PATRIMÔNIO ABANDONADO

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Costumeiramente, ouvimos falar que o patrimônio cultural da cidade está abandonado. A partir desta afirmação, quero estabelecer uma reflexão sobre o abandono patrimonial, político e de usos sociais. Existem numerosas percepções sobre o abandono do patrimônio e suas implicações ideológicas. Primeiramente, devemos refletir sobre a chancela do patrimônio culturalmente protegido enquanto um bem coletivo pelo poder público. Apesar de temo-los enquanto protegidos, inventariados e tombados em sua esfera institucional, por exemplo em nossa cidade – monumentos, obras de arte, edificações, sítios arqueológicos, paisagens culturais, acervos documentais, museus, arquivos e outros – são bens que, não necessariamente, refletem os interesses da coletividade.

Dentro de uma comunidade, seja família, igreja, rua, bairro, local de trabalho, lugares de sociabilidade, escolas, entre outras, existem inúmeras comunidades. Portanto, comunidade é uma palavra que não pode ser interpretada no singular, mas sempre no plural. Dentro de uma cidade existem múltiplas comunidades. Uma cidade é um espaço de produção de sociabilidades e de produção cultural plural, pelo que, o que é reconhecido pelo Estado como um bem cultural não é, necessariamente, e de modo direto, reconhecido pelas múltiplas comunidades com interesses, trajetórias, formações e expectativas distintas que formam uma sociedade.

Por isso, alguns bens culturais são defendidos por algumas pessoas e outras não. Alguns indivíduos se identificam com determinados monumentos, igrejas, museus, documentos, paisagens, histórias, enquanto outras não se veem representadas. Neste caso, o não-reconhecimento não pode ser tratado como abandono; laços de pertencimento e de identificação social e cultural são constructos sociais, a partir das experiências vividas pelos indivíduos. As pessoas possuem formações diferentes, portanto diferentes olhares e percepções sobre o bem público.

O Fundo Domínio Dona Francisca custodiado no Arquivo Histórico de Joinville, por exemplo, pode não fazer sentido para a senhora que trabalha na limpeza daquele equipamento cultural. Se um bem público não estabelece diálogo com quaisquer das múltiplas comunidades que a cidade possui, ele não existe. Um bem cultural somente torna-se vivo quando é reconhecido socialmente, e, para o reconhecimento, existem escalas de valores, ou seja, mesmo quando a senhora do Arquivo Histórico tomar ciência quanto à história do Fundo documental que formatou oficialmente a história da cidade, talvez lhe confira dimensões distintas de importância; quer dizer, somos movidos por nossas subjetividades, a partir de experiências, interesses e expectativas de vida.

Por outro lado, o fato de um patrimônio não ser reconhecido por alguns segmentos sociais, não significa que possa ser descartado, destruído ou despatrimonializado – ou mesmo registrado sem que a constância dos processos educativos que difundirão sua existência junto à população ocorra. A interlocução do bem público com as múltiplas comunidades deve ser constante, não se abandona algo que não se conhece socialmente – ainda que o conhecimento não tenha relação com a afetividade e a identificação. A questão-chave é que nenhum patrimônio, do ponto de vista simbólico, é abandonado.

Outrossim, problema é quando os gestores, vereadores, prefeitos, deputados, conselheiros de cultura não entendem a função e a importância de um bem tombado, inventariado, como um museu, uma edificação histórica, uma coleção documental, um monumento ou um arquivo público e suas relações dialógicas com as comunidades. A ausência desse entendimento faz com que o poder público invista os recursos em outros serviços como eventos e propagandas; concretamente políticas de abandono que passam a existir para determinados setores ou bens públicos.

A falta de investimentos públicos, incentivos fiscais e manutenções em alguns bens culturais protegidos por inventário, registro, tombamento, provoca, sim, a pátina do abandono. A seleção de priorização de investimentos é uma ação política definida, consciente, e, sobretudo, daquele que escolhe onde investir o dinheiro – por exemplo, se na criação de um memorial novo ou na manutenção de um museu histórico; se no destombamento ou no incentivo fiscal para a sua proteção; se na compra de equipamentos modernos ou no sucateamento destes. Por isso, quem tem maior responsabilidade de proteger e fiscalizar os bens preservados culturalmente são o munícipio, o estado e a União. É preciso desmistificar que bens culturais em situações precárias são simplesmente abandonados, vez que, na verdade, não são priorizados pela gestão.

Para entender o porquê de determinados setores receberem menos ou nada receberem, acompanhe o quanto o seu munícipio investe nos equipamentos públicos, na sua área de interesse, não somente em folha de pagamento, mas na destinação dos fundos públicos, seja na saúde, na educação, na cultura, na mobilidade urbana, quando o investimento é, com supremacia, destinado para uma ação, outra ficará desprovida de recursos. E isto faz parte das escolhas políticas dos gestores e dos legisladores, mas estes são escolhas nossas.  

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1 Comment

  1. Avatar

    Parabéns Giane pela importante reflexão.


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