Libras: Intérpretes, educação e realidade nas escolas

A Lingua Brasileira de Sinais – LIBRAS, regulamentada pela lei nº 10.436 de 24 de abril de 2002, é reconhecida como meio legal de comunicação e expressão (e outros recursos à ela associados), das pessoas surdas do Brasil. Segundo a lei, a acessibilidade em língua de sinais (LIBRAS) deve ser garantida por parte do poder público,  às pessoas que dela necessitarem, principalmente os sistemas de saúde e o educacional, conforme artigo:

Art. 3º- As instituições públicas e empresas concessionárias de serviços públicos de assistência à saúde devem garantir atendimento e tratamento adequado aos portadores de deficiência auditiva, de acordo com as normas legais em vigor.

Art. 4°- O sistema educacional federal e os sistemas educacionais estaduais, municipais e do Distrito Federal devem garantir a inclusão nos cursos de formação de Educação Especial, de Fonoaudiologia e de Magistério, em seus níveis médio e superior, do ensino da Língua Brasileira de Sinais – Libras, como parte integrante dos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCNs, conforme legislação vigente.

Fonte: divulgação

Foi no cumprimento da lei, mas também percebendo o quanto ela tem o poder de aproximar as pessoas e tornar o mundo a nossa volta mais humano, que a pedagoga Camila Meier, se apaixonou pela Língua Brasileira de Sinais.  Logo na graduação, na disciplina de LIBRAS, Camila teve aulas com um professor surdo e percebendo a dificuldade dele em estabelecer uma comunicação com a turma, a então acadêmica começa a se dedicar ainda mais as aulas, no intuito de auxiliar professor e demais alunos na quebra de barreiras da comunicação e do preconceito que ainda existia naquele ambiente. 

A estudante concluiu o curso com um grande conhecimento na disciplina e logo depois vieram cursos, pós-graduação e interação com a comunidade surda. Atualmente, Camila é interprete da língua e faz parte do time de educadoras da primeira escola de alfabetização em Libras de Joinville. Ela é nossa entrevistada e por meio dessa conversa, vamos entrar um pouco nesse universo, que às vezes é tão explorado pelas mídias quando a pauta é inclusão, mas que ao mesmo tempo, parece tão esquecido quando o assunto são nossos direitos sociais.

ARTE NA CUCA: Como foi e tem sido sua experiência de trabalhar com pessoas que possuem necessidades especiais?

CAMILA M: No geral é muito bom! Na verdade meu público-alvo é a pessoa surda, mas tive um aluno com autismo, porém sempre trabalhei com os surdos. Tudo tem os dois lados têm o que é mais tranquilo e o lado que é mais trabalhoso, mas estou em constante aprendizado. A área de LIBRAS é algo muito bom e gosto muito, toda a comunicação e expressão, é uma troca e experiência de vida.

ARTE NA CUCA: Nos últimos dias, lemos em diversos veículos de comunicação, sobre o projeto de formação bilíngue da escola Monsenhor Sebastião Scarzello. Como está sendo para os alunos essa nova dinâmica?

CAMILA M: Nosso objetivo na escola não é ensinar apenas LIBRAS, e sim as disciplinas utilizando a língua. As crianças ouvintes está recebendo com muita vontade, tudo para eles é novo e interessante, então acabam aprendendo com mais facilidade. Sempre estão atentos aos sinais para poder aprender e conversar com os amigos.

ARTE NA CUCA: De um modo geral, como você percebe a realidade do aluno surdo nas escolas? Elas estão preparadas e adaptadas para as crianças com necessidades especiais?

CAMILA M: Em minha opinião, de modo geral as escolas não se encontram preparadas, pois muitos dos profissionais não estão habilitados quando o assunto é educação especial. A contratação do profissional às vezes atende apenas aos conhecimentos básicos e os especialistas não são admitidos para as vagas e quando são, no caso das intérpretes, acabam fazendo o papel da professora auxiliar da classe.  É preciso ter a formação de especialista, mas a remuneração acaba sendo de auxiliar.

ARTE NA CUCA: Que mensagem você como educadora e intérprete de LIBRAS, deseja transmitir aos nossos leitores e que contribua para que haja mais equidade e acessibilidade no mundo?
CAMILA M: Desejo que as pessoas respeitem e entendam que a LIBRAS é uma língua, que não se tratam de gestos ou mímicas e sim um idioma. É preciso respeitar sua complexidade, pois nela tudo tem um sentido e parâmetros. Falta a valorização e conhecimento, além do investimento em capacitação dos profissionais que trabalham com inclusão, e o mais importante: Que a comunidade surda existe e está no meio de nós. Só em Joinville residem mais de 30 mil surdos, pessoas que precisam ser valorizadas, de forma que consigam se comunicar, estudar, trabalhar e exercer seu direito de viver em sociedade.

O educativo nas instituições de arte de Joinville

Qual a visibilidade que os museus e instituições culturais de Joinville dedicam ao seu educativo?

O título tem o intuito de ser provocativo.

Você já se perguntou qual a função dos museus e instituições culturais no mundo contemporâneo em que vivemo? Ser expectador ou “participador” do processo ?

São tantas as perguntas e questões que nos inquietam quando o assunto é o educativo e a mediação cultural…Mas qual é o seu papel dentro das instituições culturais? Será que o educativo é algo pensado exclusivamente para atender escolas e crianças?

Afinal de contas, o que é mediação cultural?

A mediação cultural é um meio utilizado para ampliar o repertório e a compreensão do público que se dispõe a observar ou participar dos encontros com a subjetividade da arte. São muitas as formas de compreender a mediação cultural em exposições de arte, estando presente por meio da curadoria, dos textos críticos, do material de divulgação, da exposição propriamente dita e, principalmente, por meio do educador do museu. A função do educador é comunicar, fazer observações e leituras de ordem semiótica referente às obras em questão, levando em conta o repertório daquele que está sendo mediado e instigando-o a encontrar seu próprio caminho, o seu jeito de se relacionar com a mostra.

Para isso aquele que media, necessita adquirir conhecimentos específicos a respeito da obra, do contexto histórico e cultural em que ela foi produzida e que está inserida, bem como do processo criativo do artista.

Além do preparo e do repertório do mediador cultural, este também precisa levar em conta de que é pela interação com o público que a mediação acontece. Não se pode limitá-la aos roteiros pré-estabelecidos pelas instituições, pois, mediar é mais que uma apresentação e reprodução de conceitos e informações, é um encontro de ideias, uma construção e amadurecimento constantes, um pensamento de ordem coletiva e singular, visto que cada pessoa aprende e interpreta o mundo a sua maneira. Por público mediado, pressupõem-se aqueles que desejam e estão abertos a tentar encontrar formas diferentes de se relacionar com a arte, observando pontos fundamentais ressaltados pelo mediador, que ao primeiro olhar, poderiam não ser percebidos. A mediação cultural acontece quando existe o desprendimento em permitir-se olhar de outra maneira, fazer um segundo olhar para arte e para a vida. O mediador cultural e o observador/participador tem que estar dispostos a compartilhar conhecimentos, a dialogar e a trocar experiências. Não há possibilidade de dar início à mediação cultural sem o entendimento entre aquele que media (e também recebe) e aquele que recebe (e também media) sendo então todos os envolvidos, também protagonistas da ação.

Entende-se que, a mediação cultural só acontece se ambos (mediador e “participador”) estiverem dispostos a compartilhar suas impressões, informações e conhecimentos de mundo, caso contrário, torna-se nada mais que uma espécie de aula expositiva, pouco ou nada significante para o visitante, já que as informações serão de certa forma, “despejadas” sobre ele, que na maioria das vezes, sentirá dificuldades quanto a assimilação dos conteúdos por não estar familiarizado com determinados conceitos e também com o que vê. É quando surgem às interpretações superficiais ou quase inexistentes que contribuem para perpetuar a anestesia, sentimento que está presente em nosso dia a dia e em grande parte da população, que por diversos motivos, pouco se relaciona com a arte na sua essência.

(Fragmentos de textos retirados do Trabalho de Conclusão de Curso “MUSEU DE ARTE DE JOINVILLE E MUSEU CASA FRITZ ALT: O PAPEL DO MEDIADOR CULTURAL E DA ARTE-EDUCAÇÃO NA ATUALIDADE” – Celiane Neitsch).

Com base no texto, compreendemos que a mediação cultural e o educativo são fundamentais no processo de educação e de “transformação” do olhar e que os mesmos não são exclusividade do público escolar ou infantil. Se é de interesse das instituições,  o aumento crescente do público, se faz necessário dar condições e oferecer atrativos (e não apenas atrações), para que a população tenha opções que vão para além da visitação.

Em Joinville, alguns espaços oferecem a opção de visita comentada (em outras publicações, falaremos do termo “monitor”), mas consideramos que os projetos culturais  incluam a participação dos visitantes, é de grande importância e contribui ainda mais para o desenvolvimento estético daqueles que estão em contato com as obras ou objetos de valor cultural. Outra questão muito pertinente, diz respeito a um determinado público que merece atenção especial e que precisa desesperadamente que as esquipes os incluam em sua programação: O público de pessoas com deficiência.

Pensar e debater políticas públicas que proporcionem o acesso a cultura e educação da pessoa com deficiência, também é essencial para o desenvolvimento cultural da cidade e é a realização efetiva de direitos adquiridos. Proporcionar acesso a cultura e a arte para todos, independente de sua condição, minimizando as diferenças e as injustiças sociais é um dever de todos os cidadãos, mas acredito que em especial, daqueles que escolheram como vocação, amor e profissão a arte e também a educação.

Um exemplo de equipe educativa e projetos de sucesso, é o “Museu Arqueológico de Sambaqui”, que conta com profissionais especializados, atendimento de referência, além de proporcionar experiências significativas as seus visitantes e contar com material pedagógico disponível para as escolas.

Esperamos e acreditamos em um futuros em que todas as instituições da cidade busquem oferecer, qualificar, valorizar e a cima de tudo, ter a consciência dos benefícios e necessidade de manterem as equipes de educadores, fazendo de suas mostras culturais, muito mais que um evento, e sim um local que faz a diferença e contribui com o avanço e fortalecimento do setor cultural e da educação não formal.

Diretores, educadores, curadores, artistas e demais envolvidos, vamos pensar juntos o educativo, a acessibilidade e a inclusão para fortalecer cada vez mais a arte de nossa querida Joinville!