mídias digitais. Tanto jovens como adultos têm tirado suas opiniões, suas informações e “críticas” justamente desses meios e como não ocupamos este espaço deixamos livre para a propagação de fake news e de revisionismos históricos ideologicamente muito direcionados.

Esse revisionismo histórico cresceu muito desde 2013 e certos canais pseudo jornalísticos e outras mídias “paralelas” (que não quero citar novamente para não dar “Ibope”) passaram a produzir aulas, reportagens, “documentários” e “filmes” que distorcem a história de uma forma absurda, mas colaboraram para chegarmos no momento social e político em que estamos vivendo, pois lançaram o que eles chamam de uma “guerra cultural”.

Comunicar para todos. Evento “Batalha de Paraíso”

Desde que comecei na faculdade de História, observava quão grande era a cisma, a raiva e a crítica (em parte justa) feita por historiadores aos jornalistas que se lançaram a escrever obras de história a exemplo de Laurentino Gomes e Eduardo Bueno. Entretanto, ao ler essas obras e acompanhar especialmente o canal do YouTube do Bueno, embora com certas ressalvas acadêmicas, não vejo grandes problemas historiográficos, mas pelo contrário enxergo-o como um tapa na cara dos historiadores. Digo isso porque a escrita dos historiadores é acadêmica, truncada, técnica para no máximo “seus pares” compreenderem. Por isso, não cai no gosto do grande público, pois não traz nenhum prazer à leitura. Em geral boa parte das pessoas gosta de história, especialmente de curiosidades, e esses jornalistas entenderam isso, e por possuírem uma formação na escrita jornalística voltada para o público amplo, conseguem ter uma linguagem mais agradável. Na verdade, desculpe as palavras, mas os historiadores possuem certa inveja, pois não conseguem o mesmo alcance. São poucos os historiadores que conseguem chegar ao grande público, nas mídias temos os exemplos do Leandro Karnal e da Lilia Schwarcz, mas ainda, os historiadores estão de forma muito restrita. Os revisionistas (aqui não encaixo os jornalistas que citei), porém encontraram a fórmula com seus jargões, gritos, memes, produções audiovisuais atrativas, e tudo mais para conseguir perverter a memória e cooptar as mentes e os corações para o extremismo.

Portanto, entendo que é dever dos professores de História, historiadores e profissionais das demais Ciências Humanas ocuparem esses espaços, mas antes de qualquer coisa precisamos popularizar, adaptar a linguagem acadêmica para o grande público. Meus projetos caminham neste sentido e aos poucos vou desenvolvendo, mas uma das propostas que quero iniciar este ano é a produção de vídeoaulas sobre a historiografia local, pois pouca gente conhece a história catarinense e quando aprendi na escola era algo “muito chato”, pura repetição de nomes e datas e totalmente desprendida da história nacional. A historiografia local tem uma produção vasta e muito divertida, mas precisamos mostrar isso para as pessoas, para as mídias digitais e redes sociais, mecanismos que devem ser apropriados pelos especialistas.

AMOR AO HIP HOP

GMS: Como você avalia a cultura Hip Hop hoje no Brasil? Quais são os desafios e expectativas do movimento na atual conjuntura?

A2 MC: A cultura Hip Hop está em um momento de aceitação muito grande, pois como já falei anteriormente, ela já foi descriminalizada e chegou às grandes mídias. Atualmente, por exemplo, muitas pessoas conseguem sobreviver com o Hip Hop em Joinville, inclusive conheço gente da dança, do graffiti, produtores, empresários, etc. Mas em geral, ainda não é a realidade da maioria, como a minha, por exemplo, a grande verdade é que sempre investimos nosso tempo e dinheiro pelo amor ao Hip Hop.

O rap ainda permanece uma música de protesto e que toca especialmente nas periferias de todo o Brasil, adaptando às características regionais e culturais em sua musicalidade. Somado aos elementos do Hip Hop, o rap continua promovendo mensagens e ações sociais nos lugares onde o Estado não alcança. Nós, do movimento, vamos aonde as pessoas não querem ir, como nos presídios, favelas, clínicas de recuperação e junto aos moradores de rua, etc.

Entretanto, nos últimos 10 anos, muitos MC ‘s cresceram por conta das batalhas de rap, o que é muito bom, pois vários MC’s de nome vieram deste universo. Porém, o risco disso tudo, é a molecada se perder no Hype, muitos da nova geração não entenderam o lado político e social, a história do Hip Hop e o poder que eles possuem quando estão com o microfone nas mãos. Porém a culpa não é da molecada, mas sim da nossa geração, final dos anos 90 e primeira década de 2000, pois não conseguimos deixar firme essa mensagem. Apesar da visibilidade que o rap tem hoje em dia, existe um grande perigo em toda essa exposição. Situação que gera muitos debates, e até brigas dentro do Hip Hop, existindo de certa forma um “conflito de gerações”.  Estes conflitos devem cair por terra, MC’s e outros membros do movimento precisam entender a armadilha que o sistema nos colocou, pois nos jogou uns contra os outros.

Pois, se o sonho especialmente de todo MC’ é viver de suas rimas, viajar e cantar por todo o Brasil e quem sabe fora dele. Nesse tempo muitos chegaram lá, o que é bom demais. Entretanto o que a nova e velha geração não compreenderam é que o rap e o Hip Hop só estão sendo aceitos nas mídias, porque o capitalismo não conseguiu nos reprimir nos anos 80 e 90, ou seja, compreendeu que quanto mais éramos criminalizados, mais força nós tínhamos nas letras e denúncias que nós carregamos em cada verso. Sendo assim, decidiram capitalizar o rap, ou seja, o capitalismo transformou tudo em mercadoria e jogou alguns trocados para a periferia — o rap sempre atraiu a classe média e a alta sociedade —, mas ele era agressivo aos ouvidos. Foi neste sentido que as letras foram mudando o teor, não que seja errado falar de amor, festa, traição ou qualquer outro tema, que muitas vezes são criticados pelos MC’s, porém não podemos vender os nossos valores, lembrem-se — que desde sua origem na Jamaica e a sua ida para os Estados Unidos — o rap sempre levou diversão, dança e já cantava essas letras, um dos primeiros raps do Brasil foi Lagartixa na parede! Porém o capitalismo instalou um modus operandi levando a molecada e os mais velhos a acreditarem que o alvo era o dinheiro, a fama, os carros, as mulheres… É tão sério isso, que surgiu em um breve tempo, o rap ostentação, tipo os MC’s apareciam nos clipes com carrões, roupas de marca (tudo emprestado), cheios de mulheres e drogas e no final das gravações voltavam para suas casas sem estrutura na periferia. Esse tipo de música e clipe fez muita gente achar que o rap é uma ilha da fantasia, e que ao cantar umas letras chegavam lá. MC’s passaram a expor mulheres a cantarem letras sem fundamentos, sendo que o rap tem em sua raiz, falar da realidade.

Precisamos lembrar que ninguém é dono do rap e que ele pode falar de tudo, mas que não podemos corromper a cultura periférica de forma a nos tornarmos massa de manobra do capital que sem perceber fez a gente acreditar que uma geração é melhor do que a outra e que só terei visibilidade se ficar fazendo intrigas ou algo do tipo. As batalhas de breack e de MC lá na sua origem no Bronx, bairro de Nova Iorque, e serviram para acabar com as brigas de gangues, ou seja, ao invés de brigar, bora batalhar na dança ou na rima, ao invés de matar com tiro se mata na poesia. O rap e o Hip Hop como um todo está aí para salvar vidas, para denunciar as injustiças sociais, denunciar o racismo, lutar por igualdade, para levar conhecimento e unir a periferia. E se você percebe que está discutindo e brigando com outros membros da cultura Hip Hop, você pode estar fazendo outra coisa, menos cultura Hip Hop. Já diria a letra do APC 16 lançado lá nos anos 2000 “Meus inimigos estão no Poder”.

“A2 MC”

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0 Comments

  1. Meus amigos Giane e Antônio com quem me formei no curso de História da Univille. Muito boa reportagem. Esse cara é inspirado e muito humilde em suas falas e ações. Atitude, mano!!

  2. Parabéns A2MC, que trabalho maravilhoso, e parabéns a Giane Maria Souza pela entrevista! 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼

    • Muito obrigada Joceli!

    • Muito obrigada Jocelia querida!


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