NOSSA CIDADE NO MAPA DAS ARTES – Entrevista com Celiane Neitsch Por Giane Maria de Souza

Clique abaixo para ouvir a postagem

Foto: Walmer Bittencourt Júnio. Exposição “Vanitas” de Juli Rossi.

Celiane Neitsch é arte-educadora e idealizadora do projeto Arte na Cuca. Trabalhou como professora de arte em escolas particulares de Joinville e como mediadora em diversas exposições de arte na cidade. Atualmente, dedica-se ao site Arte na Cuca e a projetos de formação em cultura voltados para o público não-iniciado, e tem como propósito contribuir para a democratização do acesso à arte para todas as pessoas, independente de suas limitações físicas ou classe social.
Para conhecermos um pouco mais a respeito de seu trabalho, família e posicionamentos, ela é a primeira entrevistada da Coluna “A cidade que me pertence”.

Você pode nos falar um pouco sobre a sua trajetória familiar, infância e juventude?

Nasci em Joinville e cresci na Rua Major Gercino nº40 no Bairro Floresta. Fui criada pelos meus avós Sélia Sasse Neitsch e Lourival Alfredo Neitsch, falecido em 2003. Sou a segunda filha de quatro irmãos, Cleiton, Tatiane e Henrique que faleceu em 2019.

Minha Oma, como se denomina avó em famílias descendentes de imigrantes alemães, me adotou, porque meus pais tinham problemas com vícios e instabilidade financeira. Sempre chamei os meus avós de pai e mãe. Minha infância foi como a de qualquer outra criança de classe média baixa, estudei sempre em escola pública, brinquei com meus vizinhos, andávamos de bicicleta, subíamos em árvores. Meu avô tinha uma horta no quintal de casa que era o meu gabinete de curiosidades, fiz muitas sopinhas e comidinhas com barro e cebolinha verde.

Além dos meus avós, participaram da minha construção como ser humano, meus tios e tias, em especial uma prima, Iara Neitsch Honorato da Silva, quem sempre me incentivou a ler, estudar e ingressar em uma universidade. Venho de uma família que nunca esteve próxima do circuito de arte, além do contato proporcionado pelas aulas da antiga Educação Artística na escola.

A primeira vez que adentrei em uma sala de cinema foi no ano de 1998 para assistir Titanic, a primeira vez que entrei em um museu foi por meio de uma visita proporcionada pela escola, visitamos o Museu de Arte de Joinville (MAJ).  Lembro de ter visto no Anexo do MAJ uma exposição da artista Priscila dos Anjos e na sede a obra “Salvai nossas Almas”, do artista Siron Franco, a qual me deixou maravilhada.

O que te levou a se interessar pelo mundo das artes?

Esta é uma história curiosa, quando eu tinha uns 12 ou 13 anos, minha prima Iara estava estudando para o vestibular da Univille para ingressar no curso de Letras. Em meio a tantos livros e materiais, encontrei um folder de apresentação de todos os cursos da Universidade. Comecei a folhear até a página que anunciava o curso de Artes Visuais, eu não sabia quando e nem como, mas na hora pensei: é isso que vou fazer.

Muitos anos se passaram e aos 18 anos eu fui trabalhar em uma empresa de ferramentaria do meu tio, o salário era baixo e não conseguia me organizar financeiramente para levar o projeto da Universidade adiante. Aos 19 anos, incentivada pela prima Iara, iniciei o curso de Artes Visuais na Aupex e cheguei a cursar aproximadamente, dois anos letivos. Entretanto, senti que faltava um contato real com a arte, e por esse e outros motivos declinei do curso.

Aos 24 anos vislumbrei a possibilidade de ingressar no Curso de Licenciatura em Artes Visuais da Univille via financiamento estudantil (FIES). A Universidade abriu a minha mente e mudou totalmente o meu jeito de pensar e ver o mundo. Durante os quatro anos de Curso – com altos e baixos em minha vida particular – aproveitei todas as oportunidades que o ambiente universitário me proporcionou, fui estagiária na educação infantil, bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid) trabalhei em um espaço de contraturno infantil, participei de todos os cursos e palestras oferecidos e iniciei uma aproximação com o circuito profissional de arte e trabalhei como estagiária do Instituto Internacional Juarez Machado (IIJM), cujo espaço, coincidentemente, inaugurou no mesmo ano que em que me tornei uma estudante universitária.

Como foi a experiência de trabalhar no Instituto Internacional Juarez Machado (IIJM)?

Lembro como se fosse hoje, o Centro de Ciências Humanas e Biológicas (CHB) funcionava como uma secretaria dos cursos de humanas e nós acadêmicos, recebíamos a partir dele, os comunicados sobre vagas de estágio, assim tomei contato com a abertura de vaga para a monitoria do IIJM. Liguei para lá e quem me atendeu foi a Melina Mosimann, muito simpática pediu para que eu fosse até lá no dia seguinte. Cheguei e conversei com ela e com o Germano Busch, não os conhecia, os dois me comunicaram sobre as demandas de trabalho na instituição, salário, entre outras questões, aceitei a oportunidade, sem mistério foi uma entrevista objetiva e tranquila.

O Instituto estava no seu início, então, a demanda de trabalho era pequena, entretanto, aproveitei todas as oportunidades proporcionadas pelo espaço e aprendi muito com os artistas que circularam pelo IIJM, sobretudo, com o grande mestre Juarez Machado.

 Qual a importância de artistas consagrados como Juarez Machado para a história da cidade de Joinville?

Para mim, Juarez é um exemplo de persistência, força e propósito, quando reflito sobre a arte joinvilense. Ele me inspira a continuar trabalhando e insistindo nesta área, para atuar na condição de profissional e não como um hobby. Muitas pessoas em Joinville, ainda não conhecem o trabalho e a arte de Juarez Machado e isso, concluí após trabalhar no IIJM. O valor deste artista, a sua versatilidade, um artista de com muita pesquisa e estudo na sua produção que discorre sobre numerosas linguagens. A inventividade de sua obra é desafiadora, Juarez Machado não é somente um artista de Galeria, está além dessa perspectiva, estamos muito acomodados a vislumbrar uma face do trabalho dele.

Precisamos urgentemente voltar os nossos olhos para a vida e a obra deste artista, que assim como outros, a exemplo de Schwanke colocaram a nossa cidade no mapa das artes, nacional e internacional.

 Qual a importância dos artistas que estão alheios ao campo da consagração artística na história das artes de Joinville?

Acredito que ainda me falta muita pesquisa e trabalho no campo das artes, para que eu consiga exprimir uma opinião com propriedade a este respeito. Contudo penso que  a profissionalização dos artistas ainda é um caminho a ser percorrido. E talvez os artistas, ainda façam arte como na década de 1970. Artistas como Antônio Mir, Albertina Ferraz, Edson Busch Machado, Hamilton Machado entre outros, foram além do seu tempo. Por causa deles e de outros artistas, dentro e fora do campo da consagração, não teríamos o Museu de Arte de Joinville (MAJ), a Coletiva de Artista, a Associação dos Artistas Plásticos de Joinville (AAPLAJ) e outros espaços conquistados por esta geração. Mas e agora? Tenho a impressão de quem quer evoluir profissionalmente no campo artístico, tem que migrar de cidade e seguir carreira em outras cidades ou em outros países. A arte não é somente um hobby, quem quer produzir artisticamente, sem compromisso de profissionalização restringe-se a sua casa, roda de amigos, a arte profissional, precisa, sob o meu ponto de vista de estudos, técnicas, pesquisas e difusão.

É possível transformar a cidade de Joinville em um grande ateliê de produção artístico e de formação cultural? O que é possível fazer para alcançar este sonho?

Nós estamos na fase de voltar a sonhar. Prova disso, é a movimentação do Conselho Municipal de Política Cultural (CMPC) que vislumbra uma nova fase, agora com o apoio manifesto do secretário de Cultura, o agente cultural Guilherme Gassenferth. Muitos artistas, professores e produtores e agentes culturais encontram-se sempre em defesa da cidade e das artes, não abandonam a militância. A Cidadela Cultural Antárctica é um espaço com potencial de ser um grande ateliê artístico. Entretanto, nos cabe pensar e ocupar estas instituições culturais, lhe conferindo novos usos, para que  a arte exerça seu poder de transformação social. Devemos abraçar este lugar e outros lugares de memória da cidade, no campo das artes e da cultura. Temos que nos apropriarmos destes espaços para estruturar uma política pública em conjunto com o poder público. A Cidadela Antárctica deve ser um conglomerado de instituições culturais para conferir vida em um espaço que deve ser de todos/as/es os joinvilenses, os turistas, os migrantes, os imigrantes. Joinville tem condições de ser uma cidade exemplo de desenvolvimento artístico e cultural, basta nos organizarmos para alcançarmos este objetivo.

 Como surgiu a ideia de criar o site Arte na Cuca?

O site Arte na Cuca surgiu em 2017 quando estava na Universidade. Os cursos exigiam horas atividades complementares, além do conteúdo em sala de aula, então comecei a participar das atividades culturais disponíveis na cidade. Costumava arquivar e colecionar os banners ou folders dos eventos em uma pasta no computador. Entretanto, nunca acompanhei a agenda dos eventos culturais, apenas guardava o que considerava importante para completar as minhas atividades complementares.

Ainda em 2017 conheci o meu companheiro Walmer Bittencourt Júnior, acadêmico do Curso de Cinema na Unisociesc, que já trabalhava na área de publicidade. Aproveitei a minha experiência e as pesquisas para o desenvolvimento do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre mediação cultural em espaços expositivos de Joinville e organizamos um site, como uma proposta de espaço virtual destinado a divulgar a agenda cultural, os eventos culturais e as produções artísticas da cidade. Desde então, estamos trabalhando, fizemos mudanças, nos reorganizamos para desenvolver projetos de formação em cultura e outras possibilidades que o ambiente virtual proporciona.

Como foi o processo de consolidação do site Arte na Cuca?

O Arte na Cuca completará em outubro quatro anos de existência, resultado de muito trabalho, persistência, propósito e força de vontade. O site se consolidou por meio dos apoios dos nossos leitores e pessoas que compreendem e incentivam a proposta do projeto. Trabalhar com comunicação e formação de público na cidade de Joinville é muito difícil, muitas pessoas não compreendem a importância da difusão e comunicação nas artes, mas nós insistimos, pois acreditamos que não há outro caminho para o reconhecimento do fazer artístico, que não seja a formação de público.

Como o site Arte na Cuca se mantêm financeiramente?

Nos dois primeiros anos o projeto foi executado sem recursos financeiros, voluntariamente. Com força de vontade e propósito Luciano Itaqui, Walmer Bittencourt Júnior e eu empreendemos campanhas de crowdfunding, de financiamento colaborativo no  https://apoia.se/artenacuca, mas após quatro anos de trabalho árduo e contínuo, nossa meta de R$ 1.000,00 reais mensais ainda não foi alcançada. É um valor irrisório, uma ajuda de custo para a gasolina, telefone, internet, que não paga os custos dos profissionais envolvidos no projeto. O trabalho em um ambiente virtual exige disciplina e profissionalismo, tanto quanto em um espaço físico, além do processo de pesquisa, desenvolvimento de projetos, organização, semiótica, design, redação, editoração, layout, revisões, entre outras questões.

Como as pessoas podem colaborar com o site Arte na Cuca, seja financeiramente ou na divulgação dos seus projetos culturais?

Para apoiar financeiramente, é possível realizar o cadastramento na campanha de financiamento coletivo https://apoia.se/artenacuca , aceitamos contribuições esporádicas ou mensais via boleto bancário e depósito em conta. Estamos disponíveis para parcerias institucionais, projetos de formação em cultura, de arte educação e aceitamos contribuições para o site, agenda cultural, divulgação de projetos e publicações literárias, de críticas artísticas e artigos de opinião sobre o campo cultural pelo e-mail [email protected]

Qual a importância do Sistema Municipal de Cultura (SMC) para um espaço virtual como o Arte na Cuca?

Em teoria o SMC poderia e deveria ser um Programa de Política Pública, de Estado e não de governo, que deveria assistir não somente o Arte na Cuca, mas todos àqueles que ousam empreender no campo da cultura e da arte. Infelizmente, o executivo municipal, nas duas últimas gestões, desarticulou as políticas culturais e desmontou e precarizou os espaços culturais da cidade. Nós seguimos com o projeto cultural do site Arte na Cuca, em meio ao caos político e pandêmico, apoiando e divulgando o trabalho dos artistas e produtores culturais dentro das nossas possibilidades e limitações. Em 2021 será realizada a revisão do Plano Municipal de Cultura (PMC), acreditamos que será um momento de fortalecer as políticas culturais e o Sistema de Desenvolvimento pela Cultura (SIMDEC), crucial para o fomento e o desenvolvimento da cadeira produtiva das artes e da cultura na cidade.  Espaços físicos ou espaços virtuais de cultura exigem trabalho, projetos, demandas e profissionalismo e devem ser reconhecidos como espaços de criação, formação e difusão cultural. Os espaços virtuais tornaram-se importantíssimos no momento atual por conta da pandemia da Covid-19. Enquanto muitos espaços culturais, infelizmente tiveram que fechar as suas portas e empreender outras formas de sobrevivência e de trabalho, o site Arte na Cuca manteve-se no seu trabalho de auxiliar os artistas e os produtores culturais na divulgação dos seus trabalhos.

Sendo assim, é mportante enfatizar que: “O SMC também determina a promoção da cultura em toda a sua amplitude, buscando os meios para realizar o encontro dos conhecimentos e técnicas criativas, concorrendo para a valorização das atividades e profissões culturais e artísticas e fomentando a cultura crítica e a liberdade de criação e de expressão como elementos indissociáveis do desenvolvimento cultural”, Plano Municipal de Cultura (2012).

Quais as novidades e os projetos que serão realizados pelo Arte na Cuca no ano de 2021?

Neste ano, pretendemos continuar a promover a formação em cultura e, deste modo, iniciamos uma parceria com a pedagoga e contadora de histórias Carol Spieker, que será nossa curadora com dicas e resenhas literárias. Estamos desenvolvendo um projeto em parceria com o Arquivo Histórico de Joinville (AHJ) que será lançado no mês de março, período de aniversário da cidade de Joinville e do AHJ. Estamos organizando um projeto de exposição virtual com artistas joinvilenses direcionado para reflexões sobre o feminismo e suas poéticas.

Recommended Posts

Nenhum comentário por enquanto!


Adicionar comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *