60 anos de resistência: Sociedade Kênia Clube de Joinville

Foto: Divulgação facebook do clube

“Zelar pelos interesses dos associados socorrendo-os em casos de moléstias, mortes, perseguições ou outras circunstâncias acidentais” e “elevar o padrão social e intelectual da gente de raça negra” é o que prevê o fragmento do Estatuto do clube considerado símbolo da resistência negra em Joinville e que desde 1960 contribui com a produção cultural e transformação social da cidade.”

A Sociedade Kênia Clube, com sede na rua Botafogo nº 255 bairro Floresta,  comemorou 60 anos de existência no dia 06 de setembro, uma iniciativa dos amigos Luiz Paulo do Rosário (Alegria), José Francisco Ramos (Zete), Rubens Martins, Marcelino Rocha, Luiz Fagundes (Zuca), José Carlos Nascimento (Begue), José Domingos Cardoso e Oziel Silva.

O principal intuito do clube era que os jovens negros da época tivessem um local de encontro e lazer. Seus fundadores em um ato de resistência contra o preconceito racial e de classe social, iniciam o que mais tarde tornar-se-ia ponto de referência da cultura negra na cidade. “Ele surge de uma reunião de amigos que sempre iam jogar bola e que formaram um time de maioria negra, ao qual deram o nome de Senegal. A partir daí começaram a conversar sobre como poderiam fazer essa recreação além do futebol, porque queriam bailes, música, atrações”, relata Luiz P. do Rosário.

Oito homens fizeram história, quando tomaram a iniciativa de lutar contra a segregação racial e o pensamento eugenista da época. Os clubes pertencentes à área central da cidade, nem sempre eram receptivos as pessoas negras e, segundo Luiz P. do Rosário, “Existia uma divisão entre brancos e negros e se quiséssemos entrar em um salão de baile não havia problema, mas podíamos apenas beber cerveja, dançar nem pensar.” Além das questões de raça, cor da pele e status socioeconômico, a classe operária era inferiorizada em sua cultura, lazer e educação. Os bairros não recebiam a mesma atenção que o centro, algo que ainda é perceptível na população e na gestão do município.

A impossibilidade de exercer sua própria cultura e gozar do pleno direito à cidadania e liberdade, fato que se deu por falta de consciência e fala de locais adequados nos bairros da zona sul, foi o pontapé inicial do que seria a Sociedade Kênia Clube. Em 1965 o Kênia passa a contar com sede própria na rua Botafogo, a construção até então de madeira, hoje dá lugar ao edifício de alvenaria que abriga muitos bailes, festas e eventos culturais.

Sempre a frente do seu tempo, contribuindo para o bem estar da comunidade, o clube abriu suas portas para aulas de alfabetização para adultos, assim como era o responsável pela primeira escola de samba de Joinville, a “Amigos do Kênia”, fundada em 1968 e que atualmente tem o nome de “Príncipes do Samba”.

Entre autos e baixos, são muitas as histórias da Sociedade Kenia Clube, um espaço cultural de extrema importância para a cidade de Joinville. Local que há 60 anos vem ampliando nossos olhares sobre a cultura negra e toda a dinâmica de nossos corpos, mentes e emoções. Um clube que nasce da resistência ao racismo e do desejo de alguns amigos, de construir um lugar de fala, expressão e identidade para fazer a diferença.

Parabéns, Kênia Clube.

Fontes de pesquisa

https://publicacao.uniasselvi.com.br/index.php/HID_EaD/article/view/1469

https://www.nsctotal.com.br/noticias/kenia-clube-um-lugar-de-resistencia-e-valorizacao-da-cultura-afro-em-joinville

O artista prestador de serviços num contexto pandêmico

Foto: Walmer Bittencourt Júnior.
Exposição: “A Partilha da Imagem” (2017). Artista: TiroTTi.

A revista Select publicou em 22/05/20 o artigo “O iminente colapso do setor cultural”, onde aponta que […] mais de 50% dos profissionais mapeados têm renda inferior a 3 salários mínimos, alto grau de informalidade e dependem majoritariamente das atividades exercidas no setor cultural para sobreviver.
Fato extremamente preocupante, pois após a publicação do artigo, quase três meses já se passaram e poucas foram as mudanças.

Os trabalhadores da cultura dependem quase que inteiramente da presença do público para garantir suas rendas e assim produzir seus shows, espetáculos, exposições e etc. Prestadores de serviços que têm as artes como profissão necessitam dos espaços culturais em pleno funcionamento para viver. Produtores Culturais, Artistas, Artesãos, Cenógrafos, Diretores, Atores, Músicos, Bailarinos, Coreógrafos, Arte-Educadores, entre tantos outros, fazem parte da enorme gama de profissionais afetados pela pandemia.

 Em um estado de normalidade, dificuldades como cortes de verbas, redução do quadro de funcionários, falta de manutenção dos espaços culturais e etc, já são por si só um enorme problema. Agora, além de enfrentarmos as adversidades habituais, a síndrome respiratória aguda, Covid -19 trouxe novos desafios que implicam diretamente no modo de produzir e apresentar cultura.

 Muitos artistas estão enfrentando a crise econômica do país empreendendo (obrigatoriamente) em novas áreas, e a aposta está quase sempre relacionada ao ramo alimentício, afinal, o confinamento deixou à população mais estressada e ansiosa, logo, a comida tornou-se moeda de troca para saber lidar com o momento. A informalidade da profissão faz com que o artista tenha pressa e se submeta a buscar novos postos de trabalho, pouco remunerados mas que garantem sua subsistência.  

A lei nº 14017 de 30 de junho de 2020, Lei Emergencial da Cultura Aldir Blanc, mesmo tardia e com recurso abaixo do esperado, vem como um sopro de vida para os trabalhadores, que aguardam ansiosamente pelo auxílio para poder retomar ou reorganizar seus projetos. Mas a quantia que provém do governo federal não garante a salvação da cultura, funcionando muito mais como medida paliativa do que como uma medida de proteção financeira que de fato protege e auxilia os artistas até a retomada de seus trabalhos.

Incerteza é a palavra da vez para quem precisa descobrir como recomeçar. Não há jeito certo ou errado, até agora o que temos são possibilidades. Tentativa e erro. Certamente muito do que conhecemos em matéria de eventos culturais que contam com a presença do público, deverá passar por um processo de readequação, com diversos protocolos e medidas protetivas que garantam a segurança de todos.

Os questionamentos que ficam são: como o artista está encarando essas novas condições de trabalho? De que forma acontecerá a relação da arte com o público em um contexto pós – pandemia? Será preciso repensar o conceito de aura na obra de arte? Ou então, como se dará a experiência estética do “ao vivo” se nossa segurança continuar dependendo do distanciamento social? As respostas dependem da ciência e do comportamento humano.

Arte para lidar com a vida

Passei os últimos dias pensando a respeito no que escrever e até ontem, não tinha ideia sobre o que. Penso que a dificuldade em si não estava em encontrar um assunto, mas sim em encontrar algo que valha à pena, que venha de dentro para fora, sabe?
Tantos assuntos sobre arte que antes me pareciam pertinentes, hoje não passam de mais um tema que pode esperar. Decidi então, dar ouvido aos sinais, prestar atenção no que acontece à minha volta, dia após dia, semana após semana. E o que isso tem a ver com arte? Pois bem, vamos lá!


O fato é que os últimos meses têm sido muito complicados, e essa virada de mês, em especial o dia 30/07/20, parecia ser só mais um dia (mas nunca é só mais um dia em nossas vidas, eis o maior erro de todos). Nesta data, recebo via redes sociais, a notícia da partida terrena de Heloísa Steffens, artista e também professora da Escola de Artes Fritz Alt, na Casa da Cultura Fausto Rocha Júnior.

Um choque. Grande perda.

Nos últimos dois meses a arte na cidade está mais triste. Muitas têm sido nossas perdas. No mês de junho a diretora artística do Instituto Internacional Juarez Machado, Melina Mosimann também nos deixou. Mulheres notáveis, que sempre foram fonte de inspiração para mim. Lutadoras, generosas e dispostas a tentar fazer do mundo um lugar melhor através da arte.

 Mas esse texto não é para falar sobre tristeza e o quanto o ano de 2020 tem testado as minhas forças e a de muitos que conheço. É um texto reflexivo, com o intuito de agradecer e tomar como exemplo de resiliência e fé, essas duas personalidades da arte joinvilense,.

Quem decide trabalhar com arte, aprende logo cedo que para conseguir viver dela é preciso resiliência e fé. Mesmo os que conseguem chegar a certos níveis de reconhecimento profissional, tem que estar sempre antenado, seja com o mercado, o público ou até mesmo com as catástrofes do momento, afinal, desgraça vende.

Mesmo assim, com arte, conseguimos viver a incerteza do dia a dia, do trabalho ou da falta dele, da descrença que a sociedade tem na profissão Artista, sempre com um sorriso no rosto. O sorriso não significa que sejamos alienados ou que nos falte entendimento sobre os problemas do mundo, ao contrário, às vezes somos quem melhor enxerga-os.

Falar da tristeza com beleza e ternura é nossa especialidade. Emocionar e ao mesmo tempo acalentar a alma do público? Tarefa para poucos! Transmitir por meio de versos, danças e acordes, ou sorriso a alegria de viver, é ser apaixonado pela vida com todos os seus percalços sem nunca desistir de acreditar.

Tenho certeza que a passagem intensa pela vida e em meio à arte, eternizou Heloísa e Melina em nossos corações, e como dizia o poeta Manoel de Barros Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.”

Qual a importância da arte em meio ao caos social?

*Foto de capa: Exposição Raiz Ai Wei Wei (MON 2019)

Leitorxs, quero abrir esse diálogo com um fragmento do livro de Hans Ulrich Obrist, que diz mais ou menos assim: “Qual a importância da liberdade pessoal e a responsabilidade do artista em um país em que a liberdade é ameaçada?

Que sentimento de liberdade é esse, que encontra na atualidade tal segurança e anestesia, a ponto de manter artistas que continuam a produzir em suas telas, flores e frutas frescas, enquanto o seu país é contaminado por pensamentos e atitudes elitistas, e a impunidade impera no lugar da justiça?

O fragmento de texto de Obrist, que faz parte da sinopse do livro Ai Weiwei, entrevistado por Hans Ulrich Obrist, me instiga a refletir sobre: qual a real importância do artista no mundo contemporâneo? Quem precisa de arte quando na contemporaneidade existem diferentes maneiras de passar o tempo?

Ou ainda, por que a arte deve existir em um mundo onde a miséria, catástrofes ambientais, doenças incuráveis, guerras e a fome, persistem em serem protagonistas sociais?

Segundo o educador Rubem Alves (1933-2014), em seu livro A educação dos Sentidos, publicado em 2018 “Um homem faminto não é capaz de fazer distinções sutis entre gostos refinados: angu ou lagosta, tudo é a mesma coisa. Seu corpo vive sob o imperativo bruto do comer. Assim são os sentidos dos animais. Tem apenas uma função prática. São “meios” de vida”.

Para que a arte faça sentido, é preciso que esse “ser” faminto, tenha suas necessidades básicas supridas e assim, consiga garantir sua própria existência. Sem direito à vida, saúde, educação e moradia, é possível que não aja sujeito que por si só, tenha interesse pela arte. A arte está erroneamente associada ao poder aquisitivo de uma minoria privilegiada.

E se a arte atende somente a uma minoria privilegiada, retomo meu questionamento: por que ela deve existir em um mundo onde a miséria, catástrofes ambientais, doenças, guerras e a fome, persistem em serem protagonistas sociais?

A resposta é relativamente simples: ela existe para que possamos lutar e denunciar o que há de errado no bairro, cidade, país ou no mundo em que vivemos. Por meio dela, chamar a atenção dos que ainda não sentem-se tocados pelos problemas da humanidade.

É isso que artistas como Eugène Delacroix, Pablo Picasso, Cândido Portinari, Christo, Basky, Ai Weiwei e tantos outros, fizeram e ainda fazem a seus modos e por meio de suas artes. Despertar no outro, sentimentos de indignação, insatisfação, descontentamento e o mais importante, a atitude para mudança.
Finalizo, mas não concluo, com as palavras do mestre da arte contemporânea engajada, “Se os artistas traem a consciência social e os princípios básicos do ser humano, qual é então o lugar da arte? (Ai Weiwei, 2008)*

*Livro: Ai Weiwei Entrevistado por Hans Ulrich Obrist. .

Cultura, arte e formação de público na pandemia

Antigamente, a frase era “Quem não se comunica, se trombica”, na última década e principalmente no ano de 2020, a frase que poderá definir o ano é “Quem não tá na rede, se trombica”. Você que assim como eu, só fazia uso de Facebook, WhatsApp e aplicativos como o da Uber, deve estar tentando digerir essa quantidade de informações e dados que é o universo digital.

Twitter, Instagram, Google Meet, Zoom e até o queridinho da galera, Ifood, são ferramentas que na correria do dia a dia, se quer tive interesse de aprender. Mas hoje posso dizer, no pretérito, que FUI do tipo que usava o telefone para pedir uma pizza e demorava horas para pagar minhas contas, indo pessoalmente até o banco ou lotérica.

Que surpresa a minha, perceber que em meio a uma pandemia, aos poucos eu notava surgir nas redes sociais, uma onda de cursos, conversas, palestras, oficinas, vídeo conferências, e tantos outros formatos de diálogos que contribuíam para a propagação do conhecimento na internet. Principalmente as lives, (velhas conhecidas dos hiperconectados) se popularizavam ainda mais, possibilitando o acesso a conhecimentos nas mais diversas áreas.

Os cursos podem preencher aquele tempo ocioso da quarentena e dar aquela melhorada básica no currículo, ou garantir um certificado a mais quando retomarmos nossas funções.  A rede também possibilitou a criação de outros métodos de trabalho, como o uso das plataformas virtuais que permitem o acesso em vídeo, para alcançar públicos ainda maiores do que os de salas ou auditórios convencionais comportariam. Agora, sem sair de casa, é possível ouvir e participar de reuniões que vão de economia, política, saúde, bem estar e claro, nossos objetos de pesquisa e produção de conteúdo: Cultura e Arte.

Só no último mês, participei de mais palestras, minicursos, bate papos e tantas outras configurações de partilha do conhecimento, do que toda a minha saga pelos cursos de formação continuada, no ano de 2019. Nós, educadores e educadoras, precisamos estar sempre em formação, agregando certificados e diplomas aos nossos currículos. Percebam a ampla possibilidade de garimpar – sim eu disse garimpar – bons cursos ou palestras na modalidade online.

Como exemplo, nesse garimpo, consegui participar de uma conversa online com o professor, crítico de arte, pesquisador e curador Teixeira Coelho, e de um minicurso sobre Arte Contemporânea na Infância, com a professora, escritora e pós-doutora, Susana Rangel Vieira Cunha Rangel.


O que quero dizer a vocês leitores, é que a pandemia com todos os seus males, nos deu a chance – ou ao menos a boa parte de nós – de sermos mais cultos, de aprendermos novas ferramentas de trabalho e nos reinventarmos. Mostrou que a tecnologia e as redes sociais, antes motivo de questionamentos e reflexões por ser algo que poderia nos afastar do contato humano, fato nas reuniões de família ou encontro com amigos, tornou-se por necessidade, o recurso das potencialidades.

Explorar a tecnologia virtual e seu alcance não é negar a existência de um passado de valor, é abrir-se para o novo, expandir e seguir trilhando um caminho produtivo, que pode e deve conversar com todas as idades, atingir diferentes países, culturas e crenças. É pensar, produzir e acessar conhecimentos na ponta dos dedos e na palma das mãos. Transformar longa, em pequenas distâncias.

Espero que os bons minicursos à distância se mantenham, e que continuem financeiramente acessíveis, contribuindo com o aprendizado daqueles que podem mas também daqueles que não podem desembolsar muitos recursos. Caminhamos cada vez mais para o futuro. Qualidade é essencial, abrir as portas das universidades e lançar projetos que online dialoguem com o público é prezar pela educação e transformação social e cultural de um país que precisa desesperadamente desenvolver seu senso crítico, afinal, como diria Albert Eistein “A mente que se abre a uma nova ideia, jamais voltará ao seu tamanho original”.

A cultura movimenta e traz sentido a vida humana

Se fizermos uma breve busca nos livros de história, descobriremos que a cultura foi ponto chave para tentarmos entender o modo de viver e fazer, de diferentes povos e sociedades. Desde os seres humanos pré-históricos, sua organização, até a sociedade atual, é a cultura, que movimenta a vida humana, seja, o meio como vivemos, nos alimentamos, nos expressamos e até como nos reproduzimos.

Refletindo sobre a amplitude do conceito de cultura em tempos de modernidade líquida, relações fragmentadas e a rapidez com que a informação chega até nós, tentamos de várias maneiras nos anestesiar, parar, mesmo que por um breve momento, a enxurrada de estímulos e pressão do dia a dia. Podemos dizer que se a arte é parte essencial nesse aglomerado de ações humanas que chamamos de cultura, é a ela que recorremos em momentos de necessidades, seja porque nos traz equilíbrio, alegria ou saúde mental e espiritual, para as adversidades.


E como se não bastassem às dificuldades, nesse exato momento, o mundo inteiro é aterrorizado por um vírus potencialmente mortal, inimigo invisível que nos transforma em reféns dentro de nossas próprias casas, cidades e países. Os meios de comunicação e principalmente a televisão, apresenta sem parar, números e estimativas de morte, sofrimento e destruição. Sem saber ao certo o que fazer, estamos vivendo dia após dia, resistindo e tentando nos manter otimistas, ansiosos pela descoberta da cura. E é em fases como esta que precisamos e desejamos nos agarrar a algo que  proporcione entusiasmo e esperança.

Como diria Ferreira Gullar, “A arte existe porque a vida não basta”. Inspirados nas palavras do poeta, artistas de diversos setores, decidiram se unir para pedir à população que fique em casa, e em Joinvile/SC não é diferente. A categoria aderiu à campanha do “Cultura Movimenta”, iniciada em quatro de março, e que tem como objetivos principais o enfrentamento de problemas na gestão da Lei do Simdec-Sistema de Desenvolvimento pela Cultura, que nos últimos anos não gerou o fomento da produção artística como em anos anteriores e uma grande campanha de valorização da cultura e da produção artística em Joinville. Nesse encontro, surgiu o Movimento Mobiliza Cultura Joinville, que coordena a campanha Cultura Movimenta.

Uma das primeiras ações da campanha, foi por meio da arte, lutar pela prevenção e combate ao Coronavirus (COVID-19).  A ação está dividida em dois momentos, no primeiro, foram publicados em redes sociais como Facebook, Instagram e Twitter, fotografias des artistas  com a hashtag #fiqueemcasa, para incentivar a população a se resguardar durante o período de quarentena. Já no segundo, a criação de um canal no Youtube, traz mensagens de otimismo, breves apresentações e também o compartilhamento de materiais como peças de teatros e filmes produzidos por artistas da cidade.
Segundo o presidente do Conselho Municipal de Política Cultural, Anderson Dresch “A ideia, além de levar entretenimento e arte à comunidade que está em quarentena, é também a de mostrar o quanto é diversificada a produção das artes em Joinville”.

Nós, que por escolha e vocação decidimos trabalhar produzindo e levando arte e cultura para todos, independente de gênero, idade ou classe social, estamos engajados e dispostos a proporcionar por meio da nossa arte, momentos de paz e tranquilidade em tempos difíceis. Tempos em que muitos de nós, produtores independentes, também vivemos momentos de incerteza econômica, mas, entendemos e defendemos que a vida humana está acima de qualquer bem material. Juntos, somos melhores e mais fortes. #culturamovimenta.

Existe arte na escola?

Durante esses seis anos atuando em escolas, posso afirmar que muito dos trabalhos em arte-educação que realizei foram movidos por minha determinação e interesse. Já não consigo contar mais nos dedos, quantas vezes gastei dinheiro do meu próprio bolso para comprar materiais que seriam utilizados pelos alunos em minhas aulas, ou quantas vezes peguei o ônibus  repleta de bolsas com livros, tintas, papéis e reproduções de imagens de obras de arte.

Ser arte-educadora é acreditar e ao mesmo tempo duvidar que o ensino de arte nas escolas como conhecemos, seja realmente capaz de atender as nossas expectativas e de nossos alunos. A escola tradicional repele a arte. Pergunto-me como é possível aprender qualquer coisa na vida sem se emocionar, principalmente arte, que fala aos sentidos.
Na escola há pouco tempo para se emocionar, é preciso aprender a racionalizar e se importar com os conteúdos que supostamente farão do aluno um profissional de sucesso.

Que professor de arte, nunca passou por situações que jamais pensaria em passar quando estava na universidade? Talvez em algum lugar por aí, exista a instituição quase perfeita que tanto buscamos, mas o fato é que o desrespeito e preconceito com o ensino da arte na escola, começa nas atitudes da direção e na sala dos professores. 


Tomara que você leitor- professor desconheça essas situações. A  minha experiência, faz parte do universo das escolas particulares em que por diversas vezes precisei dispensar alunos das minhas aulas por estarem realizando reposição de provas de outras disciplinas, além das crianças pequenas que ficavam sem aula de arte, porque os pais davam prioridade às aulas de inglês e na instituição em questão, havia choque de horários. Ou, o que é ainda pior: o professor é quem precisa deixar de lado os conteúdos e vivências programados para sua única aula da semana, e realizar as famosas lembrancinhas de dia das mães, páscoa, natal e etc.

Por último, mas não menos importante: quando o professor de outra disciplina pede para  dispensar os alunos 10 minutos mais cedo, com a desculpa de que assim eles podem aproveitar melhor o lanche. Sim, é nesse mundo que nós, profissionais que escolhemos trabalhar com o ensino da arte, vivemos.
E isso é porque eu nem mencionei a falta de material e as dificuldades em levar os alunos a eventos de arte, a maioria nunca foi ao teatro, exposições, saraus e etc. E é fazendo de conta que ensinamos e proporcionamos ricas experiências às crianças, que elas sairão da escola e aos poucos perderão o interesse pela arte pela cultura.

Muitas dessas crianças um dia serão administradores de empresas, diretores de escolas, professores, que sem ter conhecido a arte de maneira mais íntima e verdadeira, reproduzirão os velhos conceitos, o que faz com que o ciclo da negligência nunca tenha fim.
E por mais que nós professores, nos esforcemos tentado levar ao menos um pouquinho do que de fato deveríamos ensinar nos espaços escolares, o que nos acompanha é a frustração de saber que o papel craft pode até ser democrático, mas o ensino não.

SERmulher: A produção artística de Rosi Costa

Ter contato com arte é essencial para quem escolheu ser educadora, aliás, deveria ser para todas as profissões. Discutir sobre arte, processos de criação e materiais, com quem é artista, nos auxilia na criação de repertório para exercer nosso trabalho, seja em sala de aula ou em espaços de educação não formal.

Considero um privilégio ter contato com artistas de Joinville e região, e assim aprender, trocar ideias, evoluir. E por falar em arte joinvilense e troca de ideias, no dia 18 de fevereiro fui convidada para conhecer um pouco mais sobre as pesquisas e trabalhos da artista visual Rosi Costa, que desenvolve suas pesquisas e trabalhos abordando a mulher e seu papel na sociedade. Fiquei surpresa com a quantidade de projetos, estudos, trabalhos, materiais e principalmente, a determinação e brilho no olhar com que ela aposta na arte e seu poder de transformação social.

Rosi é daquelas mulheres com conhecimento de causa e que busca por meio de sua arte autobiográfica, instigar a sociedade a refletir sobre o modelo patriarcal ainda muito presente nos lares brasileiros. Embora cada vez mais as mulheres estejam mostrando sua força e conquistando novos espaços, ainda é preciso quebrar muitas barreiras. Há um longo caminho até conseguirmos o tão sonhado reconhecimento, seguidos pela igualdade de direitos e elaboração de políticas públicas que respeitem as nossas necessidades e escolhas.

E tem jeito melhor de propor questionamentos e reflexões, do que por meio da arte? É esse o papel da arte conceitual – foco da pesquisa e produção da artista. Em seu gabinete de curiosidades particular, ela apresenta trabalhos dos mais antigos aos mais recentes, que aguardam o momento mais oportuno para entrar em contato com o público. Produzidos a partir de diversas linguagens como fotografia, registro de performances e principalmente objetos, Rosi Costa apropria-se de peças de roupa, caixas de remédio, sapatos e bolsas, conferindo a eles a condição de arte.

Com diversas possibilidades de leituras, vem tentando desconstruir a ideia da mulher perfeita, que cuida do lar, precisa ter e ser responsável pela educação dos filhos, da mulher que sofre e aceita a violência física e psicológica de diferentes autores, submissa. Se tivermos que definir essa mulher, poderíamos supor que é quase sempre aquela que concorda com a premissa de que “menina veste rosa e menino veste azul”.

A bolsa é o objeto de destaque em sua poética – a ponto de se tornar quase uma obsessão – algo que para ela, possui um forte poder simbólico, como a sensação de segurança e conforto. Em muitos trabalhos é possível pensar na bolsa como extensão do corpo da mulher e a peça que mais sustenta a hipótese de se tratar de uma representação da própria artista. Outro ponto que merece atenção, é o uso das cores vermelho e preto, que tem presença constante em sua produção, funcionando como uma espécie de dualidade, realidades/personalidades opostas em uma quer chamar a atenção enquanto a outra se reprime no anonimato.

Em um desdobramento de seus estudos, a autora levou para exposição coletiva Além do 9×12, realizada na Associação de Artistas Plásticos de Joinville – AAPLAJ, a fotografia e a apropriação de objetos, que resultaram no trabalho intitulado “Domesticação”, de 2016. Em seu processo de criação, homenageia mulheres dos séculos XV e XVI proibidas de exercer a arte como profissão, além de discutir temas como as ditas “obrigações” femininas. Muitos séculos depois, as obrigações parecem continuar as mesmas, provocadas por situações que levam ao auto julgamento, enclausuramento emocional e a perpetuação dos paradigmas impostos às meninas e mulheres ocidentais desde a Grécia Antiga.


“Domesticação” é um grito de protesto e ao mesmo tempo um chamado que se estende as outras mulheres que de alguma forma, passam por momentos de dor, opressão, medo e tortura – seja ela física ou psicológica – e que anseiam por um olhar crítico, mas ao mesmo tempo, afetuoso, e que desperte a empatia acima do julgamento.

Rosi Costa também fala de um passado que traz consequências para o presente. Mesmo vivendo em tempos de internet, redes sociais, sororidade e feminismo, nossos desejos e sonhos ainda são ceifados por nosso pai, companheiro, filhos, amigos e tantas outras pessoas que desconhecem ou que são apenas mais um reprodutor de conceitos e valores ultrapassados.

Até mesmo as próprias mulheres, que por questões culturais, ajudam a perpetuar regras que colocam suas filhas em condição de ser indefeso, recatada, dotada de habilidades ditas exclusivas das mulheres dos anos 50.

Muitas pagam e outras ainda vão pagar pela lavagem cerebral da década de 50, momento em que cuidar das necessidades do marido era considerado cumprir com o seu papel. Estar sexualmente sempre disposta, manter a etiqueta, os bons costumes e se auto sabotar era sinônimo de felicidade no casamento. A tortura social psicológica calou e reprimiu quem já não tinha forças para gritar, fazendo com que mães solteiras, divorciadas, pioneiras e homossexuais fossem vistas com desprezo e preconceito.

A mulher contemporânea estuda, trabalha, é mãe solo, dirige, bebe e faz sexo no primeiro encontro, mas ainda assim precisa constantemente enfrentar os desafios e assumir as consequências de suas escolhas, o que torna a vida muito mais difícil e cansativa. Mas é no do dia a dia, na conquista do diploma e da profissão, donas de nosso próprio corpo e falando em alto e bom tom a palavra NÃO, que eu ainda me pergunto: Quanto nós temos das crenças de quem nos criou? Como isso afeta nossa vida, e a dos que estão a nossa volta? O Quanto reprimimos nossos desejos em nome da família, do trabalho e do julgamento de outras pessoas? Quanto de “Domesticação” habita em nós?

São algumas das reflexões que o trabalho da artista nos provoca e que convido você leitor ou leitora, a pensar e discutir com outras mulheres, parceiros, família e grupos sociais. Somente por meio do diálogo será possível desconstruir os padrões e amenizar o preconceito quando o tema é a mulher na sociedade.

O Carnaval joinvilense e a falta de investimento em cultura

Quando comecei a pensar sobre um texto de opinião a respeito do carnaval joinvilense, a primeira intenção foi procurar quem faz a festa acontecer, ou seja, organizadores, produtores culturais e grupos carnavalescos, além do desejo de despertar algumas boas memórias em quem sempre gostou de participar da folia.

Entretanto, para realizar a pesquisa era preciso entrar em contato com produtores ou pessoas que se destacam quando o assunto é carnaval em Joinville. Começo minha busca contatando alguns nomes, na esperança de que ao menos um deles contribuísse com falas e curiosidades, no que diz respeito à criação do(s) grupo(s) carnavalesco(s), preparação, organização do evento, e principalmente a pergunta de meu maior interesse: o que o carnaval representa para você?

Infelizmente ou felizmente, consegui contatar alguns produtores, integrante de escola de samba e até um pesquisador da área, porém todas as então “personalidades”, não sabiam ou não estavam dispostas para conversar naquele momento. E foi de conversa em conversa, que todos me encaminhavam a outro e outro e mais outro contato, sempre sem disponibilidade para responder com clareza minhas perguntas.

Após algumas tentativas, frustrada e com o carnaval da cidade batendo na porta, decidi abordar o tema em outra oportunidade. Mas que surpresa a minha, quando no dia seguinte, ao ler um dos jornais local, soube que a primeira noite (22/02) de apresentação e celebração de uma das manifestações culturais mais esperadas no Brasil, termina não com alegria e sentimento de dever cumprido, mas sim em pancadaria, bombas de efeito moral e tiros disparados pela polícia.

Falta de organização da festa? Despreparo da polícia? Uma fatalidade? Lugar certo, pessoas erradas? Acredito que os fatos ainda serão apurados, porém o prejuízo sempre vai ser da população. Triste mesmo é saber que não foi apenas um caso isolado, no segundo dia de comemoração (23), durante a apresentação do grupo de maracatu Morro do Ouro, na Rua das Palmeiras, centro de Joinville, presenciei a outra confusão, que foi motivo para pânico e correria. A acusação de que uma mulher havia roubado um grupo de foliões, causou o estopim da briga. Desta vez sem policiamento, puxões de cabelo, empurrões, socos, chutes e garrafas quebradas assustaram quem se divertia.

O clima era de indignação, muitos gritavam “BRIGA NÃO”, mas o resultado foi outra noite marcada pela brutalidade humana.
São esses episódios – não muito diferentes do que acontece em outros carnavais de rua pelo país afora – é que me fazem refletir sobre como estamos sedentos de cultura, seja no centro ou na periferia.

É preciso com urgência, sensibilizar as pessoas, ampliar o acesso às artes, à educação e passo a passo, ir construindo por meio dessas ferramentas, o pensamento crítico para uma cultura de paz. O que presenciamos ou a notícia que chegou até nós por meio dos jornais e comentários, é apenas o reflexo do quanto o país e o município vem sofrendo com o abandono, descaso e falta de respeito quando o assunto é cultura.

Quem vive da disseminação do sensível, precisa cada vez mais, buscar outras opções de trabalho que não o exercício da sua arte para poder sobreviver. A classe artística está desmotivada e cansada de viver só de esmolas. Cortes de verbas e um emaranhado de procedimentos burocráticos emperra a produção cultural, dificultando a participação e contemplação de projetos via leis de incentivos.

O desmonte, desmoronamento e fechamento de espaços culturais como a Cidadela Cultural Antarctica, só contribui com a violação dos nossos direitos garantidos pela constituição art. 125 “O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais”.

Com apenas mais um dos tantos direitos da população negligenciados, não saber festejar com responsabilidade e empatia é só a ponta do iceberg. O investimento precário por parte do governo, em arte e cultura influencia no que faz do humano, SER humano. Garantir o exercício dos direitos culturais não se trata apenas da produção de eventos ou vivências artísticas que contemplem apenas quem pode pagar por eles.

Boas peças de teatro, exposições, concertos, leituras entre outras possibilidades, e principalmente excelentes mediadores, podem contribuir no processo de desenvolvimento social, moral e ético da população, visto que, sem a emoção, experiência, encantamento, afeto e contaminação pela arte, não há sociedade que resista ao caos e a própria destruição.

O encontro da arte com a educação

Com curadoria pedagógica do Museu Bispo do Rosário (RJ) a mostra “O Grande Veleiro”, que está em exposição no Sesc Joinville até 27 de março, surpreende ao reorganizar a dinâmica das curadorias tradicionais, evidenciando o educativo que quase sempre, aparece em segundo plano no sistema da arte. Neste projeto a aposta está nos recursos pedagógicos, que recebem a condição de obras de arte, legitimadas pelo espaço expositivo.

É na experiência e interação do público, que o projeto curatorial faz todo sentido, sugerindo por meio de vídeos, imagens e objetos, novas conexões com a biografia e o trabalho do artista. Em destaque estão os jogos educativos como “A caixa dos escolhidos”, bordados e objetos propositalmente posicionados, que contribuem para a criação da atmosfera que nos aproxima do universo de Arthur Bispo do Rosário.

Intenção da curadoria ou não, as discussões presentes na mostra estão mais relacionadas a biografia do artista e a um conjunto de obras, do que aos conteúdos conceituais relacionados à elas. Mas “O Grande Veleiro” merece destaque pelas soluções interativas e convidativas que atraem leigos e iniciados, organizando um espaço democrático em que não é preciso ter conhecimentos prévios para poder aproveitar e aprender sobre arte, o mais importante é sentir e desfrutar da sua proximidade com a vida.