ANC entrevista: Gleici Kannenberg

Clique abaixo para ouvir a postagem

Gleici Kannenberg é artista ceramista e professora de cerâmica da Casa da Cultura Fausto Rocha Júnior. Seu trabalho compreende desde peças utilitárias e decorativas (como as bonecas e os chiquinhos) até produções mais conceituais que já participaram de diversas exposições de arte em Santa Catarina e no Paraná. Com mais de 20 anos de experiência e persistência, faz da arte e do ensino da arte, sua profissão. O ANC bateu um papo bem bacana com a artista em seu ateliê, confiram o resultado que está maravilhoso:

Foto por: Walmer Bittencourt Junior

ANC: Como foi seu primeiro contato com a arte e principalmente com a cerâmica?
GLEICI: Minha formação inicial não é arte e sim administração de empresas, mas antes do meu casamento, já me envolvia com arte, fiz meu enxoval e também cheguei a pintar algumas telas, mas nas aulas que eu frequentava, não aprendíamos a desenhar, apenas a fazer esboços, luz e sombra e pouca coisa de perspectiva. Porém na hora de escolher uma profissão, fui fazer administração, mas não era o que eu realmente queria. Foi uma época muito difícil, eu estava casando e era um tempo em que a mulher até poderia se formar, mas não tinha a obrigação de trabalhar e sim de cuidar da casa e dos filhos. Acabei como administradora do lar. Apenas quando meus filhos estavam crescidos, senti o desejo de que precisava fazer algo, ter uma nova ocupação, mas não sabia exatamente o que. Foi nesse momento que decidi procurar por algum curso na casa da cultura em companhia da minha irmã. Queríamos ser alunas do curso de pintura em tela, justamente porque eu queria aprender melhor as técnicas que não aprendi quando fazia aulas, mas que surpresa a nossa em descobrir que na turma de pintura não tinha mais vaga, porém haviam exatamente duas vagas no curso de cerâmica. Fui um pouco relutante quando uma das professoras que realizavam as matrículas, sugeriu que fizéssemos aulas de cerâmica. Pensei: Cerâmica, vai sujar a mão? Não, não quero! Mas minha irmã me convenceu dizendo que deveríamos iniciar em cerâmica e quando surgisse vaga no curso de pintura, mudássemos para lá. Fiquei apaixonada pela cerâmica e principalmente com a possibilidade de poder materializar algo em três dimensões a partir do barro. Minha irmã em três meses desistiu, eu fiz os quatro anos e me formei em cerâmica, história da arte e desenho.

ANC: Quando iniciou seus primeiros trabalhos com a cerâmica?
GLEICI: Depois da minha formação na Casa da Cultura, corri atrás de muitos cursos, estudei e pesquisei, me envolvi de verdade com a cerâmica. Atualmente fazem 25 anos que trabalho diretamente com a cerâmica. Em 2003 sou convidada para fazer parte da AAPLAJ e participo de minha primeira exposição coletiva, em que levei duas de minhas obras. Lembro como se fosse hoje o quanto eu tremia pois ainda não percebia em mim o potencial para ser reconhecida como artista e tinha um certo medo do julgamento. Fui selecionada com uma das obras que apresentei e nesse projeto seriam escolhidos cinco novos artistas para exposições individuais e uma dela fui eu no ano de 2004 com a exposição “Enigma”. Dessa exposição em diante comecei a pensar e trabalhar ainda mais o meu lado artístico.

Foto por: Walmer Bittencourt Junior

ANC: Em que momento você se percebeu como artista ceramista?
GLEICI: Foi a partir da exposição que fiz na AAPLAJ em 2004 e assim fui trabalhando e participando de outras mostras além de expandir meu trabalho de peças figurativas para outras possibilidades de criação a partir do barro. Comecei a pensar meu trabalho de forma mais contemporânea e aprender o que é ser contemporâneo, estudei e um dos cursos que fiz foi com o professor e mestre Gleber Pieniz e assim fui aprendendo cada vez mais e melhorando ainda mais minhas peças e propostas artísticas.

ANC: Você separa seus trabalhos que são destinados para a venda dos que fazem parte de exposições com temáticas mais contemporâneas?
GLEICI: Sim, como por exemplo os trabalhos que fizeram parte da exposição “Pretexto” ,do SESC, minhas produções não seguem uma linha apenas figurativa e tem um toque mais conceitual em que não me preocupo em fazer algo tão utilitário ou decorativa, mas sim, reflexivo e para isso posso fazer uso tanto da cerâmica quanto do seu material bruto que é o barro.

ANC: O barro é um material que permite facilmente a expressão de nosso inconsciente e nossos sentimentos, pois nos envolvem no processo de amassar, bater, moldar, retirar excessos, colar, refazer e etc. Para você, como é essa relação com o material?
GLEICI: O barro é terapêutico. Sempre falo para minhas alunas que na cerâmica aprendemos três coisas que são fundamentais: Paciência, Desapego e aceitação.
A paciência porque o barro vai te mostrar que ele tem um limite, um tempo para ser feito. O tempo do amassar, moldar, secar, queimar e esmaltar até a peça estar pronta. Aprendemos o desapego porque as vezes dentro do forno, pode ocorrer o estouro de uma ou mais peças e assim precisamos nos desapegar daquele trabalho que as vezes ficamos semanas fazendo. E por último a aceitação, já que nem sempre o resultado sai conforme o esperado devido a diversos fatores como temperatura e qualidade do material.

ANC: Qual sua opinião sobre os espaços para venda da arte cerâmica em Joinville?
GLEICI: É muito difícil, o joinvilense não tem a cultura da cerâmica. Quando comecei na AAPLAJ existia um projeto destinado a venda de trabalhos produzidos por artistas de Joinville e um dos destaques era justamente a cerâmica, mas infelizmente por diversos motivos na época, não saiu do papel. Não sei exatamente o motivo, penso que é falta de entendimento sobre o consumo da arte, mas vez ou outra participo de feiras e estou produzindo peças para uma que já está programada.

ANC: E sobre os espaços para exposição?
GLEICI: Infelizmente não são bons. Porque a cerâmica ainda é vista como artesanato e não como um trabalho artístico. Temos muitas ceramistas, mas nenhuma conseguiu que seu trabalho fosse reconhecido a tal ponto. É preciso entender que não se trata simplesmente da produção de potinhos e vasinhos, mas sim de um trabalho que exige técnica, pesquisa e sensibilidade. Penso que para tentar mudar esse cenário, as ceramistas precisam se unir e lutar por reconhecimento, algo que estamos aos poucos fazendo na Casa da Cultura com as exposições.

Foto por: Walmer Bittencourt Junior

ANC: Além de artista, desempenha outras funções relacionadas a arte?
GLEICI: Sou artista e também professora do curso de cerâmica da Casa da Cultura Fausto Rocha Júnior desde 2008 e ministro aulas de cerâmica no meu ateliê, todas as quintas-feiras.

ANC: Sobre seu ateliê, qual o dia da semana disponível para as aulas e quais são os horários e preço da mensalidade?
GLEICI: Todas as quintas-feiras estou no ateliê durante o dia todo. Se não estiver aberto, pode chamar ou entrar com contato para que eu receba os interessados. Das 14:30 Às 17h já tenho uma turma em andamento e também posso ministrar aulas a noite ou avulsa (a combinar). A mensalidade é R$200,00 mas geralmente trabalho com pacotes, que pode ser R$450,00 e o aluno tem direito a 12 aulas. Queimas cerâmicas e material são pagos à parte conforme a necessidade de cada participante.

Powered by Rock Convert

Recommended Posts

1 Comment

  1. Avatar

    Parabéns pela entrevista Celiane e à Gleici pela bela trajetória! 👏👏👏👏👏


Adicionar comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *