Amandos Sell: 45 anos dedicados à arte e paixão pela pintura

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“O artista nunca está satisfeito com o que faz, sempre acredita que é preciso melhorar. Penso que esse é o objetivo de todo artista: sempre fazer o melhor possível, pois se você não dá o seu melhor, quem vai dar o melhor para sua obra?” – Amandos Sell

Amandos Sell, o artista joinvilense que aos 75 anos, continua a encantar adultos e crianças com suas telas Naïf, pinturas vibrantes e temáticas que representa o homem do campo, completou em março, 45 anos de carreira artística. Com quase meio século dedicado à arte, Amandos recebeu a equipe do Arte na Cuca em sua casa, para um café e bate papo repleto de memórias sobre uma Joinville dos anos 70 e 80 que respirava arte. Falou sobre sua trajetória e o que pensa sobre a atual situação da cultura na cidade.

ANC: Como foi seu início como artista plástico dentro do circuito profissional joinvilense e catarinense?

A.S: Posso dizer que meu início como artista foi bem interessante e marcante, pois fui descoberto pelo historiador Afonso Imhof, diretor do Museu do Sambaqui na época, que ao ver meu trabalho solicitou que procurasse o artista AntônioMir.

Logo depois eu já estava participando da 4º Coletiva de Artistas de Joinville, em 1974 e da coletiva em diante meu trabalho deslanchou, foram muitas exposições. Naquela época, Joinville era considerada a capital da cultura, era uma loucura, as exposições ferviam na noite de abertura. Contávamos com a presença de empresários, mas também pessoas de todos os níveis e poder aquisitivo.
Foi um tempo em que tínhamos galerias de arte muito boas na cidade, o que ajudou muito na divulgação, venda e consolidação do meu trabalho.

Marina Mosimann foi uma das pessoas que mais contribuiu com a comercialização de obras de arte e reconhecimento dos artistas, proprietária da Galeria de Arte Lascaux (1976-2000).
Infelizmente, a arte perdeu seus espaços e atualmente não temos nenhuma galeria de arte profissional atuando em Joinville, o que é péssimo para a cidade.

ANC: Quando você recebeu o convite para estar entre os artistas participantes da 4º Coletiva de Artistas de Joinville (1974), a arte Naïf já estava presente em suas telas?

A.S: Sim, já era considerado um artista Naïf. Não cheguei a expor minhas telas e estudos em arte acadêmica, apesar de gostar muito e admirar os pintores acadêmicos. Minha identidade como pintor, estilo e temática sempre foi Naïf.

ANC: E sua trajetória até alcançar o reconhecimento, como foi trilhar esse caminho?

A.S: Não foi nada fácil. Sempre falo que devemos começar de forma humilde, não adianta querer começar com grandes pretensões, como dizer – Ah, sou artista e só vendo meus quadros por 10 mil ou 20 mil reais, ou então não vendo. É uma grande bobagem a pessoa pensar assim. Precisa começar vendendo por preços mais acessíveis, produzindo pinturas menores… Até o momento em que você consegue “fazer seu nome” e ser conhecido entre as pessoas. Em minha opinião é assim que as coisas funcionam e foi assim que conquistei meu espaço.

ANC: Em que momento de sua carreira artística, percebeu que havia conseguido o que muitos tentaram: o sucesso e reconhecimento.

A.S: Pelo que me recordo de 78 aos anos 80 foi à época do auge da minha carreira, mas também da vida artística joinvilense. Foi tudo maravilhoso, aconteciam muitas exposições, minha arte estava em Camboriú, Florianópolis, Curitiba. Eu participava de diversas coletivas, realmente era o agito, tanta gente que era quase impossível circular dentro dos espaços. Sinto por isso tudo ter acabado. Hoje nas exposições, vemos sempre as mesmas pessoas, que são os artistas envolvidos e alguns conhecidos, sem contar a falta daqueles que tem poder aquisitivo e investem em arte.

ANC: Como é completar 45 anos de carreira como artista plástico joinvilense?

A.S: Foi uma vida de bastante luta, trabalho para obter divulgação. Acredito que consegui e que meu esforço valeu a pena, pois fiz meu nome e minha arte dentro da cidade com a presença do público que sempre me prestigiou. Às vezes as pessoas me param na rua, e pedem encomendas de trabalhos solicitando minha visita em seus escritórios. Nesses 45 anos, alcancei sim certo prestígio e sou grato por isso.

ANC: Durante esses 45 anos de carreira, quais foram às inspirações de Amandos Sell na pintura e arte em geral?

A.S: Não poderia dizer que me inspirei em outros artistas, apesar de admirar vários. Acredito ser preciso procurar a inspiração em nosso interior e ir aperfeiçoando, no meu entorno e também frequentar muitas exposições, isso ajuda no processo de elaboração da produção artística. Sobre me inspirar na natureza, eu a observo, mas entre olhar a natureza e pintar, é outra coisa, pois meu trabalho foge do real. Vou desenhando e colorindo de acordo com minha forma de pintar, as cores, o céu vermelho, lilás, marrons, de começar em um tom e ir gradeando as cores para ter certa sequencia e contraste, como eu posso mudar totalmente. Isso é tudo imaginação do artista, liberdade e descompromisso com o real.

ANC: Uma pintura em especial nos chamou atenção, por se diferenciar das outras telas que estão expostas nas paredes da sua casa, principalmente na questão das cores. Nela podemos perceber a predominância dos tons de ocre, marrom e verde. Seria outra fase de sua arte?

A.S: Não. Isso eu posso continuar fazendo até hoje, porque as cores estão aí para serem exploradas. Sobre fases, houve um tempo em que eu usava tons mesclados na representação das nuvens no céu, era quase um “Naïf-Acadêmico”, mas me dei conta de que estava fugindo ao meu estilo para algo próximo do acadêmico, então parei de pintar dessa forma. Mas mesmo assim na época – anos 90 – venderam muito, as pessoas adoravam.

ANC: Além da pintura que o consagrou, outras linguagens artísticas o interessaram a ponto de produzir e expor?

A.S: Meu trabalho sempre esteve voltado para a pintura. Cheguei a fazer alguns desenhos, mas não me identifiquei com a técnica.

ANC: Falamos sobre a falta de uma galeria comprometida com a venda de obras de arte, qual sua opinião a respeito dos artistas que participam de feiras de rua?

A.S: No começo eu cheguei a participar de feira, achava tudo válido. Mas não acredito que seja um bom meio para o artista que deseja “fazer o seu nome”, acaba que as coisas se misturam e você fica conhecido como um feirante, o que desvaloriza o trabalho do profissional. Acho legal para quem se identifica com essa modalidade, porém eu não me identifico.

ANC: Nesses 45 anos como artista atuante, qual sua percepção a respeito do cenário cultural e espaços dedicados a arte em Joinville na atualidade?

A.S: Percebo uma decadência no que diz respeito à arte e cultura na cidade. Em minha opinião, um dos motivos que acabou contribuindo para tal situação foi à venda das grandes empresas joinvilenses para as multinacionais. Os donos dessas empresas moram em outros países e acabam não se envolvendo com a arte e cultura daqui, diferente do passado, quando os grandes empresários valorizavam, compravam e investiam em arte. Agora o interesse é focado na produção e no lucro.

ANC: A arte contemporânea vem ganhando cada vez mais força e espaço entre os artistas e nas exposições joinvilenses, de alguma forma isso te afeta por trabalhar com a pintura mais tradicional?

A.S: Sobra mais pra mim! (risos). Cada artista tem o direito de se expressar da maneira que bem entende, não tenho nada contra quem produz dentro da linha do contemporâneo e seus materiais, desde que faça algo de qualidade. Porque tem muita gente aproveitando essa liberdade para produzir trabalhos fracos, que precisam melhorar e se aprofundar mais em suas poéticas.
Mas acaba sendo algo relativo, pois também existem péssimos pintores querendo entrar em exposições, é normal isso, sempre haverá bons e maus artistas.

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