Entrevista com a escritora Beth Fontes

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Por Giane Maria de Souza

Musicista, professora, arteterapeuta e escritora, Elizabeth Fontes é uma daquelas pessoas que respira arte. Com vários livros publicados, entre eles destacam-se “Sobre Os Jardins” e “Um abraço é um laço”, em suas frases e versos a autora nos convida a viajar por um universo de fantasias e afeto.

Elizabeth é apaixonada pela leitura e pelos livros desde cedo, foi na escola que ela descobriu a importância da leitura e o quanto isto poderia transformar sua vida. “Ler promove o conhecimento, desenvolve o cognitivo e trabalha também com o campo sensorial, afetivo, estético e emocional do leitor. A leitura potencializa o imaginário e a ampliação de repertório, de palavras, de histórias, de assuntos no universo de quem lê”, comenta.

Nesta entrevista Beth (como é carinhosamente conhecida), fala sobre sua trajetória como leitora, escritora e artista. Revela quais foram os livros que marcaram sua vida, e se posiciona a respeito da necessidade de estimular o hábito da leitura em adultos e crianças, como um importante instrumento de formação e transformação social.

Giane: Como a leitura entrou na sua vida?

Beth Fontes: A leitura entrou na minha vida desde pequena. Fui para a escola aos 5 anos e desde ali, me encantando pela leitura e a escrita. Adorava ler as histórias das cartilhas. Amava as ilustrações! Os livros de leitura eram escolhidos pela professora e a hora da leitura era uma maravilha, cada um lendo em sua carteira. Depois podíamos trocar e ler o do colega. Era mágico. Meu colégio tinha uma biblioteca bem grande, com livros para pesquisa e livros para leitura. Aos 10 anos eu já podia “alugar livros sozinha”, escolher os livros e levá-los para casa.  Então, todos os fins de semana eu levava muitos livros e histórias para passear comigo. E este hábito me acompanha até hoje, passar o fim de semana com uma boa leitura.

Giane: Qual a importância da leitura para crianças, jovens e adultos?

Beth Fontes: Ler é uma das mais importantes pontes de comunicação com o mundo. A leitura tem um importante papel na formação do que somos. Primeiro, porque atua no processo de letramento, onde vamos aprender os códigos e símbolos para a representação gráfica da nossa fala e o nosso pensamento. Com esses códigos, desenvolvemos nossos processos cognitivos e podemos “ler o mundo”. A leitura nos aproxima de pessoas, promove o sentido social e coletivo, promove uma relação de conhecimento, compreensão e interpretação de si, do outro e do mundo. Ler promove o conhecimento, desenvolve o cognitivo e trabalha também com o campo sensorial, afetivo, estético e emocional do leitor. A leitura potencializa o imaginário e a ampliação de repertório, de palavras, de histórias, de assuntos no universo de quem lê.

Giane: Como podemos inserir a leitura na vida das pessoas que não gostam de ler?

Beth Fontes: Primeiramente é preciso ter em conta o tipo de livro, o estilo de escrita e o assunto que vai motivar, chamar o interesse daquele leitor. É preciso oferecer a ele um livro com um assunto de que ele goste muito. Além disso, esse texto, inicialmente, precisa ser curto. Textos longos são terrivelmente desprezados por quem não tem o prazer da leitura. Oferecer livros, textos, histórias curtas, com assuntos de interesse específico podem ser um bom início. Textos atuais, numa linguagem mais contemporânea e dinâmica, podem ser mais interessantes para o leitor se identificar e querer continuar a leitura.  

Giane: Como é possível ler o mundo sem o mundo dos livros?

Beth Fontes: Os livros são importantes e imprescindíveis instrumentos de leitura do mundo por conta da sua amplitude de alcance. Um livro torna qualquer ideia universal e permanece como registro histórico. Mas existem muitas outras formas de ler o mundo, principalmente por meio das ARTES e da CULTURA. A pintura, a música, as artes plásticas, a dança, o teatro, a fotografia, o folclore, o artesanato, a poesia, as narrativas orais, são formas expressivas e específicas de linguagem que nos ajudam também a perceber o mundo e o universo onde estamos inseridos e a nos comunicarmos com eles.  

Giane: Em tempos de pandemia, os livros são as melhores companhias? Por quê?

Beth Fontes: Em tempos de pandemia, não só os livros como as artes são nossas principais companhias. Ler, escrever, assistir um filme, ouvir uma música, fazer um trabalho manual, aprender um instrumento são as atividades mais realizadas nestes tempos. Porque as pessoas sentem necessidade de se nutrir de sensibilidade, de se alimentar de algo que lhes dê um pouco de alegria, esperança e que desvie por uns momentos o foco da angustia da solidão e do sofrimento. A realidade está muito dura, muitas são as dores que vemos e é impossível não se comover ou não se sentir tocado. A companhia dos livros traz horas de alento, viagens imaginárias, conhecimento, sensações e lembranças. Orações, estudos, aprofundamento. Encontro silencioso consigo mesmo. Talvez tenha sido, o livro, o “colo” de muitas pessoas. O abraço essencial. A tábua de salvação.

Giane: O que é preciso fazer para a formação de leitores?

Beth Fontes: Creio que para formar leitores é preciso:

– Estimular o processo de leitura desde cedo. Iniciar a criança com livros de imagens.
– Proporcionar o vínculo da criança com os livros por meio da contação de histórias, declamação de poemas, leituras mediadas, criação de narrativas.
– Criar situações para que o livro seja visto não só como ferramenta no processo de conhecimento, mas também como importante objeto de expansão da criatividade, expressão, socialização e imaginação, como sentido de bem cultural.  
– Promover situações em que leitura seja sentida como momento de prazer estético.
– Gerar oportunidades do encontro das crianças com os livros, seja em bibliotecas, escolas, clubes de leitura, bem como em rodas literárias, encontro com os escritores, saraus litero-musicais.

Giane: Quais os livros que mudaram a sua vida?

Beth Fontes: Os livros vão mudando e marcando a vida da gente em muitos momentos e em vários sentidos. Seja arrebatando a emoção, seja elucidando ideias ou mudando uma forma enraizada de pensar e ser.

O livro que marcou minha infância foi o primeiro que eu ganhei, aos 10 anos de idade, de uma tia que era professora: “O Palácio de Cristal”, de Luiz Gonzaga Fleury. Lembro que eu o li dezenas de vezes, porque despertou em mim o encantamento e a sede de ler. Mudou minha vida porque me mostrou que a leitura podia ser a melhor companhia para a menina tímida e introspectiva que fui e que se tornou “uma ratinha de biblioteca”, como costumavam me chamar.

Depois, na adolescência, me apaixonei pelo “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint Exupéry. Mudou minha vida, minha introspecção, minha timidez. Ganhei amigos por meio da música e dos livros, passei a integrar grupos de jovens, corais, times de voley e cultivar o sentimento de amar e de criar laços, tão importante nesta fase. Quantas cartas afetuosas foram escritas com as frases do livro…. Memórias afetivas que ainda são boas de lembrar.

Na fase adulta, inebriada pela poesia, lembro o que foi o arrebatamento ao ler Adélia Prado pela primeira vez, no livro “Bagagem”. Fiquei inteiramente emocionada, quis ler tudo da autora. Mudou a minha forma de escrever, mudou o meu conceito sobre poesia, traduziu muito do meu coração.

Muitos foram os livros e os escritores que acompanharam meu crescimento, minha maturidade na área profissional, especialmente os livros de Carl Jung e a Psicologia Analítica, que mudaram minha vida no sentido de elucidar o sentido da minha arte e da minha música como ferramentas na prática sensível da arteterapia.

Giane: Os livros transformam as pessoas ou as pessoas transformam os livros?

Beth Fontes: Os livros transformam as pessoas.  Levam as pessoas a pensar, sentir, perceber. A elucidar, compreender, encontrar. A emocionar e a esperançar. Livros promovem esse “movimento interior”. E essa energia, de alguma forma, é transformada em emoções, gestos ou em atitudes. Reverberam em mudanças. Como tão bem disse o escritor Mário Quintana, “Os livros não mudam o Mundo, quem muda o Mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”.

Giane: Que livro você considera imprescindível ler nos dias atuais?

Beth Fontes: Vivemos tempos de muita introspecção. Todos estamos em processo de mudança interior, buscando nossa essência, resgatando valores, sentimentos e aquilo que mais importa, a saúde, a espiritualidade e a vida. Tudo gira em torno dessa expansão da consciência para a responsabilidade planetária, para a valorização do sentimento coletivo, a empatia, as causas humanitárias e o sentido do cuidado de si, do outro e do mundo. Este retomar do pensamento para as urgências de ser, estar, viver, entender, crescer, transcender, me fazem lembrar o livro “Fernão Capelo Gaivota”, de Richard Bach, lançado nos anos 70. Talvez, retomar hoje esta leitura possa nos ajudar na compreensão de propósitos maiores a serem buscados dentro de nós, nesta nossa existência, diante de tudo o que temos vivido.

Giane: Como democratizar o acesso à leitura, aos livros e à escrita?

Beth Fontes: Ações concretas entre parcerias, por meio de políticas públicas federais, estaduais e municipais para garantir que todos os municípios sejam providos de uma biblioteca pública, bem como assegurar que todas as escolas públicas e privadas também sejam equipadas com Biblioteca Escolar.

A elaboração de leis e projetos que favoreçam a produção do livro brasileiro, que promovam a redução de impostos para editoras e livrarias bem como a isenção de taxas sobre a produção editorial brasileira, para reduzir o custo dos livros e favorecer o acesso a todos.

Projetos de formação continuada para professores, mediadores de leitura, contadores de histórias, bibliotecários, preparando estes profissionais para o desenvolvimento de projetos para o fomento do livro, da leitura e literatura junto aos alunos, comunidade escolar, famílias, população e seus municípios.

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1 Comment

  1. Giane Maria de Souza

    A Beth Fontes é uma querida. Escritora e leitora brilhante. E uma apoiadora do Arte na Cuca. Se leu e gostou, curta, compartilhe e apoio o Arte na Cuca no Apoia-se. Precisamos de sua ajuda para manter os trabalhos do site.


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