Artista Diego de Los Campos questiona acessibilidade à arte contemporânea por meio do projeto Desenhos de um real

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“Toda relação é comercial. Eu evidencio isso através de um código de relação muito claro, que são os desenhos de um real ”  Diego de Los Campos

E se qualquer pessoa, independente da sua condição social e financeira, pudesse ter um trabalho de arte contemporânea em casa? Essa é a proposta de Diego de Los Campos, que já produziu aproximadamente 23 mil desenhos para o projeto Desenhos de um real. Em seus trabalhos, o artista multimídia propõe reflexões e questionamentos sobre a vida em sociedade, o sistema capitalista, consumismo, religião, as relações entre o ser humano e a máquina, e a finitude do ser. Devido à pandemia causada pelo novo coronavirus Covid 19, nossa conversa ocorreu via videoconferência, e ao Arte na Cuca o artista fala sobre o conceito e filosofia por trás dos desenhos vendidos ao preço de um real, além do que espera alcançar com os desdobramentos de sua ação no futuro. 

AC: Em que ano e como teve início o projeto Desenhos de um real?

DIEGO: O projeto Desenhos de um real nasceu em 2006, quando passei um tempo desenhando, desenhando muito. Fiz vários desenhos. Depois fiquei me perguntando o que faria com aquilo tudo. Foi aí que surgiu a ideia de vender por um real. Comecei a ler “O Capital” de Karl Marx e então acabei me colocando no lugar de um trabalhador braçal, que ganha em torno de R$20 reais a hora. Pensei, vou fazer 20 desenhos por hora, e cada desenho faço em menos de 3 minutos, aí consigo vender por um real. Acredito que todas as nossas relações são de troca e de consumo e nos desenhos acabo meio que intencionalmente, assemelhando o trabalho do artista a linha de produção. No início, reunia os desenhos em uma pasta e levava-os para todos os cantos, além de não ter um compromisso com tamanho de papel e formatos. Minha intenção era compartilhar essa produção com as pessoas e fazer desses desenhos um projeto de acessibilidade à arte contemporânea. Com o tempo, fui lapidando a ideia, e o projeto foi tomando corpo, comecei a deixar a coisa mais profissional.

AC: O suporte que você utiliza é quase sempre papel em A5, reutilizado (blocos de pedidos, folhas de livros). Existe um conceito que justifica o uso desses materiais?

DIEGO: Sempre há um conceito, o reaproveitamento é algo incorporado em muitos dos meus trabalhos e processos. Procuro realizar os desenhos em suportes que encontro na rua, ou que estão parados em meu ateliê. Também compro blocos de papel para desenho, porém é algo diversificado, como um livro que ganhei, achei ruim e dei outro destino às suas páginas.

AC: Técnicas e materiais diversos são empregados na produção dos desenhos, como: nanquim, caneta esferográfica, lápis HB, tinta guache, entre outras. Esses são materiais que você usa com frequência em outros desenhos e projetos?

DIEGO: Sim, mas utilizo materiais que tenho à mão. Pode ser tinta guache, tinta de parede, canetas, ou o que tenho guardado e que naquele momento pode ser aproveitado para um bom trabalho.

AC: Em Desenhos de um real, o rosto é algo que quase sempre se repete. Qual a intenção por trás da representação?

DIEGO: O rosto humano é a parte do corpo mais representada na história da arte, é a representação do ser. Uma coisa que nosso cérebro faz naturalmente, e para mim surge de forma muito automática quando paro para desenhar. Faço essa representação em “modo automático”, como uma máquina. 

AC: Ao observarmos um conjunto de desenhos, é possível identificar que alguns traços são à mão livre, enquanto outros parecem mais precisos e mecânicos. A que se deve essa diferença?

DIEGO: O projeto entra em uma nova série, onde eu realmente utilizo máquinas programadas para desenharem por mim, então perde-se as formas orgânicas e ganha-se formas mais geometrizadas.

AC: Desenhos de um real tem uma proposta específica, que é facilitar o acesso da arte contemporânea a todos os públicos e classes sociais. Você já sofreu resistência do meio artístico, com a justificativa de que o projeto está desvalorizando seu próprio trabalho?

DIEGO: Sim, já ouvi de várias pessoas e artistas. Sobre as galerias, os Desenhos de um real não foram feitos para elas, mas também não me preocupo, pois o artista recebe somente 50% do valor da obra que é vendida por elas.

AC: Apesar de você produzir uma grande quantidade de desenhos dentro do projeto, todos são únicos. Mesmo assim, seguindo o ritual semelhante ao da gravura, podemos identificar a data, assinatura e o carimbo com uma numeração de todos os seus desenhos. Como você enxerga esses trabalhos espalhados pelo mundo daqui algum tempo?

DIEGO: Eu gosto desse sentimento de SER oceânico, ou como se fosse uma árvore espalhando sementes. A proposta de vender os desenhos ao preço de um real (uma realidade) é de que, quem os comprou não fique com todos os desenhos para si, mas que compartilhe com outras pessoas. Penso nisso desde 2012, quando os desenhos ganharam carimbo com a data de produção, numeração e assinatura. Mas pelas minhas contas, por serem os primeiros, em torno de quatro mil ficaram sem esse sistema de identificação. Depois adotei o carimbo porque não gosto de ficar contando.

Diego de Los Campos

Sobre o Artista

Natural da cidade de Montevidéu no Uruguai, reside no Brasil, mais especificamente na ilha de Florianópolis/SC, há mais de 20 anos, onde tem seu ateliê e trabalha como artista multimídia. Em seu currículo, possui Especialização em Artes Visuais: cultura e criação pelo Senac (2008 / 2009) e graduação pelo Instituto Nacional de Belas Artes Universidade da República, Uruguai. (1997).

Exposições Individuais

Entre suas individuais estão as mostras: Ano: 2019“O espírito da coisa”, O Sítio, Florianópolis, SC.  “Desenhos Contemporâneos”,  Sesc Joinville e Joaçaba, Joinville, SC. Ano: 2018 “Dialética Binária”, Museu Victor Meirelles e Centro de Arte Contemporânea W, Ribeirão Preto, SP. “Cabeças”, Espaço Estético CA UFSC, Florianópolis, SC . Ano: 2017 “Cabeças”, Ateliê Heloisa Junqueira, Ribeirão Preto, SP “Alcapony is back!”, Espaço Expositivo Centro do CCEven, Ufsc, SC. “Hamburguer”, Sítio, Florianópolis, SC Ano: 2016 “Desenhos de um Real”, Museu de Arte de Santa Catarina, Florianópolis, SC. “Antirretratos.4”, Instituto Joarez Machado, Joinville, SC.  “Antirretratos.3”, Galeria Municipal Pedro Paulo Vichietti, FLN, SC.  “Antirretratos.2”, Museu de Arte de Blumenau, Blumenau, SC. “Antirretratos”,  Espacio W – Ribeirão Preto, SP.

Para adquirir os Desenhos de um real, basta acessar a página do instagram ou facebook. É possível realizar a compra via depósito, com entrega agendada para todo Brasil e exterior. Entre em contato com o artista e conheça mais sobre o projeto!

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