“Nasci artista e fui ser Juarez Machado”, o artista das bicicletas completa 80 anos

Por Celiane Neitsch

No dia 16 de março de 1941, veio ao mundo um dos artistas catarinenses mais queridos do Brasil, que hoje completa 80 anos dos quais mais de cinquenta, são de atuação e dedicação à arte e a cultura. Personalidade internacional, Juarez Machado é sinônimo de amor e persistência, exemplo para artistas em início de carreira e que sonham em viver de sua própria arte.

Juarez é um artista que construiu sua carreira dedicando-se a diversas áreas da criação, dentre as quais foi cenógrafo, mímico, cartunista, escultor, desenhista, escritor, designer, fotógrafo e etc. Não existiram limites ou barreiras que lhe fizessem recuar de seu grande sonho: Ser artista, ou como o mesmo declara em entrevistas “Nasci artista e fui ser Juarez Machado”.

Em homenagem e comemoração ao seus 80 anos, realizamos esta pesquisa que está dividida em três publicações (16/03, 23/03 e 30/03), com destaque para sua trajetória artística, passando pelas cidades que escolheu para viver e pelas principais obras deste multiartista joinvilense que ganhou o mundo.

O começo de tudo

Desenho de Juarez Machado aos 03 anos

Nascido em Joinville/SC, filho de João de Oliveira Machado e Leonora Busch Machado, Juarez Machado é o primeiro filho do casal, sendo 11 anos mais velho que o irmão – também operário da cultura – Edson Busch Machado. O menino-artista já apresentava indícios de sua desenvoltura para as artes, logo nos primeiros anos de vida. Aos 03 anos de idade, Juarez percebe o mundo à sua volta e capta por meio do desenho, o tanque de guerra espremido na borda de um jornal. O mundo vivia os horrores da Segunda Guerra Mundial.

Quando aprende a segurar o pincel e a misturar as tintas, nasce sua primeira obra em óleo sobre tela, na pintura é possível perceber um Juarez Machado ainda tímido, pouco vibrante, mas repleto de certeza acerca de sua escolha. O gênero escolhido é uma natureza morta, muito diferente do qual Machado será reconhecido quando ingressa profissionalmente no sistema da arte. Entretanto, a figura humana já se faz presente no detalhe do abajur que repousa sobre a mesa. Na mesma cena, retrata o livro aberto e os óculos de seu pai, que contrastam com o fundo da cortina em tom laranja e parede azul.

Primeira pintura à óleo. Acervo do IIJM (Joinville/SC).

Em busca da memória perfeita, Juarez relembra esses momentos “O primeiro quadro que eu pintei a óleo, eu tinha 11 anos, sem informação nenhuma, porque na cidade em que eu morava só tinha operários e donos da fábrica. Não havia biblioteca, museu, galeria de arte e eu sentia muita falta disso”. (CORERIO BRASILENSE, 2015)

Apesar de algumas dificuldades, a criatividade, curiosidade e inventividade, sempre estiveram presentes no dia a dia dos Busch Machado. A mãe dos artistas, Leonora Busch Machado, pintava leques para a antiga fábrica Minueto, da Cia Hansen, por suas mãos nasciam belíssimas peças exclusivas, objeto de desejo de muitas mulheres da cidade e até mesmo do Brasil. Já o pai, João Machado, passava semanas fora, trabalhando como caixeiro – viajante, vendia os mais variados produtos, além de ser um grande colecionador de relógios, armas e objetos antigos.

Por volta de 1958-59, prestes a completar 18 anos e ao lado de seu pai, Juarez entra pela primeira vez em uma exposição de artistas paranaenses na cidade de Joinville, era a “1º Mostra de Arte Moderna de Artistas Paranaenses”, que segundo ele,  foi “Num belo casarão, que ainda existe, na rua do Príncipe esquina com a rua Luiz Niemeyer. Curiosos e apressados como crianças, com largos passos corremos para ver os quadros a óleo de grandes pintores” (MACHADO, 2016, p. 14).

 É neste ambiente de muito trabalho, amor e incentivo às artes, história e cultura, que ainda em 1959 o artista inicia sua jornada profissional no caminho das artes. Decide deixar sua cidade natal e parte para Curitiba/PR, a fim de matricular-se na EMBAP – Escola de Música e Belas Artes do Paraná.

Alunos e professores da Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Curitiba/PR

Nas palavras do galerista Simões de Assis Filho (1995, p.05) “Como os impressionistas que viajaram em busca da luz, Juarez Machado, um eterno viajante, sempre disposto a enfrentar novos desafios e aventuras como estímulo para sua pintura, viajou, buscando novos lugares e novas emoções, procurando desvendar os ministérios da alma humana”.

A pensão de estudantes na Rua Comendador Araújo, foi apenas à primeira de suas paradas. Trabalhando na TV durante o dia e estudando na EMBAP à noite, Juarez Machado realiza sua primeira individual na Galeria Cocaco, em 1964. “Depois das aulas, iam todos para a única galeria de arte da cidade, a Galeria Cocaco, e lá se reunião com jornalistas, escritores, intelectuais, poetas, toda uma geração querendo ser artista […]” (BINI, 2016, p.13). O tema escolhido e que encantou os jurados da época, fora a bicicleta,  meio de transporte muito utilizado em sua terra natal. A obra “Operários do Itaum” é o primeiro dos muitos prêmios que ainda estavam por vir. 

Tela “Operários do Itaum” 1960.

É neste período que o artista diz ter conhecido e aprendido com grandes mestres da arte e do modernismo paranaense conforme Assis Filho (p.06, 1995), “Tive mestres geniais e fiz meus primeiros amigos pintores, amigos que ficaram para sempre […]”.

Entre seus professores, está o artista Ítalo- brasileiro Guido Viaro, que presava pela liberdade de expressão do artista, em oposição ao academicismo da época. Outros grandes mestres foram Waldemar Curt Freyesleben, Leonor Botteri e Theodoro de Bona. Um pouco das amizades e do que foi o início de sua carreira no Paraná, pode ser conferido na exposição “Juarez e os Amigos de Curitiba, realizada no ano de 2017 pelo Instituto Internacional Juarez Machado (Joinville/SC).

A mostra contou com a curadoria de João Osorio Bueno Brzezinski, e obras de artistas como Cleto de Assis, Domício Pedroso, Fernando Calderari, Fernando Velloso, Guido Viaro, Helena Wong, Jair Mendes, João Osório Brzezinski, Leonor Botteri, Luiz Carlos Andrade Lima, Mario Rubinski, Theodoro de Bona e Waldemar Curt Freyesleben.

Abraçando a pintura por amor e inicialmente, o trabalho na televisão por necessidade, Juarez Machado é contratado como cenógrafo da TV Paraná pelo diretor artístico da época, Aluízio Finzetto. Novas portas se abrem e o artista torna-se amigo de grandes nomes da dramaturgia brasileira, como Ary Fontoura, Odelair Rodrigues, Lala Schneider, Irmãos Queirolo, Jane e Maurício Távora, Paulo Goulart, Nicette Bruno, Millôr Fernandes, Ziraldo e Fernanda Montenegro.

Juarez Machado e Ary Fontoura – Programa “Família do Dr. Pomposo” 1962.

O professor e critico de arte Fernando Bini, curador da mostra “Juarez e os Amigos de Curitiba”, descreve o artista como “Jovem, provocador, ‘conquistador de cidades’, afirmando sua identidade, Curitiba começou a se tornar pequena para suas aspirações. Ela foi o começo de tudo, e queria esta cidade para ele, tudo foi muito rico, mas entendeu que seu período de Curitiba tinha terminado, precisava de espaços maiores, de mais ar para voar […]” (BINI, 2016, p.13).

Continua…

Referências

AQUINO, Vanessa. Irreverência de Juarez Machado. Correio Brasiliense, 10/03/2015.  Disponível em>> shorturl.at/fhqAB >> Acesso em: 15/03/2021.

ASSIS FILHO, Waldir Simões de. Juarez Machado: atelier de artista. Curitiba: Simões de Assis Galeria de Arte, 1995.

BINI, Fernando A.F. Juarez Machado e os Amigos de Curitiba: faço parte de Curitiba e Curitiba faz parte de mim. Joinville: Lápis Editora e Produção Cultural, 2016.

Recordações da época dos leques Minueto. Jornal Ndmais, 15/01/11. Disponível em>> shorturl.at/gvyG3 >> Acesso em: 15/03/2021.

Referências de imagens: redes sociais: https://www.facebook.com/juarez.machado1/photos_all

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4 Comments

  1. Grande artista ! Adoro as pinturas de Juarez Machado ! Que pinturas maravilhosas !! Fascinantes !!

  2. Fantástico artista, e rodeado por outros FANTASTICOS também. Bini, Helena Wong. Etc,etc,.

  3. Por que não continuaram as publicações?

    • Boa tarde!
      Muito obrigada pelo seu comentário.
      Peço desculpas por não ter continuado a escrever este texto, mas certamente ele será retomado. Juarez é uma pessoa muito querida, com quem tive a honra de trabalhar. Ele merece toda minha atenção e respeito. Em breve este texto terá sua continuação e contará com muitas pesquisas sobre o artista. Se quiser, entre em contato conosco para enviarmos a publicação completa assim que a mesma estiver disponível no site. Nosso e-mail: [email protected]
      Att Celane Neitsch


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