Em entrevista, o ator Robson Benta fala sobre arte e inclusão por meio do projeto “Cruz e Sousa para Ver e Ouvir”

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Foto na capa: Jackson Nessler

Por Celiane Neitsch

“Cruz e Sousa para Todos: Últimos Sonetos para ver e ouvir” é uma iniciativa inédita do ator e professor de teatro Robson Benta, que empresta sua voz e interpreta a obra do escritor catarinense Cruz e Sousa, para pessoas surdas e cegas. Os 48 poemas da obra Últimos Sonetos, contarão com a produção de um Videobook bilíngue (Português/Libras) e Audiobook (Português), que serão lançados nas plataformas digitais em abril, com acesso gratuito. Para mais informações clique AQUI.

Robson é um dos fundadores do instituto IMPAR, que desde 2012 atua na produção e execução de projetos voltados para formação de público por meio do Programa de Formação Cultural Arte para Todos.O projeto, “Cruz e Sousa para Todos: Últimos Sonetos para ver e ouvir” foi aprovado na categoria Letras – Livro, Leitura e Literatura do Prêmio Elisabete Anderle de Apoio à Cultura (Edição 2020) e está sendo executado com recursos do Governo do Estado de Santa Catarina, por meio da Fundação Catarinense da Cultura.

Em entrevista ao Arte na Cuca, o ator fala sobre arte, inclusão, a necessidade de combate ao racismo por meio de políticas públicas de igualdade racial e ações antirracistas, além da experiência de interpretar pela segunda vez, o poeta Cruz e Souza.

Ator e diretor de tetro Robson Benta.

Arte na Cuca: Em 1994, a convite da Cineasta Marília Emília Azevedo e dividindo o set de filmagem com a artista Zezé Motta, você interpretou Cruz e Souza no filme “Alva Paixão”. Como é para você como ator, poder dar vida mais uma vez ao poeta por meio da arte?

Robson Benta: Desde o primeiro contato da Maria Emília para fazer o teste para atuar no filme Alva Paixão eu tive o prazer de ser apresentado ao poeta por uma apaixonada por sua obra e por sua história. Maria Emília caminhou comigo pelas ruas da Desterro onde João da Cruz e Sousa deve ter passado. Paramos diante de construções que remontam à época em que ele viveu na Ilha. Nessas caminhadas líamos trechos de seus escritos, do roteiro do filme e sobre o que escreveram a respeito dele e de seus escritos, que foram me aproximando da obra e do artista.

Por ser também artista, vejo com dificuldade a separação da obra de quem a produz. Acredito que grande parte da invisibilidade imposta ao Cruz e Sousa e sua obra, deve-se ao fato de ser um homem preto. Vivemos num país onde a cultura negra ainda sofre com o racismo e optamos por trazer a obra do Poeta para as pessoas surdas e cegas trazendo junto a pauta do preconceito, por estarem ligadas. Construir esse projeto é mais uma contribuição para dar visibilidade à obra do artista Cruz e Sousa e discutir o tema do preconceito racial, que acompanhou o poeta durante toda a sua curta vida. Além disso, levar o simbolismo para pessoas com deficiência é também pautar o acesso das PCD’s aos produtos culturais, que é bandeira do Arte para Todos desde sua criação.

Arte na Cuca: Cruz e Souza foi um dos precursores da literatura afro-brasileira, e é figura de destaque na luta abolicionista. Enfrentou o preconceito da época e em 1885 publica em conjunto Virgílio Várzea, o livro Tropos e fantasias, obra em prosa, na qual se encontram textos contra a escravidão. O autor é marcado pelo combate ao racismo do qual foi vítima em diversas ocasiões e que, inclusive, o impediu de assumir o cargo de Promotor em Laguna/SC, para o qual fora nomeado. Você como ator negro e militante, acredita que a arte ainda privilegia uma elite cultural branca? Como os negros podem reivindicar seu espaço e lugar de direito?

Robson Benta: Infelizmente o racismo ainda interfere em tudo o que se relaciona a cultura. Nossa proposta com o projeto é unificar as demandas da inclusão e da pauta antirracista, porque elas estão juntas, não dá pra separar

 A obra do Cruz, ainda hoje é relegada a um plano secundário porque ele era preto, não dá pra negar. Como artista negro que trabalha pela inclusão, amplio a questão racial quando trago a poesia simbolista para pessoas com deficiência (no caso do nosso projeto para surdos, cegos e baixa visão) e colada nela a discussão do racismo lá no século XIX e agora no XXI. Racismo que limita a visibilidade da obra do CS até hoje.

Há muitos artistas e movimentos sociais que perceberam que a visibilidade e o espaço para produção, bem como o respeito pelos aspectos particulares da produção artística e cultural dos negros devem ser conquistas coletivas. Criar e levar ao público nossa arte é também cumprir o papel político do artista de questionar o racismo e os privilégios de uma pretensa elite cultural.

Arte na Cuca: O projeto cita como um dos objetivos a “democratização do acesso e dos direitos culturais de pessoas com deficiência”, qual a sua opinião a respeito da inclusão e acessibilidade desse público aos espaços e instituições culturais? O que a sociedade pode fazer para tornar a arte e a cultura mais inclusivas?

Robson Benta: Estamos experimentando pela primeira vez em nossa caminhada pela inclusão, a construção de um produto cultural realmente inclusivo: tudo o que conhecemos sobre inclusão está nesse trabalho. Surdos e cegos estão no processo de construção da obra. A apresentação ao público vai nos dizer o quanto estamos preparados para pensar em todos, quando fazemos nossa arte. Das pessoas, esperamos a ampliação do olhar sobre a arte, entendendo que as PCD’s são capazes de produzir e consumir arte. Desejo que esta experiência seja multiplicada por outros artistas e que a inclusão seja de fato praticada, que a convivência com PCD’s seja natural para todos.

Arte na Cuca: Para “Cruz e Sousa para Ver e Ouvir” foram selecionados 48 poemas da obra Últimos Sonetos. Em Piedade, a quarta estrofe do poema declara:

É como se o meu ser compadecido
Não tivesse um soluço comovido
Para sentir e para amar meus filhos!

O poema em si reflete e nos faz pensar na contemporaneidade do pensamento de Cruz e Souza. É possível fazer uma relação daquele Brasil com o atual, onde podemos analisar e concluir que os problemas sociais e culturais continuam muito similares? Como você, artista, vê essas obras que infelizmente são atemporais no que diz respeito à situação atual do país, com o sucateamento da cultura e o abismo social cada vez maior?

Robson Benta: Os Últimos Sonetos foram escritos praticamente na fase final da doença (CS morreu de tuberculose aos 37 anos em 1898) e podemos observar em muitos dos versos uma crítica social muito forte. Mais de um século depois de sua morte, algumas questões praticamente não avançaram.

Mesmo num momento em que a arte tem nos salvado em função da pandemia, o projeto de desmonte das pastas de cultura segue demonizando o artista e as obras que não atendem a um padrão moral e estético determinado pelo obscurantismo que tomou conta do nosso país. Apresentar Cruz e Sousa em Libras e num audiobook é um ato político que dá voz ao maior simbolista brasileiro, promove um debate sobre preconceito racial (o que o CS enfrentou e o que enfrentamos ainda hoje) e sobre a democratização do acesso a produção artística para pessoas com deficiência.

Quando? lançamento em Abril/2021.
Quanto? Gratuito. “Cruz e Sousa para Todos: Últimos Sonetos para ver e ouvir”
Onde? Nas plataformas digitais.

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5 Comments

  1. Avatar

    Os espaços de divulgação podem fazer também o papel de formação. As mídias alternativas são fundamentais para que a gente possa divulgar nossos trabalhos e saber o que está acontecendo na área da Cultura. Arte na Cuca.

  2. Avatar

    Fico bastante animado quando percebo que pessoas atuantes viabilizam espaços e inclusão aqueles artistas negados por suas diferenças vir a participar – mesmo os do passado (mas atuais) e Cruz e Souza é um deles – com suas obras e pensamentos as questões e experiências do mundo individual e coletivo. É importante e necessário que a voz do artista esteja sempre presente na atualidade da humanidade. Também é importante essa troca do conhecimento da obra do artista com público nas suas diferenças.
    Parabéns ao ator e professor Robson Benta do Instituto IMPAR, Arte na Cuca, Arte para Todos e todo o time que trabalha para tal finalidade.

    • Arte na Cuca

      Obrigada pelas palavras! Viva arte!

    • Avatar

      A inclusão é um processo sem volta. Cada um de nós pode fazer alguma coisa nos locais e nas funções em que atua. Arte é mesmo para Todos.

  3. […] Uma iniciativa inédita do ator e professor de teatro Robson Benta está levando o poeta catarinense Cruz e Sousa à comunidade surda e a pessoas cegas e de baixa visão, além de chamar a atenção para a necessidade de acessibilidade dos produtos culturais a todos, independente de suas especificidades. O projeto “Cruz e Sousa para Todos: Últimos Sonetos para ver e ouvir”, que conta com a tradução de 48 poemas selecionados do escritor e a produção de um videobook bilíngue (Português/Libras) para apresentar Cruz e Sousa e sua obra para a comunidade surda, além de um audiobook para permitir que pessoas cegas e de baixa visão também tenham acesso ao poeta. Para ler a entrevista com o ator e diretor Robson Benta, clique AQUI. […]


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